Não foi por acaso que, quando saiu o Open da Austrália, a primeira coisa que a imprensa internacional fez questão de apontar foi a possibilidade de haver um cruzamento entre Novak Djokovic e Carlos Alcaraz logo nos quartos de final. Aconteceu. Aliás, na ótica portuguesa, a única “surpresa” terá sido mesmo a presença de dois jogadores nacionais pelo caminho, com a revelação Jaime Faria a desafiar o sérvio na segunda ronda e a confirmação Nuno Borges a colocar à prova o espanhol na terceira eliminatória. Ambos ganharam um set, ambos perderam os respetivos encontros. Mais do que isso, ambos obrigaram a que aparecessem as melhores versões de cada num torneio onde faziam apenas mais uma aparição mas no início de uma segunda vida.

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Em relação a Djokovic, essa tentativa de reinvenção aos 37 anos centrava-se sobretudo na troca técnica e na possibilidade de ter agora do seu lado o jogador que mais e melhor desafiou os Três Mosqueteiros quando estavam na plenitude das suas faculdades: Andy Murray. Além de Jaime Faria, o balcânico venceu o norte-americano Nishesh Basavareddy e os checos Tomas Machac e Jiri Lehecka mas aquilo que sobrou, além das exibições sempre em crescendo, foi que continuava igual a ele próprio. No court, nas reações, na forma cirúrgica como conseguia controlar os momentos chave do jogo para puxar para si a vantagem, na maneira como interagia com o público no bom e no mau, quando o apoiavam ou tentavam desconcentrar no momento em que ia fazer o serviço. Duas décadas depois de ter feito o primeiro encontro em Melbourne diante do russo Marat Safin, a forma de jogar mudou muito, a parte física ainda mais, o feitio continua o mesmo.

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Foi isso que se voltou a ver após o triunfo nos oitavos com Lehecka. Após ser chamado para aquela habitual conversa depois do jogo, Djokovic dirigiu-se ao microfone e disse apenas “Obrigado por terem estado aqui esta noite, obrigado pela presença e pelo apoio. Vemo-nos na seguinte ronda”. Depois, saiu. O sérvio não gostou de ver um jornalista do Canal 9, que tem os direitos de transmissão do torneio, falar da Sérvia e apelida-lo de jogador falhado e sobrevalorizado. Perante isso, agradeceu, agarrou no saco e foi embora, sem nunca ter abordado a possibilidade de reencontrar Alcaraz. A Austrália continua a ser um país e uma prova à parte de todas as outras para o antigo número 1, do recorde de títulos ganhos à rábula da deportação por não estar vacinado contra a Covid-19, passando pela habitual divisão de apoios que se sente em Melbourne entre a enorme comunidade sérvia na região e aqueles que passaram a vê-lo de outra forma.

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Do outro lado estava Carlos Alcaraz. Aos 21 anos, o espanhol que vencera Alexander Schevchenko, Yoshihito Nishioka, Nuno Borges e Jack Draper (neste caso por desistência do britânico por questões físicas depois do final do segundo set) continuava apostado em fazer uma redenção de uma parte final de 2024 falhada na sequência dos triunfos em Roland Garros e em Wimbledon. Com o mesmo treinador (Juan Carlos Ferrero, também ele um antigo finalista no Open da Austrália) e a mesma equipa, o espanhol apresentava-se com um novo e mais letal serviço, mais robusto de braços quase como uma versão 2.0 da transformação que Rafa Nadal foi tendo ao longo dos anos e com outra versatilidade de recursos para colocar novos tipos de problemas aos adversários. No entanto, tudo era válido até ao maior teste contra o mais titulado em Grand Slams de todos os tempos que abria a possibilidade de chegar pela primeira vez às meias em Melbourne.

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Um dos aspetos muito abordados pela própria imprensa espanhola passava pela forma como Carlitos estava a abordar este Open da Austrália, recordando quando o jogador dizia que Rod Laver lhe poderia chamar um milagre depois de o antigo campeão ter comentado que só mesmo por algo divino Djokovic não ganharia o torneio em 2024 (e esse “divino” acabou por chamar-se Jannik Sinner, que bateu o sérvio na meia-final). Agora, não havia nem sombras desse tipo de discurso. Pelo contrário. “Bem, não vou dizer que gostava de defrontar alguém como ele logo nos quartos de um Grand Slam… Não vou mentir, não digo que tenha medo, não é que não tenha vontade de jogar contra ele porque gosto de ter batalhas contra os melhores mas logo nos quartos… Mas sim, para ganhar temos de enfrentar os melhores”, comentava antes do jogo.

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Era o reencontro em piso rápido no início de 2025 depois do jogo que deixou em lágrimas Alcaraz na partida que lhe retirou a possibilidade de ganhar um ouro olímpico em Paris. Aí, Djokovic, que apostou tudo para chegar a essa medalha em Tóquio naquela que estava a ser a sua melhor época de sempre (ganhara Open da Austrália, Roland Garros e Wimbledon), foi melhor. O que fez a diferença? Os nervos de aço para superar os dois ties breaks que decidiram a final. “Chorei porque só pensava que tinha defraudado muitas pessoas e porque não tinha estado ao meu nível”, disse após o encontro. “Não creio que esse jogo me tenha afetado mas foi um verão com muitas emoções, demasiado exigente para mim”, referiu depois no US Open.

