O Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Joe Biden, fez, esta quinta-feira, o seu discurso de despedida da presidência norte-americana. E se o primeiro tópico foi o acordo de cessar-fogo assinado por Israel e pelo Hamas — sendo que o Chefe de Estado cessante reafirmou que o plano tinha sido desenvolvido pela sua administração desde maio, confirmando que a equipa do Presidente eleito, Donald Trump, foi “informada” do progresso das negociações — a principal mensagem da sua intervenção foi uma crítica a uma “oligarquia” de “grandes tecnológicas” — que podem pôr em risco a democracia norte-americana.

Na Sala Oval, após a nota relacionada com a atualidade no Médio Oriente, o líder norte-americano frisou que tem “pensado sobre” o que a América “deve ser”, evocando a imagem da Estátua da Liberdade. “Foi dada por França após a guerra civil”, recordou, indicando que, tal como a democracia norte-americana, tem sobrevivido ao teste do tempo, apesar das “tempestades”.

“É o símbolo da nossa nação. Dos bons e maus tempos. De uma nação de pioneiros e exploradores, de sonhadores e fazedores”, sublinhou o Presidente cessante, recordando que os EUA são uma “nação de imigrantes que vieram à procura de uma vida melhor”. Para além do passado migratório, a génese da criação dos EUA é, apontou Joe Biden, a “ideia mais poderosa do mundo”: “De que todos nós somos iguais. Que todos nós devemos ser tratados com dignidade e justiça”. 

Neste sentido, Biden enfatizou que é necessário respeitar as instituições norte-americanos: “A presidência, o Congresso, os tribunais, a imprensa livre e independente. As instituições que ecoam a declaração de independência”. O Presidente norte-americano destacou a separação de poderes e os checks and balances da política norte-americano, ainda que não sejam “perfeitos”. “Mas manteve a nossa democracia viva por quase 250 anos, mais do que qualquer nação.”

Sobre o seu mandato, o Chefe de Estado cessante acredita que a democracia “permaneceu forte”: “Mantive o compromisso de ser o Presidente de todos os norte-americanos num dos períodos mais difíceis da nossa História”. Joe Biden saudou ainda a companhia da “grande parceira” Kamala Harris, a vice-presidente. “Ela e o Doug [marido de Kamala Harris] tornaram-se família. E família é tudo para mim”, disse referindo-se aos últimos quatro anos.

A obra feita: Ucrânia, pandemia, ambiente e tecnologia

No discurso, o ainda líder dos EUA aproveitou por lembrar a obra feita. Inicialmente, abordou a pandemia de Covid-19, que os norte-americanos ultrapassaram com “heroísmo e resiliência”. Depois, falou sobre economia, saudando a criação de emprego durante o seu mandato. Referiu também a “modernização das infraestruturas” — “a maior da História — e louvou que as fábricas de chips tenham regressado à América, criando muitos empregos.

Biden salientou também a diminuição do crime violento e a “proteção das famílias” com as restrições de acesso a armas. Na Saúde, o Presidente norte-americano realçou que mais famílias têm agora seguros de saúde.

“Vai levar tempo para sentir o impacto de tudo o que fizemos”, reconheceu, acrescentando que as “sementes” do que plantou nos últimos quatro anos “vão crescer”. “Criámos 17 milhões de empregos, as pessoas têm melhores cuidados de saúde”. Na política externa, o Presidente norte-americano elogiou o “fortalecimento da NATO”, o facto de a Ucrânia ainda se manter “livre” da Rússia e de os EUA continuarem à frente da China.

Perante este cenário que traçou, Joe Biden assumiu estar “orgulhoso” do “tanto” que fez juntamente com os norte-americanos. “Quero que a próxima administração tenha sucesso, porque quero que os EUA tenham sucesso”, desejou ao seu sucessor, Donald Trump. Por isso, apontou o Chefe de Estado, levou a cabo uma “transferência ordenada e pacífica de poder”.

Os “avisos” de Biden. A “oligarquia” e a “grande concentração de poder”

Para o futuro, Joe Biden deixou vários “avisos” daquilo que considera ser “perigoso” para os norte-americanos. À cabeça? “A grande concentração de poder” daquilo que definiu como uma “oligarquia”. “São pessoas muito ricas. Os oligarcas estão a organizar-se na América. Têm muito poder e podem interferir na nossa democracia, nos nossos direitos e nas liberdades”, advertiu, para logo explicar a que se referia.

