Luís Marques Mendes é candidato à Presidência da República e fez do seu último comentário a ação zero de campanha, num longo direito de antena em horário nobre — muito semelhante ao que Marcelo Rebelo de Sousa fez há 10 anos na TVI antes de avançar. Na despedida do seu programa de domingo à noite na SIC, o ex-líder do PSD definiu um lema, elogiou os que o apoiam e deixou avisos ao almirante, que confia que pode vencer. Está lançada a candidatura de Mendes a Belém.

Assumindo que será candidato à Presidência da República, Marques Mendes definiu aquilo que pode ser a base da sua candidatura: “Ambição, estabilidade e ética“. A linha ambição é de continuidade e podia ser tirada a papel químico do desígnio do incumbente Marcelo Rebelo de Sousa. Tal como o “Presidente dos afetos”, Marques Mendes diz que a “pouca ambição” é uma “doença do país”, que está “conformado, resignado e até deprimido”. Marcelo passou os mandatos, precisamente a dizer que os portugueses eram os melhores do mundo para puxar pela autoestima do país, Mendes repete a fórmula.

No pilar da estabilidade há uma crítica implícita de Mendes a Marcelo, já que o comentador político repete a ideia que tinha revelado ao Observador ainda como pré-candidato em dezembro: “Não podemos passar a vida em crises políticas, dissoluções, e em eleições antecipadas. Não podemos ter no país o que está a acontecer no país: eleições de seis em seis meses. É preciso fazer pontes.” Nesta matéria, o ex-líder do PSD tenta puxar pela experiência política, que acredita ser uma clara vantagem que tem face ao almirante.

No terceiro ponto do lema, a questão da ética, puxa do seu legado no combate à corrupção, quando afastou autarcas (populares e vencedores) de importantes autarquias como Lisboa ou Oeiras. “Tomei no passado decisões, algumas até difíceis, dentro do meu partido, em quase ninguém concordou, no domínio da ética”, disse na SIC Marques Mendes este domingo. O ex-líder do PSD defendeu que atualmente ainda é “preciso ir um bocadinho mais longe”, já que “uma parte dos portugueses está um bocadinho farta dos políticos, dos partidos, da classe política”. Apresentou assim uma espécie de antídoto contra Ventura e Gouveia e Melo, candidatos aparentemente anti-sistema, voltando a puxar da sua experiência: “Não se resolve com populismo, mas com maior apelo à ética, para que as pessoas voltem a confiar. Não me limito a falar, também fiz.”

Os avisos ao (e contra) o almirante: “Não há vencedores antecipados”

Apesar de não ser favorito nas sondagens, Marques Mendes diz ter “confiança total”. Diz que pode perder, como qualquer um, mas deixa um aviso: “Não vou concorrer para perder.” O ex-líder do PSD disse ainda que, para ele, “o que é difícil funciona como estímulo, não como uma depressão” — numa alusão a vantagem esmagadora de Gouveia e Melo nas sondagens. No entanto, deixa um aviso: “Em democracia, não há vencedores antecipados, nem vencidos antecipados.”

Um outro aviso que deixou a Gouveia e Melo (nunca de forma direta) é que é mais experiente em política do que o antigo Chefe do Estado-Maior da Armada: “A experiência é decisiva. Não só na vida pública, mas na vida em geral. Imagine que tem de fazer uma cirurgia, uma operação, uma coisa maligna, de delicadeza, vai querer um médico. Mas vai querer um médico mais experiente. A experiência significa segurança e previsibilidade. Dei o exemplo na saúde, mas é igual num alto cargo público.” Mendes é, na sua própria metáfora, o médico experiente e Gouveia e Melo uma espécie de interno.

O que Mendes não quis fazer foi atacar Gouveia e Melo diretamente neste momento, embora tenha marcado encontro para uma batalha para mais tarde. “Quer pôr-me a comentar potenciais candidatos, isso não vou fazer. Não é o local, nem o momento. Ainda mais Gouveia e Melo, segundo li, está de férias. Vamos esperar que acabe as férias, para depois apresentar as ideias e confrontar as ideias”, atirou.

O elogio aos (novos velhos) amigos

Marques Mendes, que terá o apoio do PSD, diz que as “ideias são muito mais relevantes que os calendários” e furtou-se a falar da parte partidária da sua candidatura. No entanto, deixou um aviso para a sua área política, que muitas vezes o acusa de ter sido contra o PSD ou, pior do que isso, de estar bem com deus e o diabo. “Critiquei António Costa, elogiei António Costa. Critiquei Montenegro, elogiei Montenegro. Critiquei Pedro Nuno, elogiei Pedro Nuno. Isto não é dar uma no cravo e outra na ferradura, é isenção“, justificou-se.

Ainda assim, na parte de comentário mais aproximada do que era habitual até este último (e personalizado) episódio, Marques Mendes deixou elogios a Luís Montenegro — que é o líder do partido que o vai apoiar — e a Carlos Moedas — o autarca mais importante que manifestou um apoio declarado à sua candidatura.

No caso de Montenegro, Luís Marques Mendes dedicou um último programa a várias “boas notícias” — que são “mérito do país” (leia-se, Governo) — em matéria de crescimento económico — e não só. Além disso, elogiou Montenegro por ter afastado Hernâni Dias de secretário de Estado (“esteve bem”) e desvalorizou ter demorado cinco dias (“antes [noutros governos] eram cinco semanas, agora foi cinco dias).

Além disso, o ex-líder do PSD fez elogios ao presidente da câmara municipal de Lisboa, Carlos Moedas — que lhe deu a mais clara manifestação de apoio vinda de uma alta figura do PSD — pela forma como se pronunciou sobre segurança. Mendes diz que Moedas faz bem em estar “preocupado” com a segurança, apesar das melhorias registadas nos dados da PSP. Além disso, fez questão de elogiar Ricardo Leão, que é do PS, para demonstrar como Moedas não está a ser direitista, já que a preocupação estende-se ao autarca socialista de Loures.

Antes do comentário final de Mendes, passaram reportagens da sua juventude em Fafe, onde era conhecido pelas suas boas defesas como guarda-redes. Recebeu flores e recordou os melhores momentos, muito ao estilo da despedida de Marcelo na TVI que — ao contrário do que acontece com Mendes na SIC — foi muito mais em cima da eleição presidencial. Este domingo o guarda-redes Mendes já saiu dos postes para bater o pontapé de baliza.