É mais um sintoma das dificuldades que o Hospital Amadora-Sintra atravessa. Devido à falta de médicos, a Urgência geral (a terceira maior do país) não tem apoio de uma equipa de cirurgiões aos fins de semana — o que tem obrigado o hospital a encerrar a Urgência de Cirurgia e a encaminhar doentes (que necessitem de ser intervencionados ou observados por um especialista em Cirurgia) para outros hospitais da área de Lisboa.

O Observador teve acesso a um email interno, enviado pela diretora clínica da Unidade Local de Saúde (ULS) Amadora-Sintra, em que a responsável dava conta da decisão de encerrar a Urgência de Cirurgia geral no fim de semana de 22 e 23 de fevereiro. Um encerramento que também se terá verificado nos dois fins de semana anteriores, apurou o Observador, e deverá repetir-se nos próximos, dada a falta de médicos para preencher as escalas. Ao Observador, a ULS Amadora-Sintra “confirma o encerramento da Urgência de Cirurgia Geral no último fim de semana, de acordo com o Plano de Contingência em vigor”, detalhando que o mesmo ocorreu em dois períodos (“Entre as 8h e as 20h de sábado e entre as 20h de sábado e as 8 horas da manhã de domingo”).

A ULS confirma o encerramento da urgência também nos dois fins de semana anteriores, mas garante ter-se tratado de um encerramento parcial — mais concretamente nos dias 9 e 15 de fevereiro. E garante que tem sido assegurada a urgência interna de Cirurgia Geral bem como a ligação permamente ao CODU.

Até ao início de fevereiro, a ULS Amadora-Sintra decidira manter a urgência aberta, com uma equipa abaixo dos mínimos exigidos pela Ordem dos Médicos (OM), o que mereceu críticas da própria Ordem. A partir daí, a opção do Conselho de Administração tem sido a de encerrar a Urgência de Cirurgia ao exterior — uma decisão que afeta uma população de mais de 560 mil pessoas que são abrangidas por aquela unidade. Ao Observador, o presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos alerta que o encerramento da urgência cirúrgica coloca em risco os cuidados à população.

Urgência de Cirurgia do Amadora/Sintra apenas com um especialista e dois internos. Ordem defende encerramento do serviço

“Hospital fica numa situação muito complicada”, diz presidente da Ordem dos Médicos do Sul

“Se a área cirúrgica da urgência fica fechada, o hospital fica numa situação muito complicada. Todos os dias temos situações que precisam de um cirurgião: uma apendicite, um acidente de viação, uma colescitite aguda, uma pancreatite, etc. E aquela população exerce normalmente uma pressão sobre o hospital, porque precisa daquele tipo de cuidados”, vinca Paulo Simões, que é médico cirurgião. O responsável diz não ter ficado surpreendido com o encerramento da Urgência de Cirurgia.

“Não me surpreende, é a constatação da degradação de um serviço que, há um ano, era exemplar. Que tinha recuperado e estava em progressão. Passado um ano, o serviço de Cirurgia Geral desapareceu“, lamenta o presidente da secção do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos. Já o hospital sublinha que o “Plano de Contingência [que prevê o encerramento da urgência, quando necessário] foi realizado com intuito de se assegurar a resposta e salvaguardar a resposta aos utentes”.

Num email enviado internamente, na semana passada, a diretora clínica da ULS Amadora-Sintra, Bárbara Flor de Lima, anunciava o encerramento da Urgência de Cirurgia Geral no sábado, dia 22 de fevereiro, e também no domingo, dia 23 de fevereiro. “A pequena cirurgia está encerrada — não podem ser admitidos doentes que venham expressamente para esta área”, lê-se no email a que o Observador teve acesso.

A responsável sublinhava que não iriam ser encaminhados doentes através da linha SNS24, mas alertava para a possibilidade de poderem “chegar ao hospital [doentes] em horário posterior ao encaminhamento e em período de encerramento”. Nesses casos, os doentes deveriam “ser encaminhados para outras unidades de saúde”, indicava Bárbara Flor de Lima, acrescentando que o Centro de Orientação de Doentes Urgentes do INEM já tinha sido informado.

