“Não é muito compreensível” que os bancos portugueses não estejam a pagar juros mais elevados pelos depósitos a prazo dos portugueses, designadamente à luz daquilo que os bancos recebem pelos depósitos que fazem junto do banco central e pelos quais também são remunerados. A posição foi manifestada nesta quarta-feira pelo governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, que aproveitou um discurso num evento sobre banca para alertar os bancos para a sua “responsabilidade fiduciária de remunerar as poupanças dos cidadãos”.

As declarações foram feitas num evento organizado pelo Jornal Económico, o Fórum Banca 2025, num hotel em Lisboa. Momentos antes, vários dos responsáveis dos bancos nacionais tinham salientado que as taxas de juro dos depósitos são “taxas de mercado”, que dependem da lei da oferta e da procura, mas Centeno apresentou o argumento contrário.

O governador do Banco de Portugal considerou que “não é muito compreensível que haja uma [grande] diferença” entre a remuneração dos depósitos pagos pelas poupanças portugueses e os juros que os bancos recebem quando depositam liquidez excedentária no banco central – à taxa que é determinada periodicamente pelo BCE e que neste momento está em 2,5%.

Segundo dados do Banco de Portugal, a taxa de juro média dos novos depósitos a prazo de particulares diminuiu em janeiro pelo 13º mês consecutivo, para 1,98%. Em contraste, a taxa de juro do BCE estava, nesse mês, em 3%, tendo baixado para 2,75% e, mais recentemente, para 2,5%.

Apesar desta divergência, os banqueiros recusam a ideia de que os depósitos sejam mal remunerados. O presidente do Millennium BCP, Miguel Maya, sublinhou o “ambiente concorrencial” que dita a remuneração dos depósitos. Além disso, Miguel Maya salientou a evolução do chamado “rácio de transformação”, que representa a diferença entre os depósitos e os créditos concedidos, que baixou de 160% (mais crédito do que depósitos) para atuais 80%, aproximadamente. “Eu queria era conceder mais crédito”, afirmou o presidente do BCP.

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Outros banqueiros, como João Pedro Oliveira e Costa, do BPI, também salientaram que este é um tema “de concorrência”: “eu também gostava de pagar menos por aquilo que os supermercados vendem nas prateleiras”, disse o banqueiro.

Mas, para Mário Centeno, esta não é uma comparação que se possa fazer, já que “a capacidade que a banca tem de atrair depósitos é atribuída por nós. É uma responsabilidade social da banca gerir as poupanças – esta gestão é feita num sistema que se baseia na confiança e não podemos pôr em causa essa confiança”, atirou Mário Centeno.

“A banca tem uma obrigação de respeitar esta obrigação social e que é atribuída fiduciariamente”, atirou o governador do Banco de Portugal, pedindo ao setor que “reflita” de forma mais adequada a remuneração que recebem quando fazem, eles próprios, depósitos no BCE.