A verdadeira “base” — ou, mais informalmente, o “burro de carga” — da aviação militar norte-americana. É assim que são definidos os Black Hawk, o modelo do helicóptero que caiu ao colidir com um avião, em Washington, provocando a morte de 67 pessoas e deixando muitas dúvidas — que começam agora a ser investigadas — sobre as razões que levaram a um acidente de dimensões tão relevantes.

Todas as explicações à volta destes helicópteros andam à volta de uma ideia: são essenciais para as forças norte-americanas, uma espécie de pedra basilar à volta da qual se organizam muitas operações de relevo. Desde logo, porque os Black Hawk são usados para “tudo”, como explica a NBC, de operações aéreas de ataque a operações de socorro.

São as próprias forças norte-americanas que dizem que utilizaram este modelo para todas as grandes operações à volta do mundo nos últimos quarenta anos. Em vários casos, fizeram parte das operações mais mediáticas das últimas décadas, incluindo o ataque que matou Osama bin Laden, em maio de 2011, ou das guerras no Afeganistão e no Iraque.

A história dos Black Hawk inseridos no exército norte-americano começa em 1979, e nesta altura as forças dos Estados Unidos dizem estar a contar com este tipo de helicóptero como parte integrante dos seus equipamentos durante os próximos 30 anos, segundo números referidos pela NBC. Não que estes helicópteros sejam usados apenas nos Estados Unidos: haverá cerca de cinco mil aparelhos deste tipo a serem usados em todo o mundo neste momento.

No caso, como recorda a Associated Press, esta era uma versão do helicóptero fabricada para que fosse utilizada pelo exército — também existem variantes para a Marinha, a Força Aérea ou a Guarda Costeira, além de poder ser usado para recolher informação secreta, por exemplo.

Não falta, por tudo isto, quem conheça bem o aparelho, e tendo já trabalhado com ele, tenha muitos elogios para lhe tecer. À NBC, o advogado especializado em assuntos de aviação e antigo mecânico aéreo Timothy A. Loranger dizia por estes dias que o helicóptero é genericamente considerado seguro e tem um bom currículo no que toca às questões de segurança e garantias de sobrevivência em missão.

Mas apesar da fama que têm e da sua importância estrutural sobretudo para o exército norte-americano, não é que os Black Hawk sejam infalíveis. Como a Associated Press recordava aqui, o nome é muito associado ao do filme de 2001 “Black Hawk Down”, que conta a história de um helicóptero abatido na Somália durante a guerra civil no país. Na vida real, há relatos de várias quedas durante missões de treino ao longo doa anos.

Há dois anos, dois helicópteros Black Hawk colidiram durante um exercício de treino em Kentucky, matando os nove soldados que estavam a bordo de ambos. Na altura, e juntando isto a um outro acidente envolvendo helicópteros Apache, as forças norte-americanas puseram um travão nos exercícios da avião, para verificarem se todos os esforços possíveis estariam a ser feitos para prevenir acidentes.

O site Military.com fez então uma contagem dos acidentes com helicópteros Black Hawk, concluindo que na última década houve 60 mortes que resultaram de acidentes durante treinos com este aparelho. No entanto, frisava este relatório, apesar de este número poder parecer alto, em comparação os Black Hawk são os aparelhos onde se registam menos mortes por horas voadas no exército e, comparando com helicópteros como os AH-64 ou os CH-47, saem a ganhar.

Nesaa altura, o site citava responsáveis do exército que garantiam que os últimos anos tinham sido, olhando para os números absolutos, dos mais seguros de sempre, depois de “décadas de preocupações com a segurança”.

E citava uma investigação pedida pelo congresso, a propósito de acidentes ocorridos com helicópteros da Guarda Nacional norte-americana, e que apontava para uma série de falhas sistémicas com justificações humanas: pouca formação dos pilotos, má manutenção, excesso de confiança e pouco cuidado com as precauções de segurança. A maior parte dos incidentes era, assim, atribuída a erros humanos.

No caso do helicóptero que caiu esta semana, despenhando-se no rio Potomac, estava a voar como parte de uma missão de treino e transportava três militares descritos por fontes do exército norte-americano como muito experientes. Um deles seria um instrutor de aviação com mais de mil horas de voos.

A ideia passaria por avaliar, como teste de rotina, a capacidade do piloto para voar durante a noite, tendo a equipa uma noção clara do percurso e das regras de trânsito à volta do aeroporto, disseram as mesmas fontes, citadas pela imprensa norte-americana.

À MSNBC, o tenente-coronel reformado Darin Gaub frisou que o vídeo da colisão não parece mostrar nenhuma mudança de percurso, altitude ou rapidez do helicóptero antes do acidente, o que poderia significar que a tripulação não sabia que o avião vinha a caminho e corria o risco de embater contra si. Mas fontes do exército já esclareceram, citadas pelo New York Times, que, apesar de no vídeo não existir uma alteração brusca, na verdade o helicóptero tinha-se desviado da sua rota pré-aprovada: estava a voar a uma altura de 90 metros em vez de voar a 60 metros, passando por baixo do avião e mais próximo do rio Potomac (onde acabaria por cair), como estava planeado. Além disso, encontrava-se a pelo menos 800 metros do lugar previsto na rota quando a colisão se deu.

A rota prevista era conhecida pelos pilotos que estavam dentro do helicóptero, e que receberam instruções do controlador de tráfico aéreo para seguirem o caminho traçado e voarem abaixo do avião, escreve o New York Times. Falta saber se neste caso a falha também se explica por erro humano ou não.