O calendário do ténis tem a particularidade de, logo no primeiro mês do ano, incluir um dos pontos altos de toda a temporada. O Open da Austrália permite perceber se os domínios do ano anterior se mantêm, define tendências para o resto da época e abre a porta a surpresas de quem passou os últimos meses de 2024 a preparar 2025. Tudo isto e muito mais começa já este domingo, em Melbourne.
Jannik Sinner é o campeão em título e o natural favorito, principalmente depois de ter vencido US Open, ATP Finals e Taça Davis na segunda metade do ano passado. Ainda assim, Carlos Alcaraz olha para a Austrália como o único Grand Slam onde ainda não festejou e irá obviamente contestar o favoritismo do italiano.
Pelo meio, Novak Djokovic regressa a Melbourne enquanto recordista absoluto de vitórias, dez, e ainda à procura do histórico 25.º Grand Slam da carreira. Ao seu lado, para surpresa de muitos, terá Andy Murray, britânico que deixou os courts depois dos Jogos Olímpicos de Paris e que depressa aceitou ser treinador do sérvio que tantas vezes foi seu rival. A Austrália traz Sinner, Alcaraz e Djokovic – e ainda um fantasma chamado doping que parece não largar o ténis.
▲ Jannik Sinner e Carlos Alcaraz partem como os favoritos naturais à conquista do primeiro Grand Slam do ano
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A sabedoria de um Djokovic “traumatizado”
De repente, Novak Djokovic ficou sozinho. Roger Federer terminou a carreira em 2022, Andy Murray terminou a carreira depois dos Jogos Olímpicos de Paris, Rafa Nadal terminou a carreira na última Taça Davis. Depois de praticamente duas décadas a competir com o suíço, o inglês e o espanhol, o sérvio ficou isolado como o último elemento de uma geração de vencedores em série que está a ser substituída pela próxima geração de vencedores em série.
Para Novak Djokovic, porém, o fim ainda é uma palavra por dizer. O ano de 2024 foi complexo: apenas uma final de Grand Slam, perdida para Carlos Alcaraz em Wimbledon, e uma lesão no joelho sofrida em Roland Garros que teve de ultrapassar a tempo de competir em Inglaterra. O ano de 2024, porém, também trouxe a tão pretendida medalha de ouro olímpica em Paris, que lhe permitiu atingir uma espécie de palmarés completo do ténis profissional. Nada disso, nem o lado negativo nem o lado positivo, o levou a decidir deixar os courts.
Ainda que, pela primeira vez, tenha deixado pistas. Durante Roland Garros, precisamente depois de se lesionar, o tenista sérvio admitiu que já questiona “o propósito” de continuar a competir. “O meu desporto é individual, ninguém pode substituir-me. Preciso de estar no meu melhor diariamente, em cada treino. Não posso perder uma sessão de tratamento e tenho de me motivar consistentemente. Depois de tantos anos e de tudo o que já passei, não é fácil acordar todos os dias com a mesma clareza e com o mesmo desejo de fazer algumas coisas pela enésima vez”, explicou, na altura, ainda que tenha sublinhado que a “forte emoção” que sente a jogar ténis o continua a empurrar para a frente.
Seguiu-se a desilusão de Wimbledon, a alegria de Paris, a eliminação na terceira ronda do US Open. E a maior surpresa chegou já perto do final do ano. Em novembro, através de um vídeo partilhado nas redes sociais, Novak Djokovic anunciou que tinha acabado de chamar Andy Murray, antigo rival que ainda mal tinha abandonado os courts, para ser o seu treinador no mês seguinte e pelo menos até ao Open da Austrália. Em meses, Andy Murray passou de retirado a treinador de um dos melhores tenistas de sempre.
“Estava no 17.º buraco de um campo de golfe e o tipo com quem estava a jogar perguntou-me o que ia fazer e respondi-lhe que ainda não sabia. Perguntou-me se tinha algum plano para começar a treinar e disse-lhe que não imaginava nada pior para fazer naquele momento. 30 minutos depois estava no carro a falar ao telemóvel com o Novak e ele a perguntar-me se estava interessado em ajudar. Claro que não estava à espera”, contou o britânico à Eurosport.
Murray pediu uns dias para falar com a família, recebeu feedback positivo e decidiu aceitar a “experiência e oportunidade única”. Só teve uma exigência: que tivesse tempo para cumprir a viagem à neve que já tinha planeado em família. “Eu implorei que ele aceitasse, basicamente. E depois diz-me que vai fazer esqui! Claro que fiquei preocupado, só lhe pedi para aparecer na Austrália sem pernas partidas”, detalhou, entretanto, Djokovic.
