Na primeira aparição em público após mais de 38 dias de internamento, o Papa Francisco, cansado, falou pouco e com voz trémula. Entre o curto discurso, houve uma menção especial: “Obrigado a todos, vejo esta senhora com as flores amarelas, que bom”.
O discurso apanhou Carmela Mancuso de surpresa: “Eu não sabia que ele iria recuperar. E saber que ele olhou para mim é uma emoção que não consigo explicar com palavras. Ainda não me parece real que ele tenha falado de mim e das flores amarelas, que nos tenha reconhecido no meio de tanta gente”.
Tem 79 anos e vem da Calabria, no sul de Itália, mas está, neste momento, a viver em Monteverde, Roma. Desde o internamento do Papa, a 14 de fevereiro, a mulher tem conquistado atenção mediática pela presença constante à porta do Hospital Gemelli, mas a relação com o jesuíta argentino é bem antiga.
Papa Francisco reaparece em público, saúda fiéis à janela do quarto de hospital
“Este ritual das flores para o Papa é algo que fazemos há anos. Estou em Roma há seis anos. Em todas as audiências a que fui apareci com flores para o Santo Padre. Desde a primeira vez [em 2017], vi a admiração e o sorriso nos seus olhos”, disse em declarações ao Corriere della Sera.
A reação do Papa, que questionou se as flores seriam para ele, surpreendeu a mulher, que fez deste oferta uma tradição. “Ao acenar com este bouquet de rosas amarelas [este domingo] eu queria cumprimentá-lo, alegrar o seu olhar para a convalescença”.
Carmela Mancuso, calabrese, 72 anni, è la signora coi fiori gialli che #PapaFrancesco ha salutato dal balcone del Gemelli. Quasi ogni giorno è venuta a portare fiori: “Grazie. Non so che dire. Non pensavo di essere così vista. Auguro al Santo Padre di tornare come prima tra noi" pic.twitter.com/Pti70BBO1i
— Vatican News (@vaticannews_it) March 23, 2025
A relação manteve-se desde então e não desapareceu com a ausência do Papa do Vaticano, bem pelo contrário. Impedida de cumprir o ritual nas audiências, Carmela passou a apanhar um comboio todos os dias para marcar presença à porta do hospital, com o habitual bouquet de rosas amarelas.
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“Estou em peregrinação constante”, disse à Reuters, no início deste mês, ao descrever a sua rotina. Depois de rezar junto ao hospital, apanhava novo comboio para a Praça de S. Pedro, onde, com outros fiéis, rezava um Rosário a pensar na recuperação de Francisco.
Quando, durante o internamento, Carmela soube que o estado de saúde do Papa se tinha agravado, perdeu “o ânimo, estava quase a chorar”. Este domingo, a italiana estava sorridente, como o Papa, contente pelo reconhecimento do líder da Igreja Católica, mas sobretudo por ver Francisco a sair do hospital.
“Quando ele saiu para a varanda, eu estava por perto e pensei que podia oferecer [as flores]. Queria estimulá-lo e ver como estava, mas não pensei que estivesse a falar de mim, esperava apenas o sinal da bênção, mas o seu olhar foi para o amarelo do ramo e depois expressou-se para mim como acontece sempre que me vê chegar com flores”, descreveu ao Corriere della Serra, enquanto o telemóvel não pára de tocar e antes de regressar, de comboio, a casa.
Apesar de ter tido alta, o Papa enfrenta um período de convalescença de pelo menos dois meses, nos quais não poderá receber grupos de pessoas. “Vai continuar a fazer fisioterapia respiratória e motora. Haverá tratamento contínuo. Esperamos que retome as suas atividades normais em breve”, explicaram, no sábado, os médicos.
Francisco foi internado na sequência de uma bronquite. Mais tarde, o Papa de 88 anos foi diagnosticado com uma pneumonia bilateral. Desde que foi internado, só tinha sido visto uma vez, numa imagem partilhada pelo Vaticano que mostrava o Papa a rezar na capela do hospital.
Antes, a sua voz tinha sido ouvida através de um áudio que ecoou na praça de São Pedro, com uma mensagem aos fiéis: “Agradeço de todo o coração as orações que fazem pela minha saúde que fazem desde essa praça, acompanho-vos daqui. Que Deus vos abençoe e que a Virgem vos proteja”.
Desde a sua juventude que o primeiro jesuíta a ser eleito Papa sofre problemas de saúde, incluindo uma infeção que levou a que ficasse sem parte de um pulmão. Eleito em 2013, o Papa que veio “quase do fim do mundo”, como o próprio assumiu no primeiro discurso como sucessor de Pedro, tem dedicado o seu pontificado aos que vivem na periferia, desde os pobres aos mais marginalizados.