Os sinais deixados em Auckland apesar da derrota nas meias-finais com Zizou Bergs tinham sido bons, a entrada no Open da Austrália confirmou que o momento era mesmo o certo. Nuno Borges chegava ao Grand Slam inicial da temporada com um “peso extra” que mais não era do que uma fatura do sucesso conseguido em 2024, quando surpreendeu tudo e todos para chegar a uma quarta ronda onde caiu frente ao russo Daniil Medvedev (que já perdeu este ano, num jogo frenético diante da nova coqueluche norte-americana Learner Tien). Por um lado, era um daqueles adversários bem mais conhecidos para quem tinha do outro lado da rede. Por outro, havia também a questão de tentar ao máximo igualar ou superar o desempenho do último ano para somar pontos importantes para o ranking. Nos primeiros dias, esteve irrepreensível.

Ovação de pé, elogios de Medvedev e os recordes de Nuno Borges no adeus ao Happy Slam: “Estou na minha melhor fase da carreira”

Depois de uma vitória inicial em quatro sets frente ao francês Alexandre Müller, com uma grande reação ao primeiro parcial perdido no tie break, Nuno Borges elevou o nível diante do australiano Jordan Thompson, um daqueles jogadores capazes de chegar a uma segunda semana de Grand Slam de forma segura quando consegue apresentar o seu melhor nível. Em apenas três sets, entre vários breaks e grande segurança no seu serviço na hora da verdade, confirmou a passagem à terceira ronda do quadro de singulares. Em 2024, a chegada a esse patamar trouxe pela frente uma Grigor Dimitrov num encontro em que não era favorito mas tinha as suas hipóteses (que concretizou); desta vez, calhava já pela frente o número 3 mundial.

Nuno Borges vence Jordan Thompson e marca encontro com Alcaraz na terceira ronda do Open da Austrália

“Agora é descansar bem para preparar para o próximo singular. Estou muito entusiasmado para jogar num grande estádio de novo, no maior deste Grand Slam, e tentar trazer o melhor de mim. Não vai ser fácil conseguir fazer um grande jogo mas vou aceitar o desafio como ele é”, apontara o maiato após a vitória nos pares com Francisco Cabral. “Contra o Carlitos, não há muito a dizer. Toda a gente sabe do que ele é capaz e tudo o que já fez, é bastante famoso por todo o mundo, não há muito a realçar. Vou jogar sem pressão, tentar não pôr grandes expectativas na minha cabeça para ver se consigo trazer o meu melhor ténis”, referira no dia anterior, em declarações à agência Lusa, depois de vencer Jordan Thompson por 6-3, 6-2 e 6-4.

Nuno Borges e Francisco Cabral na segunda ronda do Open da Austrália em pares

Apesar de se terem cruzado em 2023 no Open de Barcelona, com clara vitória para o espanhol por 6-3 e 6-1, Nuno Borges não teria o mesmo Alcaraz pela frente. E esse era um dos outros motivos de interesse.

Os “novos bíceps”, a potência no serviço e a superstição no banco: como Alcaraz está a mudar para se tornar mais Nadal (e ganhar a Sinner)

Depois de ter ganho Roland Garros e Wimbledon, a parte final da temporada de 2024 trouxe uma imagem diferente para pior do espanhol, que caiu na segunda ronda do US Open e não recuperou nos outros torneios o brilho que tivera em Paris e em Londres. Em paralelo com isso, além do aumento da competitividade de uma geração com vários norte-americanos e um Jannik Sinner que conseguiu dar o passo em frente para chegar a número 1, Alcaraz tinha de mudar. O trabalho realizado antes do início das competições mostrou a viragem: mais forte, com braços a fazerem cada vez mais recordar Rafa Nadal, com outra leveza no court, a ganhar outros argumentos com uma técnica de serviço diferente para melhor, com outra solidez até no plano mental para perceber os momentos de jogo e não falhar nos pontos chave do encontro.

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Com quatro top 10 e sete top 20 de fora logo nas duas rondas iniciais, ainda havia Sinner, Alexander Zverev, Taylor Fritz, Alex de Minaur, Tommy Paul ou Holger Rune além das boas surpresas a dar cartas no Open da Austrália e o inevitável rei Novak Djokovic (que afastou o português Jaime Faria na segunda ronda). Ou seja, além de ter um teste duro contra o português, que ocupa o 33.º posto do ranking ATP, Alcaraz iria tentar dar seguimento ao que mostrou nos dias iniciais de um torneio onde aposta muito para chegar pela primeira vez à final do único Grand Slam que nunca ganhou e onde tem como melhor registo chegar aos quartos.

A nova (e melhor) versão de Alcaraz acabou por imperar num encontro em que apareceu o “velho” Nuno Borges: apesar de ter uma entrada em falso no jogo logo a sofrer um break, perdendo o primeiro set por 6-2, o maiato recuperou o seu melhor serviço, foi “traído” por um break no nono jogo do segundo parcial (6-4) mas nunca desistiu, vencendo o terceiro set no tie break por 7-3 e levando a decisão para um quarto parcial onde voltou a imperar a muralha espanhola, capaz de devolver quase tudo a tomar contar de todo o court (6-2). Ainda assim, se da parte do jovem tenista de Múrcia ficou a garantia de que tem condições para bater o seu melhor registo em Melbourne, o português voltou a elevar o seu jogo aos mais altos níveis, dando uma demonstração que nada teve a ver com a partida desequilibrada que teve em 2023 no Open de Barcelona.