Os testemunhos do irmão Patrick, da ex-mulher, Marie-France, marcaram o terceiro dia de julgamento do maior caso de sempre de pedofilia na justiça francesa, em que o réu é Joël Le Scouarnec, antigo médico-cirurgião, acusado de ter abusado de 299 crianças ao longo de duas décadas, nos anos 90 e 2000.

Patrick Le Scouarnec, o irmão mais novo do cirurgião acusado, foi responsável por um dos testemunhos mais fortes da tarde no Tribunal Penal de Morbihan, em Vannes, ao lançar fortes acusações à mulher de Joël, Marie-France.

“Há outra pessoa que poderia ter assegurado que o meu irmão fosse preso, é a sua mulher“, acusou Patrick. “Ela sabia das ações do marido e não fez nada”, sublinhou num testemunho citado pela France Info.

O irmão do cirurgião aproveitou ainda o testemunho para dizer que Marie-France, que se separou há vários anos do médico, estaria mais interessada em Joël Le Scouarnec devido ao “dinheiro” do que “por amor”. “Quando se tem um marido que ganha 10.000 euros líquidos por mês, a minha cunhada não tinha de trabalhar. Ela podia fazer hidroginástica… toda uma série de atividades”, disse, garantindo que a mesma teria tido vários amantes.

Mas as acusações não ficaram por aqui: Patrick, que se mostrou revoltado com os crimes que terão sido cometidos pelo irmão, sugeriu também que a clínica de La Roches sabia dos crimes cometidos por Joël.

“Não quero voltar a ver o meu irmão”, garantiu Patrick, explicando acreditar mesmo que “seria bom” para o médico acusado ou pelo menos para a sociedade que Joël estivesse preso “até ao fim da sua vida”.

O médico acusado ouviu todas as declarações do irmão e, em reação, pediu perdão “em nome das boas memórias que ambos” tinham do passado.  “Se eu estou aqui à tua frente, se tu estás aqui à minha frente, é porque cometi o pior dos crimes. Sei que é imperdoável e compreendo que nunca me perdoarás”, acrescentou o médico. Patrick terá aceitado as “desculpas” do arguido.

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Ex-mulher do médico negou saber que marido era pedófilo

Respondendo às perguntas do tribunal, Marie-France negou saber que o marido possuía pornografia infantil e alegou não fazer qualquer ideia que Jean Le Scouarnec tinha praticado quaisquer dos atos pelos quais está a ser julgado. “Não estava escrito na cara dele”, disse a ex-mulher, sublinhando que “não havia nada que pudesse sugerir isso”. Além disso, também negou saber se os seus filhos tinham sido abusados, da mesma maneira que negou saber práticas de zoofilia.

Confrontada com um excerto de um diário de Le Scouarnec — “Ela sabe que eu sou pedófilo”, escreveu o médico –, Marie-France respondeu que “ela” se referia à “consciência” do cirurgião. “Não reparou na personalidade do seu marido durante 30 anos?”, perguntou a presidente do coletivo de juízes, citada pela Ouest France. A resposta de Marie-France foi curta: “Completamente“.

Sobre as vítimas, a ex-mulher do cirurgião afirmou que “empatizava” com elas, tendo contado que sofreu de abuso. “Fui vítima duas vezes em criança. E em adulta: fui violada à noite, drogada, pelo meu companheiro”, lembrou, referindo-se a alguém com quem terá estado.

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Ainda assim, a ex-mulher do médico protagonizou, segundo o relato da jornalista Juliette Campion, da France Info, um momento que provocou revolta geral na sala de audiência. Primeiro, Marie-France disse que uma sobrinha de Joël, uma das vítimas que tinha à altura dos crimes cinco anos de idade, tentava manipular o cirurgião. Depois, confessou que, numa conversa com o seu filho mais velho, que revelou em tribunal ter sido abusado pelo avô (pai de Joël Le Scournec), este lhe disse que “há crianças que são tocadas e que gostam”.

“Quem sabe… Sabem, ela é uma menina desonesta. Ela pregou-me algumas partidas desagradáveis. Ela gosta de chamar a atenção”, acrescentou ainda a ex-mulher do acusado.

A sessão foi marcada pela projeção de várias imagens, encontradas na posse de Joël Le Scouarnec, das vítimas do ex-cirurgião, incluindo da referida sobrinha. Segundo os jornais franceses, um momento que mudou a postura de Marie-France. Questionada se achava que o ex-marido era capaz de ter cometidos os crimes de que está acusado, respondeu: “Com tudo o que me mostraram, sim, é possível”. “Se eu tivesse visto ou se um dos meus filhos me tivesse dito que tinha sofrido alguma coisa, tê-lo-ia matado e eu é que estaria na prisão“, disse.

“O que é que quer, que me meta a chorar?”, diz amigo de Scouarnec

Para além do irmão e da ex-mulher, foram ouvidas duas outras testemunhas, a prima do arguido Martine e um amigo, identificado como Christian D., cujo testemunho chocou o próprio acusado.

Segundo a Ouest France, quando uestionado sobre as visitas que continua a fazer ao arguido na prisão, o amigo relembrou as histórias vividas em cojunto, sem abordar as acusações contra Joël. “Memórias, memórias. Muitas recordações. De passeios. De passeios culturais. Todas as semanas, entro em contacto com o Joël. O que está feito, está feito. Não tenho nada a ver com isso”, disse.

“O que é que quer, que me meta a chorar?”, respondeu ainda quando o procurador-geral lhe perguntou se as reações das vítimas presentes na audiência não o incomodavam.  “Oiça, eu sou viciado em notícias, não me posso dar ao luxo de chorar por tudo o que acontece no mundo”, acrescentou, embora tenha dito que acredita que Joël mereça ser “punido”.

Até o arguido, segundo o Ouest France, ficou “chocado” com o tom que o seu amigo teve a falar em tribunal, algo que deixou claro no seu testemunho.

“És meu amigo e continuarás a ser meu amigo. Conheço-te há tanto tempo que não estou surpreendido com o que disseste, mas gostaria de te dizer que fiquei profundamente chocado com o que disseste, com a tua aparente indiferença por todas as pessoas que estão aqui, que eu ataquei e que ficarão marcadas para o resto das suas vidas por causa dos meus atos”, afirmou Scouarnec.

Também a prima do cirurgião, Martine, explicou porque visitou o familiar detido, justificando a decisão com algumas das palavras que lhe terá dito numa visita: “Continuas a ser meu primo, eu sei que és pedófilo, mas acho que não és só um pedófilo”. “Sempre olhei para o Joël como outra pessoa. Há algo mais”, acrescentou.

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Joël respondeu à sua prima com mais uma admissão de culpa e aparentemente reconhecendo o peso que as sua ações tiveram na família. “Em todo o caso, devastei de facto a nossa família. E ter um primo que é pedófilo também não deve ser fácil de suportar”, afirmou o médico na audiência.