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Encerramento cria pressão sobre hospitais de Lisboa

Paulo Simões alerta, no entanto, para a pressão que o encerramento da urgência cirúrgica causa nos hospitais para onde são habitualmente encaminhados os doentes quando o Amadora-Sintra não tem capacidade de resposta. “Isto é preocupante, porque cria um problema enorme noutras urgências da zona, como a do [Hospital de] São Francisco Xavier e a do [Hospital de] Santa Maria”, sublinha Paulo Simões.

A decisão de encerrar a Urgência de Cirurgia — perante a falta de médicos suficientes para preencher as escalas — foi tomada pelo Amadora-Sintra depois de um alerta público da Ordem dos Médicos, no início de fevereiro, e da divulgação de uma carta (cujo conteúdo foi revelado pelo Observador) em que os 10 médicos internos do serviço de Cirurgia Geral apontavam várias falhas — que estavam a comprometer a qualidade da assistência à população e a própria formação dos jovens médicos.

Cirurgias e consultas oncológicas canceladas, urgências sem supervisão e ambiente “hostil”. Internos denunciam falhas no Amadora-Sintra

A 3 de fevereiro, a Ordem dos Médicos denunciava que o Hospital Amadora-Sintra tinha mantido aberta a Urgência de Cirurgia no primeiro fim de semana de fevereiro com uma escala que contava apenas com um médico especialista e dois médicos internos — um rácio “muito abaixo dos limites de segurança clínica” e “contra todas as recomendações técnicas”. Uma “situação insustentável”, criticava o bastonário dos Médicos, Carlos Cortes, lembrando que, para um hospital com a dimensão do Fernando Fonseca, a escala deveria ter pelo menos seis médicos cirurgiões (entre especialistas e internos). Ao Observador, o bastonário defendia que a urgência cirúrgica não poderia continuar aberta, sob pena de ficar comprometida a segurança de doentes e profissionais.

No mesmo dia em que a Ordem dos Médicos alertava para a falta de cirurgiões para assegurar o funcionamento da Urgência, o diretor da Urgência Geral, Hugo Martins, apresentava a demissão. Três dias depois, o Conselho de Administração, liderado por Luís Gouveia, decidiu apresentar também a demissão à ministra da Saúde. Ana Paula Martins aceitou de imediato, mas não chamou a si o dossier.

Ministério da Saúde remete tema para a Direção Executiva do SNS

Uma semana depois, na Comissão Parlamentar de Saúde da Assembleia da República, a ministra da Saúde afirmou que a tutela não tem um plano para ultrapassar a situação no Amadora-Sintra. “O Governo não tem nenhum plano para o Amadora-Sintra para resolver este aspeto específico“, disse Ana Paula Martins, remetendo a responsabilidade para o demissionário Conselho de Administração da ULS: “Não vos consigo dizer como é que vamos ultrapassar esta situação, mas temos lá um conselho de administração [ainda em funções] e acredito que eles vão conseguir continuar fazer a gestão desta situação.”

Para o presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, a responsabilidade pela situação atual é da direção do hospital. “O Conselho de Administração, a partir do momento em que se demitiu, quis criar um facto, esquecendo-se de que a responsabilidade desse facto (que é o serviço estar a colapsar) não é da ministra, ou da Direção Executiva, é do próprio Conselho de Administração”, defende Paulo Simões.

Contactado pelo Observador, no sentido de perceber se já haveria um plano para o Amadora-Sintra, o Ministério da Saúde remeteu a questão para a Direção Executiva do SNS. No entanto, aquela entidade, agora liderada por Álvaro Almeida, não enviou qualquer resposta em tempo útil.

Notícia atualizada às 21h05, com a confirmação oficial da ULS Amadora-Sintra de que a Urgência de Cirurgia encerrou também nos dias 9 e 15 de fevereiro