▲ Tim Henman, que tem agora 50 anos e é comentador da Eurosport, foi medalha de prata em pares nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996
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A parceria chocou o mundo de ténis. Para além de serem antigos rivais, Andy Murray tinha acabado de se despedir dos courts e, como o próprio admitiu mais tarde, nem sequer ponderava voltar ao Tour tão cedo – muito menos como treinador de Novak Djokovic. Quis o destino, ou a vontade do sérvio, que se juntassem com o objetivo de o levar ao 25.º Grand Slam da carreira.
“Fiquei muito surpreendido quando soube que o Andy Murray ia cumprir estas funções”, explica Tim Henman, antigo tenista britânico que chegou a ser número 4 do ranking ATP, em entrevista ao Observador. “Estava a jogar muito golfe com ele no final do ano passado e não estava à espera de que voltasse ao Tour tão rápido e como treinador. Sempre achei que ele ia acabar por ser treinador, a dada altura. Mas a oportunidade de trabalhar com um jogador tão bom talvez tenha sido uma oportunidade demasiado boa para desperdiçar. Do ponto de vista do Djokovic é uma decisão muito sábia. O Murray conhece todos os possíveis adversários do Djokovic porque esteve em competição até muito recentemente e sempre foi muito tático na forma como construía os planos de jogo para vencer os oponentes”, acrescentou.
O agora comentador da Eurosport não tem dúvidas de que, tal como o próprio sérvio explicou, a motivação de Djokovic tem de ser encontrada diariamente e não apenas na preparação para os Grand Slams. “É fácil dizer que a motivação dele é chegar ao 25.º Grand Slam, mas esse é o patamar final. O dia a dia, os treinos, as preparações, é aí que tem de se encontrar motivação extra. E nem sempre é fácil, principalmente aos 37 anos. Ter alguém como o Murray ao lado, ter novos ‘inputs’ e energia fresca, é sempre interessante. A grande incerteza é se esta relação vai continuar e desenvolver-se ao longo dos anos”, atira Tim Henman, que não prevê “impacto imediato” do britânico no jogo de Djokovic.
De facto, é impossível antecipar o quão duradoura será a parceria entre os dois. Certo é que, no Open da Austrália que arranca este domingo, Andy Murray estará na box de Novak Djokovic a orientar a prestação do tenista sérvio. E está preparado para ouvir os possíveis gritos, os eventuais desagrados e as mais do que prováveis irritações quando algo não correr bem – até porque ele próprio não era propriamente o tenista mais bem comportado.
“Acho que sou uma das pessoas que melhor compreende esse lado das coisas. Sei que não é fácil ali dentro, que é stressante, e que por vezes ele vai querer desabafar em direção à equipa e à box. Desde que dê o melhor e se esforce ao máximo, estou perfeitamente bem com o facto de se expressar da maneira que quiser”, disse o britânico, que já está em Melbourne a treinar com Djokovic, nos últimos dias.
O regresso ao Open da Austrália, porém, não é propriamente simples para a cabeça de Novak Djokovic. Apesar de ser o recordista de vitórias em Melbourne, a última das dez em 2023, o sérvio não esquece o ano de 2022 e o mês de janeiro em que acabou por ser deportado do país por se recusar a vacinar-se contra a Covid-19. “As últimas vezes em que aterrei na Austrália e passei pelo controlo de passaportes percebi que ainda estava traumatizado”, explicou, em declarações ao jornal Herald Sun.
▲ Em 2022, Novak Djokovic foi deportado da Austrália por se recusar a vacinar-se contra a Covid-19
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“Quando estão a ver o meu passaporte penso sempre se vão levar-me, deter-me outra vez, deixar-me ir. Tenho de admitir que continuo a ter essa sensação. Mas não guardo ressentimento. Voltei logo no ano seguinte e até ganhei. Os meus pais estavam lá e, na verdade, foi uma das vitórias mais emotivas que já tive, tendo em conta tudo aquilo por que tinha passado no ano anterior”, acrescentou Djokovic, que passou cinco dias em isolamento num hotel antes de ser forçado a deixar o país.
