A Universidade de Harvard deve repatriar para o Brasil ainda em 2025 o crânio de um escravo africano muçulmano, morto em 1835 durante a Revolta dos Malês, em Salvador, na Bahia, e que está atualmente no museu Peabody. Um grupo de trabalho formado por investigadores brasileiros e internacionais e membros do Ministério de Negócios Estrangeiros do Brasil estão em negociações desde o final do ano passado para tornar o regresso possível nos próximos meses.
Os restos mortais serão de um dos homens a liderar a revolta a 24 de janeiro de 1835, na Bahia. Na insurreição, cerca de 600 africanos muçulmanos, a maioria escravos, oriundos da região onde hoje fica o Benim, o Togo e a Nigéria, reivindicaram a sua liberdade religiosa e dos trabalhos forçados. O levante foi organizado com antecedência, e, por serem alfabetizados e escreverem em árabe, os insurgentes conseguiram propagar as ideias sem serem apanhados antecipadamente. Contudo, foram impedidos pela polícia no dia do protesto. Cerca de 70 pessoas morreram e outros foram punidos com açoitamento e exílio.
▲ Manuscrito encontrado preso no pescoço de um dos insurgentes
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Crânio descoberto em 2022
O crânio terá sido retirado de um hospital em Salvador por Gideon T. Snow, um diplomata norte-americano que defendia a escravatura, com o objetivo de realizar estudos eugénicos. Num texto da época, Snow afirma que o crânio pertence a “um africano genuíno, da tribo Nagô, estimados entre todos os outros negros pela sua alta estatura, a largura dos ombros, a simetria e a força dos membros, todos unidos a uma inteligência não muito usual entre os negros das outras tribos. Esta foi a tribo que se revoltou em janeiro de 1835, e este foi um dos chefes do motim. Foi morto depois da contestação mais desesperada, a coragem desta tribo é tão grande quanto a sua força hercúlea”.
Quase 190 anos depois, foi só em 2022 que o crânio foi descoberto em Harvard. A universidade fez um levantamento de todos os restos mortais presentes nas coleções museológicas, ou seja, que não estão a ser utilizados nas escolas de medicina e nos laboratórios. O relatório identificou os restos mortais de mais de 7 mil indígenas da América do Norte, além de 19 pessoas de origem africana, escravizados nas Caraíbas e no Brasil. De acordo com o documento, os esqueletos foram obtidos “sob os regimes violentos e desumanos da escravidão e do colonialismo” e levados para os Estados Unidos com o objetivo de “demonstrar diferenças espúrias e racistas para confirmar as hierarquias e as estruturas sociais existentes”. O relatório ainda recomenda a repatriação dos restos mortais aos seus descendentes.
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Grupo de Trabalho para a repatriação
Diante deste levantamento, o líder do Centro Cultural Islâmico da Bahia, Sheik Ahmad Abdul, iniciou o trabalho para conseguir levar o crânio de volta para o Brasil. “É nosso irmão e merece ser trazido de volta para ser enterrado de acordo com os rituais islâmicos”, disse, citado pelo The Guardian. Abdul faz parte do Grupo de Trabalho Arakunrin, nome atribuído ao homem e que na língua iorubá significa “irmão” ou “companheiro”. De acordo com o que disse à revista brasileira Super Interessante o historiador Bruno Véras, professor na Universidade de Toronto e outro membro do grupo de trabalho, o crânio deve regressar ao Brasil ainda em 2025, ano que marca também os 190 anos da Revolta dos Malês. No país, será analisada a sua idade através da arcada dentária e com uma tomografia computadorizada será possível recriar o rosto de Arakunrin.
Contudo, para o historiador brasileiro João José Reis, um dos principais investigadores da Revolta dos Malês, a repatriação serve também para confirmar se os restos mortais são mesmo de Arakunrin, através de testes de ADN. “É moralmente difícil confiar na palavra de um ladrão“, disse ao The Guardian. O académico afirmou ainda que a Harvard tem atrasado as negociações para a repatriação do crânio nos últimos dois anos, e que as conversas só avançaram com o envolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil, no final de 2024. De acordo com o jornal britânico, ainda não há certeza sobre as condições dos restos mortais e não há fotografias do crânio, por causa das políticas da universidade de não divulgar imagens de restos mortais.
Durante um seminário realizado em janeiro na Universidade de Toronto, a Comissão para o Repatriamento de Restos Humanos da Universidade de Harvard comprometeu-se a devolver o crânio. Porém, há ainda restos mortais de outra pessoa que terão vindo do Brasil, um “crânio que terá sido exumado das ruas do Rio de Janeiro” do qual pouco se sabe. Harvard diz que pretende devolver os dois crânios juntos, e aguarda informações que confirmem qual é a comunidade de descendentes que os vai receber — o que está claro no caso do homem morto na Revolta dos Malês, mas ainda não neste segundo crânio oriundo do Rio de Janeiro. Sendo assim, ainda não se sabe ao certo quando os crânios regressam ao Brasil, de facto.