Na primeira entrevista após a apresentação da candidatura, na CNN, Luís Marques Mendes justificou o facto de ter avançado quase um ano antes das presidenciais com “uma questão de coerência”, já que considera que “não se deve fazer comentário com uma agenda na cabeça”. “A meio de janeiro tomei a decisão de me candidatar e tinha de sair”, explicou, assumindo que podia ser acusado de estar a fazer campanha em pleno comentário semanal na SIC.

O ex-líder do PSD não tem dúvidas de que é um “risco” ter avançado tão cedo e reconheceu que “é preciso ter talento para gerir todo este tempo sem cair no risco da banalização“. Mais, assumiu que não tomou a decisão por “natureza tática nem por causa das sondagens”, sublinhou que “um democrata que se preze não troca convicções por sondagens” e mostrou-se crente de que as pesquisas com intenções de voto ainda vão “evoluir”.

“É muito tempo, sem dúvida, mas também é uma oportunidade de falar com o país, as universidades, os jovens, as empresas”, realçou, mostrando que pretende andar pelo país nos próximos meses. Entretanto, acrescentou: “Posso perder esta eleição, mas também posso ganhar. Vou a esta eleição para ganhar.” No fundo, como repetiu por diversas vezes, entendeu que “pode ser útil ao país” e foi isso que o fez avançar.

Perante a ideia de que o país pode estar a valorizar os candidatos não políticos, ou que se dizem contra o sistema — como são os casos de Henrique Gouveia e Melo e mesmo André Ventura —, Luís Marques Mendes recuperou uma ideia que tinha deixado clara durante a apresentação da candidatura, em Fafe: “A Presidência da República é um cargo eminentemente político e para ser exercido aquele cargo e função precisa de experiência política.”

Ataques ao almirante, o legado na ética e o piscar de olho ao centro. O discurso de Marques Mendes nas entrelinhas

No mesmo sentido, questionado relativamente a Gouveia e Melo, que segue destacado nas sondagens e de quem assegurou não ter receio, Marques Mendes considera que é um “risco” — confirmando que se referia ao possível adversário quando afirmou que é “um risco, uma aventura, um experimentalismo, um tiro no escuro” ter em Belém alguém que não é político. “É um risco pelas razões que apontei, a Presidência da República precisa de ter princípios, mas é política e recomenda ter experiência.”

“Sou uma pessoa com moderação, equilíbrio, que fez pontes com vários agentes políticos, tenho alguma experiência de fazer acordos de regime e demonstrei coragem para tomar decisões ao longo da minha vida política”, argumentou, num conjunto de auto-elogios, em que recuperou o facto de ter afastado autarcas do PSD por problemas na justiça, enquanto era líder, e enaltecendo que é “preciso mais ética no funcionamento da vida política”.

Para que isso se torne real, sugeriu: “Era preciso um pacto de regeneração política para combater o divórcio com que as pessoas têm com a política, os partidos e as instituições.”

Confrontado com o facto de ter um discurso politicamente correto, Marques Mendes começou por argumentar que “é preciso fazer algumas pontes entre os partidos para ter outra capacidade de fazer crescer a economia”. E refutou a ideia com aquilo que diz ser “politicamente incorreto: o conjunto de medidas e iniciativas que acho vitais para uma espécie de pacto de regeneração na vida política e da ética”.

Marques Mendes entende que é necessário “aproximar os partidos, sobretudo os dois partidos do arco da governação, para mexer nas leis eleitorais e mudar os métodos de eleição dos deputados”. “Acho que é preciso aproximar posições, não se entendo como, há 20 e tal anos, se fez uma revisão constitucional para mudar o sistema eleitoral e continua tudo na mesma”, salientou.

“Há situações como a do deputado do Chega [Miguel Arruda], com comportamentos inqualificáveis, na Assembleia da República, e não há instrumentos para suspender o deputado. Não há instrumentos em Portugal, mas devia haver”, apontou o candidato a Belém, concordando “em tese” com a ideia de André Ventura para criar uma comissão de integridade e ética, mas contrariando que os deputados se julguem sobre si próprios. “A ética é ótima para enfeitar discursos, mas é ótima no dia a dia”, rematou, preocupado com o facto de “a democracia estar a perder qualidade a um ritmo muito perigoso e preocupante”.

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Marcelo? “Não sou cópia nem imitação de ninguém”

Confrontado com as parecenças que tem com o percurso de Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes atirou: “Não sou cópia nem imitação de ninguém.” O candidato a Belém, “amigo de Marcelo Rebelo de Sousa”, explicou que “cultiva muito” essa amizade, mas que os dois são “diferentes”.

Já sobre as “inovações” que o atual Presidente da República nos últimos anos, Marques Mendes garantiu “vai manter uma: os Conselhos de Estado, mais e com mais debate, com convidados” e disse que não vai fazer comentários quando promulgar leis: “O comentário do Presidente cria ruído, instabilidade, não é útil e o Presidente não é co-Governo.”

Quase no papel de comentador, Marques Mendes avaliou ainda os anos de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, dizendo que “primeiro [mandato] foi mais fácil e abrangente, mas globalmente tem mandato positivo”. Concretamente sobre o caso das gémeas, o ex-líder social-democrata considerou que o caso “desgastou muito” as instituições.

Ainda durante a primeira entrevista como candidato à Presidência da República, Marques Mendes esclareceu que Portugal “não tem imigrantes a mais” e que a imigração uma “oportunidade” para o país. “É importante ter uma imigração devidamente regulada e integrada“, justificou, apontando que o Governo está a negociar com dirigentes empresariais e que esse será um “excelente modelo”.

No mesmo sentido, também “não discordou das declarações” de Pedro Nuno Santos sobre imigração. “Acho que disse coisas sensatas que subscrevo”, frisou Marques Mendes, apontando que é óbvia não só a necessidade do cumprimento das leis portuguesas, como que haja atenção às questões da educação e da língua, que considera “essenciais”.

“Não acho razoável nem saudável a associação entre segurança e imigração”, sublinhou, apontando que “não via problema nenhum” na divulgação da nacionalidade de quem comete crimes — uma proposta apresentada pela IL com a qual Montenegro concordou: “Mais dados ajudam a esclarecer e informar.”

Para Marques Mendes, “investir em defesa e segurança” é algo “absolutamente óbvio”, sobretudo depois da eleições de Donald Trump, e porque os países europeus que fazem parte da NATO “descuraram essa parte”. “Países que fazem parto da NATO têm de gastar mais, melhor e europeu”, argumentou, assumindo que tem de haver uma “espécie de PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] para a defesa em termos europeus”.