No Open da Austrália, como não podia deixar de ser, Jannik Sinner parte como favorito. “Mas não o único favorito”, lembra Tim Henman, que coloca sempre Carlos Alcaraz como potencial vencedor do Grand Slam. Ainda assim, o tenista italiano ganhou em Melbourne e no US Open em 2024, para além de ter conquistado o ATP Finals e a Taça Davis já nas últimas semanas do ano, e quer começar 2025 com a afirmação do objetivo de tentar vencer os quatro principais torneios da temporada.
“Acho mesmo muito difícil acreditar que o vencedor do Open da Austrália poderá aparecer de fora deste lote que inclui Jannik Sinner, Carlos Alcaraz ou até Novak Djokovic. Ou vá, Alexander Zverev, porque no final do ano passado estava a jogar de forma mais agressiva e a tentar dar passos em frente, é muito talentoso. Quando olho para os outros, Taylor Fritz, Daniil Medvedev, Rublev, De Minaur… Acho que podem ter boas campanhas, mas ficaria mesmo muito surpreendido se o vencedor não fosse Sinner, Alcaraz, Djokovic ou até Zverev”, atira o britânico, que também atribui grande favoritismo a Aryna Sabalenka, bicampeã em Melbourne e acabada de celebrar em Brisbane, no quadro feminino.
2025 começa com um Open da Austrália onde Jannik Sinner vai tentar prolongar o domínio do ano anterior, Carlos Alcaraz vai procurar estrear-se a ganhar em Melbourne e Novak Djokovic vai fazer mais uma investida rumo ao histórico 25.º Grand Slam. Sobre o fim da carreira, nada fala. E Tim Henman diz que ficaria surpreendido “se ele próprio” soubesse quando quer deixar os courts.
Sinner, Swiatek e a sinceridade de Purcell: o fantasma do doping na Austrália
No meio da recente e surpreendente parceria entre Novak Djokovic e Andy Murray, o Open da Austrália vai arrancar claramente debaixo da sombra dos escândalos de doping que têm agitado a modalidade nos últimos meses. No último verão, soube-se que Jannik Sinner acusou doping em duas ocasiões e foi ilibado pela Agência Internacional para a Integridade no Ténis, mas a Agência Mundial Antidoping recorreu para o Tribunal Arbitral do Desporto e o caso ainda não tem desfecho conhecido.
O tenista italiano, porém, mantém a versão de absoluta inocência. “Sei exatamente aquilo que todos vocês sabem. Estamos numa fase em que nem eu sei muitas, muitas coisas. Mas claro que penso sobre o assunto. Estaria a mentir se dissesse que me esqueço”, disse Sinner há alguns dias. De acordo com o atual número 1 do ranking, o esteróide proibido surgiu nos testes antidoping depois de ter sido contaminado por um fisioterapeuta durante uma sessão de tratamento.
Ténis: Jannik Sinner testou positivo para doping em Indian Wells mas foi ilibado
No fim de novembro, foi a vez de Iga Swiatek. Numa notícia que começou por ser adiantada pela BBC, a tenista polaca aceitou uma suspensão de um mês depois de também ter acusado uma substância proibida. Segundo a Agência Internacional para a Integridade no Ténis, Swiatek acusou trimetazidina em medicação para dormir que cruzou com um medicamento para o coração numa amostra em agosto de 2024 fora da competição. Ou seja, depois dos Jogos Olímpicos de Paris onde conquistou a medalha de bronze.
Ainda de acordo com o mesmo organismo, a tenista de 23 anos teve o resultado positivo devido a uma contaminação de um medicamento que está regulamentado, não existindo qualquer prova ou indício de qualquer falha ou negligência por parte de Iga Swiatek. Foi por isso, aliás, que a sanção não passou do mês de suspensão, sendo que antes a polaca tinha sido suspensa provisoriamente entre os dias 22 de setembro e 4 de outubro.
Entretanto, nos últimos dias, Max Purcell tornou-se o protagonista de um novo caso. O tenista australiano, que já conquistou Wimbledon e US Open em pares, vai falhar o Open da Austrália depois de ter voluntariamente aceitado uma suspensão imposta pela Agência Internacional para a Integridade no Ténis após também ter acusado uma substância proibida num controlo antidoping.
“Recebi, sem conhecimento, uma transfusão de vitaminas acima do limite permitido de 100 mililitros. As notícias são devastadoras para mim, porque sempre me orgulhei de ser um atleta que garantia que estava tudo dentro do permitido. Espero regressar aos courts em breve”, indicou o tenista de 26 anos num comunicado, acrescentando que foi ele próprio a comunicar à Agência o que se tinha passado.