Depois de um carro blindado ter atropelado uma manifestante numa das maiores avenidas da capital moçambicana, o caos e a tensão subiram de tom em Maputo. A cidade tem estado paralisada na manhã desta quarta-feira, com centenas de manifestantes a responderem ao pedido do candidato presidencial Venâncio Mondlane para bloquearem as principais artérias da capital moçambicana, com carros parados na estrada, com cartazes e a cantarem o hino nacional. E a polícia tem usado gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes.
Em vários momentos houve tensão entre manifestantes e as autoridades — um dos piores, registado em vídeo, aconteceu às 09h30 (07h30 em Lisboa), na avenida Eduardo Mondlane, quando um carro blindado avançou sobre os manifestantes a alta velocidade, atropelando uma mulher que participava nos protestos contra os resultados eleitorais de 9 de outubro. Nas imagens, publicadas por várias pessoas nas redes sociais e pelo jornal Canal Moz no Facebook, é possível ver a jovem no meio da rua, atrás de uma grande faixa de apoio a Modlane antes de ser atropelada.
A mulher foi, de imediato, transportada por outras pessoas ao hospital em estado grave. O exército moçambicano já reagiu em comunicado de imprensa, lamentando “profundamente o “ocorrido”. As Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) dizem que sendo “uma Força credível ao serviço de Moçambique e dos moçambicanos estão comprometidas com a observância dos padrões mais elementares do Direito Humanitário e dos direitos humanos”. E por isso garantem que “o incidente será rigorosamente investigado para assegurar que este tipo de situações não volta a acontecer”.
As FADM começam por esclarecer que se tratou de um atropelamento acidental “por uma viatura militar devidamente caraterizada”. Explicam depois “que o carro se encontrava em missão de proteção dos Objetos Económicos essenciais, limpeza e desbloqueio das vias de circulação, no âmbito da manifestação pós-eleitoral e fazia parte de uma coluna militar devidamente sinalizada”. Sem referir a alta velocidade a que o carro blindado circulava em direção aos manifestantes, a FADM “assumem total responsabilidade na assistência médica e psicossocial da vítima”.
E apelam “à população para observar, meticulosamente, as medidas de segurança relativamente ao respeito pelo código de estrada e a prioridade das viaturas militares, devidamente sinalizadas, em trânsito nas vias públicas”.
A “vítima foi prontamente socorrida ao Hospital Central de Maputo onde se encontra a receber tratamento hospitalar adequado, estando as Forças Armadas em permanente acompanhamento”, refere ainda a nota à imprensa.
A partir do atropelamento da manifestante, a confusão aumentou ainda mais. Segundo as agências de notícias Lusa e AFP, que têm jornalistas no loal, à passagem de qualquer viatura policial, incluindo blindados, os manifestantes começaram a arremessar pedras e paus, pelo menos nas avenidas Eduardo Mondlane e Guerra Popular, centro da capital moçambicana. Cerca das 11h00 (9h00 de Lisboa), as autoridades disparavam balas reais alé, de gás lacrimogéneo tendo sido mesmo cercadas por dezenas de populares.
Este foi o primeiro dia dos novos protestos convocados por Venâncio Mondlane: o candidato presidencial que está fora do país por razões de segurança, apelou à população moçambicana para, durante três dias, deixar os carros parados no meio das estradas a partir das 8h00 nas ruas, com cartazes de contestação, e irem a pé para o trabalho, até regressarem. E que cantem o hino nacional.
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Das dezenas de vídeos enviados ao Observador ou partilhados nas redes sociais, é possível ver grupos de pessoas em círculos a cantar o hino moçambicano, bem como filas de carros parados e muitos cartazes de protesto.
Pelo menos 67 pessoas morreram e outras 210 foram baleadas num mês de manifestações, desde 21 de outubro, de contestação dos resultados das eleições gerais em Moçambique, indica a atualização feita sábado pela Organização Não-Governamental (ONG) moçambicana Plataforma Eleitoral Decide.
O candidato presidencial Venâncio Mondlane tem convocado estas manifestações, que acabam em confrontos com a polícia – que tem recorrido a gás lacrimogéneo e tiros com balas reais para dispersar –, para contestar a atribuição da vitória a Daniel Chapo, candidato apoiado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder), com 70,67% dos votos, segundo os resultados anunciados em 24 de outubro pela Comissão Nacional de Eleições (CNE), que ainda têm de ser validados e proclamados pelo Conselho Constitucional.
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Mas os protestos que ganharam nova força a partir de 7 de novembro, já ultrapassaram a contestação eleitoral: nas ruas as pessoas gritam pela reposição da verdade eleitoral, mas também contra a corrupção, a fome, o desemprego, o abuso das autoridades e pedem democracia, saúde e educação.
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