Se há menos de um mês alguém visse aquela imagem final da transmissão televisiva do Club Brugge-Sporting no relvado, ninguém acreditava. Não eram alguns, não eram poucos, era literalmente ninguém. Porquê? Os heróis que fizeram correr milhares e milhares de pessoas em maio pelas principais ruas de Lisboa, do país e do mundo, os jogadores que deram asas ao sonho do melhor arranque de sempre no Campeonato depois de 11 vitórias consecutivas na prova entre uma goleada em Alvalade ao Manchester City e o grupo que era visto como o melhor do período aberto em março de 2020 com Ruben Amorim era o mesmo que, ao agradecer aos quase 2.000 adeptos na Bélgica, foi presentado com insultos, assobios, petardos e até uma tocha.

Se não procuram a sorte, podem queixar-se do azar? (a crónica do Club Brugge-Sporting)

Ninguém poderia acreditar naquele cenário. Viktor Gyökeres, mais à frente, ficou a olhar espantado depois de ver a tocha cair no relvado enquanto um bombeiro que estava na zona lhe fazia o gesto para deixar aquela zona por questões de segurança. Hjulmand, ao ver o que se passava, agarrou nos companheiros e mandou-os retirar para trás rumo ao balneário. Conrad Harder, a apontar, questionou “O que é isto?” enquanto St. Juste olhava de forma fica para a bancada e Diomande esbracejava. A revolta dos adeptos, que vai fazer com que a UEFA tome medidas pesadas entre o fecho parcial de uma das bancadas de Alvalade e a ausência de público em jogos fora pelo uso de pirotecnia, chegou a um ponto alto entre a quarta derrota consecutiva num dia em que também Frederico Varandas tinha sido insultado ao sair do almoço entre as duas direções.

Um pouco à semelhança do que aconteceu em Moreira de Cónegos, o Sporting entrou melhor, marcou aquele que foi o quinto golo mais rápido do clube na principal competição da UEFA por Geny Catamo, regressou aos golos de bola corrida 303 minutos depois e voltou a sofrer uma reviravolta. Ao todo, nos últimos quatro jogos, a formação verde e branca marcou apenas três golos (quando tinha a média de três golos por jogo) e consentiu nove, tantos como tinha sofrido em 18 partidas. E os registos negativos vão pesando.

Contas feitas, de acordo com os números do Playmakerstats, esta foi apenas a sexta ocasião em que os leões consentiram quatro derrotas consecutivas, sendo que as últimas tinham sido em 2011 e 2010. Mais: há sete anos que o Sporting não sofria dois desaires seguidos com reviravolta no tempo regulamentar, numa altura em que Jorge Jesus era o treinador da equipa de Alvalade. Com tudo isso, João Pereira bateu o recorde mais indesejado que poderia ambicionar enquanto técnico da equipa A: tornou-se o primeiro de sempre a sofrer quatro derrotas nos cinco primeiros jogos desde que assumiu a posição de Ruben Amorim.

“Mais uma vez entrámos fortes, bem no jogo, a controlar. Chegámos à vantagem e quando estávamos a controlar sofremos um golo num ressalto num defesa nosso, que engana o guarda-redes. Mais uma injustiça no marcador. Depois fomos à procura, tentámos, tivemos lances de perigo. Durante o jogo todo fomos a equipa que controlou, que mais procurou e no final acontece isto. Temos sofrido golos que não estamos à espera e que às vezes abala um pouco animicamente a equipa. Tivemos uma entrada boa, forte, com jogadores confiantes e a fazer o que lhes foi pedido, e depois a verdade é que foi mais uma derrota”, começou por comentar o técnico aos microfones da SportTV, passando ao lado na análise do encontro a uma segunda parte onde houve apenas um remate com perigo por Francisco Trincão e já com 2-1 aos 87 minutos.

“Poucos golos? Entrámos, marcámos. Se não sofrermos, o normal é as equipas abrirem-se mais porque nós marcamos. A equipa do Club Brugge esteve quase sempre em espera, quase sempre em bloco baixo. Tem acontecido isso. Antes o Sporting não sofria golo, as equipas adversárias tinham de ir em busca do golo e isso abria espaços. Agora temos sofrido mais cedo e as equipas aproveitam para fechar e procurar o contra-ataque. É por aí criamos menos golos. Lesões? O futebol é mesmo isto. O Inácio teve uma dor no aquecimento, não quisemos forçar pois temos muitos lesionados. O Quaresma estava a fazer um jogo excelente. Tem aquele lance que todos viram, que foi mais com o cotovelo do que com a cabeça, e sai lesionado. É mais uma baixa. Mas vamos continuar, há oportunidades para outros. De destacar o jogo do [João] Simões. Primeira vez a titular, jogo de Champions, cumpriu, jogou bem”, referiu João Pereira.

“Reação dos adeptos? Depois de quatro derrotas seguidas, o próximo passo é melhorar. Claro que a contestação vai aumentar. Há muito tempo que o Sporting não passava por uma fase destas, depois de vir de uma excelente fase. E eu sabia para aquilo que vinha, por isso é que quando acaba o jogo eu sou o primeiro a dar a cara porque se isto está a acontecer eu sou o primeiro responsável”, concluiu à SportTV.

“O meu futuro toda a gente sabe o tempo de contrato. Não são as derrotas que nos podem abalar. A equipa foi melhor hoje, apesar do momento. Deu uma excelente resposta. Por isso estou tranquilo”, apontou depois na conferência de imprensa, onde falou também do atual plantel e a possível falta de mais soluções. “O plantel estava feito, é assim que o Sporting trabalha e estava a dar resultado até eu chegar, mesmo com um plantel curto. Não tenho porque me desculpar com isso. A formação do Sporting também é para isto, para assumirem um papel principal. Gosto de ver o copo meio cheio em vez de meio vazio. O [João] Simões aproveitou a oportunidade, o Quenda e o Quaresma também até sair lesionado…”, salientou João Pereira.

“No Campeonato já não temos mais margem de erro, temos de ganhar para continuar a lutar e não hipotecar as hipóteses para chegar ao bicampeonato. As contas na Champions estavam encaminhadas, esta derrota não estava nos planos. Toda a gente diz que estamos juntos, unidos. Sinto que confiam na palavra que passamos. O início do jogo foi demonstração disso mesmo. Somos seres humanos, sentimos que quando estamos numa fase boa… Sofremos mais um golo em que sem um remate à baliza a bola entra. Temos de ser mais fortes e dar uma resposta ainda mais positiva no próximo jogo”, acrescentou o treinador leonino.