Assistiu a horas de gravação em vídeo dos abusos sexuais contra Gisèle Pelicot e assumiu a árdua tarefa de lhe contar, ao pormenor, quando e como foi violada ao longo de uma década, em estado de inconsciência, por dezenas de homens que eram recrutados pelo próprio marido, Dominique Pelicot.

Stéphane Babonneau juntou-se, no final de 2022, à equipa de defesa da vítima do caso de violações em série que está a abalar França e o resto do mundo, como revela o próprio advogado ao The Guardian, numa entrevista exclusiva. Foi Antoine Camus, que já estava encarregue do caso, que admitiu que precisava de ajuda e que não conseguia assumir a defesa do caso de abuso sexual de tal complexidade sozinho. Chamou então o colega com experiência em direito criminal.

Afinal de contas era necessário analisar mais de 20.000 fotografias e vídeos que reportavam os abusos, alguns deles publicados online, identificar dezenas de homens que se deslocaram à casa dos Pelicot em Mazan, em França, e criar uma linha de defesa enquanto era preservada a dignidade de Gisèle.

Dominique Pelicot foi apanhado pela polícia em 2020 a filmar por baixo de saias de mulheres num supermercado. Foi a detenção por este crime que levou à revelação dos abusos de que a sua mulher foi vítima durante uma década, após ter sido descoberto um disco externo com milhares de vídeos e fotografias que registam os abusos.

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Mal teve acesso às provas, Babonneau assumiu que este viria a ser o caso mais terrível da sua carreira e deparou-se com aquilo que descreve ao jornal inglês enquanto um terrível dilema. Por um lado, sabia que Gisèle Pelicot tinha de ser informada dos pormenores das centenas de violações a que o marido a tinha sujeitado. Para que a defesa pudesse ser construída da melhor forma, mas também para não ser surpreendida em tribunal pelos pormenores sórdidos que envolviam as violações.

“Estava habituado a ver coisas muito perturbadoras, mas este nível de depravação, desumanidade e trauma!? Eu nunca tinha visto nada parecido antes”, garantiu ao The Guardian o advogado francês especializado em direito criminal.

Vídeos das violações a Gisèle Pelicot mostram que havia “intenção real de degradá-la”

Antes de a equipa de defesa revelar os pormenores das violações conhecidos através dos vídeos, Gisèle Pelicot conhecia apenas o básico em relação à metodologia utilizada para que os abusos sexuais contra si fossem consumados.

Sabia que tinha sido drogada durante anos a fio com recurso a calmantes e outra medicação psiquiátrica que a deixavam inconsciente durante horas e que chegou mesmo a provocar perdas de memórias consecutivas — a família estava preocupada com a hipótese de a mulher sofrer de uma doença neurológica.

Soube também, quando os vídeos foram encontrados, que o marido tinha recrutado dezenas de homens que se deslocaram à casa do casal para a violar, mas havia uma série de pormenores perturbadores que ficaram de fora da descrição geral dos abusos. Foram estes que tiveram de ser revelados por Stéphane Babonneau e pela restante equipa de defesa à mulher que já se encontrava muito fragilizada pela revelação de que o marido que considerava carinhoso e preocupado era, afinal, um abusador.

“Tivemos que prepará-la para o facto de que ela não ter sido apenas abusada sexualmente, mas de haver também uma intenção real de degradá-la.” Babonneau referiu-se ao facto de Dominique Pelicot colocar lingerie na mulher antes das violações, de promover a utilização de palavras degradantes durante os abusos,  de ser colocado um papel sobre o rosto da vítima e ainda dos vários cenários e datas em que as violações aconteceram.

Há vídeos filmados na na noite do aniversário de Gisèle Pelicot, na véspera de Ano Novo; no Dia dos Namorados, na cama da sua filha, na mesa de jantar do casal, no carro da vítima e até numa área de serviço de uma autoestrada.

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Na entrevista, o advogado recorda o quão complicada foi a reação de Gisèle aos pormenores das gravações. “Lembro-me dela estar profundamente perturbada pelo fato de estar a ressonar”, lembra, notando que, em alguns dos vídeos, os violadores inseriram o seu órgão genital na boca da vítima, surgindo Dominique Pelicot a dar-lhes instruções para que a “deixassem respirar” e para serem “gentis”.

“Ela também estava apavorada com o que as pessoas pensariam sobre ela, bem como a sua família. Tinha receio que as pessoas pensassem que era estúpida por ter deixado acontecer o que aconteceu com ela por 10 anos”, descreveu Babonneau.

Ao jornal inglês, o membro da defesa de Gisèle Pelicot revela também como foi decidido que o julgamento se tornasse público e que a principal vítima saísse do anonimato. “Ela chegou à conclusão de que, se tivesse ouvido falar de um caso como este, talvez tivesse sido capaz de parar o que passou há muito tempo”, afirma o advogado. Era essa a mudança que a francesa de 72 anos queria provocar.

“Não é possível que, se alguém acordar e não se lembrar de nada, e tiver problemas ginecológicos, não pense em Gisèle Pelicot. Julgamentos de violação serão realizados em público e expostos graças a Gisèle Pelicot”, garante Babonneau.