Num recado enviado ao dono do X (antigo Twitter) Elon Musk (que vai fazer parte da próxima administração, integrando o Departamento de Eficiência Governamental) e o dono da Meta Mark Zuckerberg, o Presidente norte-americano mostrou-se “preocupado” com “a concentração de poder tecnológico e económico”. “Está a criar-se uma avalanche de desinformação”, lamentou, acrescentando outros fatores que vê como negativo: “A imprensa livre está desmoronar-se. Os editores estão a desaparecer. As redes sociais estão a desistir dos fact checks”. “A verdade está a ficar esmagada pelo poder e pelo lucro.”

“Nós devemos responsabilizar as redes sociais para proteger as famílias norte-americanos dos abusos de poder”, avisou Joe Biden, sinalizando outra preocupação no ramo da tecnologia: a inteligência artificial. “Cria as possibilidades mais profundas para a nossa economia, segurança, sociedade e até para a Humanidade”, reforçou, alertando que pode “ameaçar os direitos, a forma de vida e a privacidade” da população.

Na visão de Joe Biden, a inteligência artificial deve ser “segura e confiável” para a Humanidade. E também disse que os Estados Unidos devem tomar a dianteira para desenvolver aquela tecnologia, superando a China.

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Noutro aviso, o Presidente cessante apontou para uma “ameaça existencial” — as alterações climáticas. “Vejam o que se passa no país, desde [os incêndios] a Califórnia à Carolina do Norte [furacão Helene]”, ilustrou, puxando dos galões novamente: “Aprovei a lei mais significativa de energias limpas de sempre na História. O resto do mundo está a tentar imitar. Está a funcionar e a criar empregos.”

“Não temos de escolher entre proteger o ambiente e fazer crescer a economia”, defendeu Joe Biden, que mandou outra farpa para o sucessor, que já declarou querer reverter legislação na área do ambiente e para as grandes empresas: “Há forças que querem eliminar os passos que tomámos para servir os seus interesses de poder e lucro”.

Para Donald Trump não faltaram recados, ainda que o Chefe de Estado cessante não tenha mencionado o seu nome. Neste sentido, Joe Biden defendeu uma emenda na constituição para que “nenhum Presidente cometa crimes no desempenho de funções e usufrua de imunidade”. “O poder presidencial é limitado, não é absoluto”, alertou o líder norte-americano.

“A magia da América”, o amor ao país e os agradecimentos

Na parte final do seu discurso, Joe Biden avisou que a erosão da democracia — para que podem contribuir as grandes tecnológicas — pode criar “divisão” entre a população, transmitindo a ideia de que não são todos iguais. “Não podemos perder o sentido da verdade. A América pode ser definida por uma palavra: possibilidade. Apenas na América uma criança com gaguez da Pensilvânia pode chegar à Sala Oval e estar sentado neste escritório.”

Esta é a “magia da América”, realçou Joe Biden, que voltou a falar sobre a Estátua da Liberdade, símbolo de “esperança” para vários migrantes; ou, como o Presidente cessante frisou, para “todos aqueles que falam [a linguagem da] liberdade”. “Acredito que a América dos nossos sonhos está sempre mais próxima do que nós pensamos. Cabe-nos a nós concretizá-los.”

Joe Biden aproveitou ainda para expressar “gratidão” aos membros da sua administração, garantindo ter sido uma grande honra ter sido comandante-chefe das Forças Armadas. Fez ainda uma homenagem à mulher, Jill Biden, declarando que é o “amor da sua vida”.

Ao povo norte-americano, o Presidente norte-americano deixou um “obrigado”, após mais de 50 anos de serviço público. Depois de mais de cinco décadas, Joe Biden ainda acredita na “ideia” do que os EUA representam. Tal como a Estátua da Liberdade, que resistiu a tempestades, o Chefe de Estado cessante disse que cabe agora aos norte-americanos “manterem a fé” e ficaram alertas para os perigos que o futuro pode trazer. “Eu amo a América”, finalizou.