Chegava o momento do reencontro. Com ambos os jogadores de cabeça limpa, com maior desgaste para Djokovic, com uma oportunidade de ouro para Alcaraz mostrar a sua nova versão que, de acordo com alguns, foi montada para batalhas para aquele que surge como provável grande opositor na próxima década (Jannik Sinner). Era a oitava partida entre ambos, depois de duelos míticos como finais de Wimbledon, meias de Roland Garros, decisões olímpicas e aquele que terá sido o melhor duelo de todos na final de Cincinnati em 2023 que colocavam o sérvio na frente por 4-3. Agora, no duelo com maior diferença de idades nos quartos em torneios do Grand Slam, o antigo número 1 mundial de 37 anos voltou a ser melhor, com a chegada pela 12.ª vez às meias-finais do Open da Austrália… onde só perdeu uma vez em 2024 depois de dez finais seguidas ganhas no torneio de maior sucesso entre todos aqueles que tem nos Majors.

O primeiro set começou de forma irregular mas com dois momentos que acabaram por definir aquilo que foi o desfecho. Por um lado, e logo depois sofrer o break no primeiro jogo de serviço, Alcaraz fez de imediato o contra break, colocando tudo de novo “empatado” antes de jogos que foram ganhos por ambos com maior ou menor dificuldade. Por outro, a forma como o espanhol pressentiu que o sérvio não estava bem no nono jogo depois de ter esticado em demasia a perna, fazendo o break para 5-4 nas vantagens. Djokovic ainda foi ao balneário para receber assistência médica, regressando com uma ligadura branca na coxa esquerda, mas Carlos Alcaraz não perdeu a confiança e a concentração, fechando com um jogo em branco para 6-4.

Houve um ponto que mostrou bem o momento que ambos atravessavam. Com 4-4 e 30-30, o sérvio voltou a fazer aquele olhar fulminante para a bancada de quem quer silêncio para se concentrar mas está quase a ser “provocado” enquanto o espanhol, ouvindo também algo de uma outra bancada, ficou a sorrir. Alcaraz sentia que estava por cima, Djokovic preparava-se para dar a volta de forma parcial: 1-0 com jogadas bem mais curtas e assentes na forma de servir, o break para 2-0 nas vantagens, a confirmação no jogo de serviço do 3-0 com o serviço a fazer a diferença apesar de ter ido quase sem necessidade às vantagens. O sérvio tinha total controlo do set mas deixou-o fugir de seguida, com um quinto jogo onde o serviço não apareceu, os erros sucederam-se e o espanhol fez o break para 3-2, confirmado de seguida num encontro com cinco vantagens. Estava tudo em aberto mas, qual Fénix renascida, mesmo não estando a 100%, Djokovic fez das fraquezas forças para vencer os seus jogos de serviço e fazer o break para 6-4… com um jogo em branco.

Sobrava a dúvida: conseguiria ter força para resistir? Primeira resposta rápida, sim. Além de ir ganhando os seus jogos de serviço de forma controlada, Djokovic foi conseguindo colocar pressão em Alcaraz. Primeiro foi às vantagens, depois foi às vantagens, à terceira conseguiu mesmo para fazer o 4-2 e dar aquele que seria um passo importante para vencer também o terceiro set perante um jogador espanhol que sobretudo acreditava menos no que fazia. Menos mas com aquele fundo de gasolina que parece restar sempre no tanque e que lhe valeu uma viragem no rumo do parcial, fazendo o contra break apesar de ter passado de 40-0 para 40-30. Fez o mais difícil, falhou o mais fácil: com Alcaraz à beira de um ataque de nervos, Djokovic fez de seguida o break em branco e colocou o dedo no ouvido a pedir uma explosão do público na Rod Laver Arena antes de sobreviver a um 0-30 no início do nono jogo até ao set point que lhe valeu mesmo o 6-3.

A comentar na ESPN, John McEnroe deixou um aviso quando Djokovic foi assistido: “Não é a primeira vez que vimos este filme. Não se deixem enganar”. Todos foram mesmo enganados, incluindo o próprio Alcaraz. O sérvio ativou o modo gestão para dosear o esforço numa partida com mais de três horas, abdicou de algumas bolas prescindindo do modo guerreiro que o define e teve a possibilidade de focar-se sobretudo nos seus jogos depois de abrir o quarto set logo com um break. Djokovic ainda salvou um break num ponto com mais de 20 pancadas para fazer o 3-1. Essa fase do encontro traçou aquela que foi a grande conclusão da partida: Alcaraz pode ter ficado de novo nos quartos mas está mais jogador, tem outro tipo de combinações e só perdeu porque o sérvio ainda é de outro mundo, mesmo de rastos depois de um ponto com 33 pancadas que evitou o break a 5-2. A “fatura” quase foi paga, a fatura ficou por pagar: Djokovic salvou dois pontos de break, fez o 5-3, geriu o nono encontro e fechou o triunfo mais de 3h30 depois por 6-3.