O cardeal Gianfranco Ravasi, antigo presidente do Pontifício Conselho para a Cultura e um dos mais importantes cardeais italianos, admite que o Papa Francisco poderá vir a renunciar ao pontificado por razões de saúde, embora acredite que o pontífice argentino pretende manter-se em funções, pelo menos, até ao final do Jubileu de 2025.

Numa entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, o cardeal — que liderou a estrutura do Vaticano para a Cultura até 2022, quando foi substituído pelo português José Tolentino Mendonça — alerta também para a “forte corrente anti-Bergoglio” dentro da Igreja Católica, especialmente na esfera digital norte-americana, que promove rumores falsos sobre o Papa.

Questionado diretamente sobre se acredita que Francisco se pode demitir por razões de saúde, Ravasi foi taxativo: “Eu penso que sim. Se ele tiver graves dificuldades em desempenhar o seu serviço, fará a sua escolha. Será ele a decidir, obviamente. Talvez peça conselhos, mas a palavra final vai ser ele a avaliar, em consciência.”

Ravasi acrescentou, porém, que o Papa tem um “grande desejo de, pelo menos, completar o Jubileu, o Ano Santo dedicado à esperança, que ele sente como o seu grande momento”.

As declarações de Gianfranco Ravasi surgem numa altura em que o Papa Francisco se encontra há uma semana internado no hospital Agostino Gemelli, em Roma. Inicialmente hospitalizado com uma bronquite, Francisco foi entretanto diagnosticado com uma pneumonia — e o seu estado de saúde chegou a ser descrito como “complexo” pelo Vaticano, que entretanto já informou que o Papa se encontra a melhorar gradualmente.

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O internamento, associado ao longo historial de problemas de saúde de Francisco, levou esta semana a forte especulação sobre se o fim do pontificado estaria a aproximar-se — seja pela morte do Papa, seja pela eventual renúncia ao cargo.

Na entrevista ao Corriere della Sera, Ravasi lembrou o precedente aberto pelo Papa Bento XVI, que em 2013 fez história ao tornar-se o primeiro papa em largas centenas de anos a renunciar ao trono pontifício. “Ele disse-me que a sua mente estava bem, mas que o seu corpo já não conseguia acompanhar”, conta o cardeal italiano. “Um Papa tem de manter uma agenda bastante ocupada com reuniões e viagens, e ele sentia que já não estava capaz.”

Questionado sobre se Francisco poderá seguir-lhe os passos, Ravasi considera que o Papa argentino, “mesmo nas dificuldades relacionadas com a sua idade e o seu físico, continuou a ter uma presença única no planeta, talvez apenas como João Paulo II, a sua voz e a sua ação são reconhecidas por crentes e não crentes”.

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“Neste sentido, a longa e exigente viagem que fez em setembro à Ásia e à Oceânia é exemplar, apesar da cadeira de rodas, apesar de tudo. Foi uma grande lição, como a dos atletas paralímpicos. Ele mostrou que tudo pode ser feito, mesmo na fragilidade”, considera o cardeal italiano.

“É uma questão de entender o que acontecerá no futuro. De resto, o próprio Papa Francisco explicou que já assinou uma carta de renúncia no início do seu pontificado, como Paulo VI tinha feito. Pelo que sabemos, está agora a existir uma dificuldade estrutural que diz respeito a uma função vital, como a respiração”, assinala ainda Ravasi. “O joelho é uma coisa, mas se alguém sente que o seu corpo inteiro está em dificuldade, é outra coisa.”

O cardeal elogiou também o facto de o Vaticano estar a divulgar informação detalhada sobre o estado de saúde do líder da Igreja Católica, ao invés de esconder informação “como os boletins soviéticos, em que o secretário-geral tinha uma constipação até morrer”.

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Contudo, “como vivemos em tempos em que a infoesfera, a comunicação global, é decisiva, uma bolha mediática tem tentado ir além das indicações realistas”, o que deu origem a rumores falsos como o de que o Papa já estava prestes a ser transportado de volta ao Vaticano por já não haver nada a fazer pela sua saúde.

No entender de Gianfranco Ravasi, parte da explicação para a existência de tanta informação falsa sobre o Papa encontra-se na “forte corrente anti-Bergoglio” que se pode encontrar “especialmente na internet e nos sites norte-americanos”. Estas perspetivas também têm chegado à Europa: no ano passado, por exemplo, um grupo de padres tradicionalistas espanhóis ficou viral na internet por desejar que o Papa fosse “para o céu o quanto antes”.

“Mesmo que não seja explícita, há sempre um evidente desejo de mudança que também é expressado através de fake news. Há uma forte polarização. Além disso, a tensão entre visões eclesiais opostas não é um fenómeno de hoje”, aponta Ravasi, dizendo que já desde os primeiros tempos do Cristianismo houve tensões entre os apóstolos.