Um dos fundadores do partido de esquerda radical espanhol Podemos, Juan Carlos Monedero, está a ser acusado de assédio sexual por várias militantes do partido e antigas alunas de Ciência Política da Universidade Complutense de Madrid, curso que lecionava.

A situação foi exposta pelo jornal online elDiario.es, que relata uma denúncia feita por uma mulher num e-mail enviado no dia 12 de setembro de 2023 à Secretaria de Feminismo do Podemos. “Boa tarde, estou a contactá-los porque tenho conhecimento direto há anos, e é de conhecimento geral, que o Sr. Juan Carlos Monedero se dedica a incomodar e apalpar mulheres jovens em ambientes de festa onde tem acesso a elas”, lê-se no email citado pelo jornal espanhol.

Também fontes com cargos importantes na liderança do partido admitiram, ao canal de televisão La Sexta, os “comportamentos regulares” de Monedero, que seriam, como avança o email, do conhecimento de todos no Podemos.

Ao elDiario.es, fontes do Podemos asseguraram que, assim que tomaram conhecimento das acusações em 2023, afastaram Monedero. A atual líder do partido, Ione Belarra, garantiu que o partido o tinha mesmo afastado da direção do partido. “Afastámos Juan Carlos Monedero no momento em que tivemos conhecimento dos testemunhos das suas vítimas, porque queremos pô-las no centro, protegê-las e proteger a sua vontade. Ter em conta as mulheres e o que querem é fundamental para nós. Quiseram discrição, anonimato, por isso atuámos como atuámos”, declarou.

No entanto, segundo o mesmo jornal, a primeira denúncia deste género foi recebida pelo partido sete anos antes do email de 2023. Em 2016, quando o Podemos tinha apenas dois anos de existência, uma queixa proveniente de uma militante da ala catalã do partido, o Em Comú Podem, chegou à cúpula do partido.

Segundo fontes próximas da direção do Podemos naquela altura, a direção decidiu tratar o assunto “sem alarido” porque a vítima não queria expor publicamente a situação — e também porque os dirigentes temeram consequências. “Não foi feita qualquer investigação ou ação contra Monedero e a ordem foi para que o assunto fosse tratado sem alarido, de modo a não ser divulgado e a não causar danos”, conta uma das fontes citadas pelo jornal.

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Por outro lado, a garantia de Belarra de que Monedero terá sido afastado da direção do partido depois do email de denúncia é também contrariada pelo facto do fundador ter continuado nas conversas do órgão alargado da direção — não era membro do CCE, não tinha direito de voto, mas participava nas reuniões e no canal de comunicação como convidado. Uma informação divulgada pelo canal de televisão La Sexta e posteriormente confirmada pelo porta-voz do Podemos.

Segundo Pablo Fernández, “não existia uma resolução que o suspendesse da filiação partidária ou o expulsasse do partido”, o que justificou a continuação de Monedero na plataforma. O dirigente, citado pelo El País, avançou que Monedero já não faz parte do chat e assume que a saída se deveu a “leaks” do grupo, que definiu serem “preocupantes”. Ainda assim, não esclareceu a data da expulsão efetiva, nem se a decisão teve como razão a exposição de conversas na sexta-feira passada.

Entre as queixas feitas contra Monedero está a de Lola Sánchez, eurodeputada do Podemos entre 2014 e 2019, que relatou um caso de alegado assédio sexual numa publicação na rede social X.

“Na noite do encerramento da campanha, depois do comício no Reina Sofía, fomos beber uns copos a Lavapiés (zona de Madrid). Ele empurrou-me contra a parede e convidou-me para ir a casa dele. Despedi-me e fui-me embora (para junto dos meus amigos que me deram abrigo). Mas mais tarde ele fez o mesmo a outra amiga”, relatou.

Para além do partido, Juan Carlos Monedero é alvo de um processo aberto pela Universidade Complutense de Madrid, devido a denúncias feitas por uma aluna a quem deu aulas no curso de Ciência Política.

Segundo o OK Diario, os casos eram algo “muito comentado” entre os alunos do curso. Ao jornal espanhol El Mundo, uma das alunas do curso confessa: “Não nos surpreende nada, na verdade”.