Depois de 17 anos em parte incerta, um medalhão visigodo roubado da cidade de Peraleda de la Mata, na Extremadura, em Espanha, foi localizado numa galeria em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e devolvido à Guarda Civil espanhola, anunciou a Junta da Extremadura, no sábado.
A repatriação da peça foi concluída na sexta-feira, por meio da colaboração entre o Estado espanhol, o FBI (Departamento Federal de Investigação) e o U.S. Homeland Security (Departamento de Segurança dos Estados Unidos) e está agora na posse da Unidade Operacional Central (UCO) da Guarda Civil espanhola, avança o El Espectador. O Governo Regional da Extremadura já anunciou que irá reivindicar a propriedade do medalhão ao Ministério da Cultura.
“É um tesouro para nós, estamos diante de uma peça muito importante do período visigodo“, afirmou o capitão Juan José Águila, chefe da secção de Património Histórico da UCO, citado pelo El Espectador, na cerimónia de assinatura formal da ordem de repatriação, que aconteceu em Nova Iorque, na sexta-feira.
O medalhão de prata, datado de entre os séculos V e VII d.C., tem 13,7 centímetros de diâmetro e tem representada a derrota da Quimera pelo herói mitológico grego Belerofonte. Foi encontrado em 2008 por um arqueólogo local. À data, existia até uma fotografia da peça recém-extraída, ainda coberta de terra, diz a Junta da Extremadura.
O seu paradeiro permaneceu desconhecido até 2022, quando reapareceu na capa da revista Oppidum e num artigo académico no seu interior, com o título “Cinco Piezas Singulares Tardoantiguas Vistas en una Colección Privada”, publicado por Cesáreo Pérez González e Eusébio Dohijo. Os autores mencionam no artigo que o medalhão se encontrava na galeria suíça Phoenix Ancient Art, em Genebra, “numa coleção particular”.
Segundo o El Espectador, em junho de 2023, a UCO voltou a deparar-se com o medalhão num site, oferecido em leilão por uma galeria de Nova Iorque que, por sua vez, o teria comprado a outra galeria, na Catalunha. O preço inicial da peça seria de 210.000 dólares (193. 690,35 euros).
“O dono da galeria aqui (em Nova Iorque) forneceu uma fatura de outra galeria na Catalunha, mas não tinham solicitado uma licença de exportação, então em Espanha estariam a cometer os crimes de pilhagem e contrabando. No entanto, os crimes já tinham prescrito”, explicou o capitão Águila.
De acordo com a Lei do Património Espanhol, os bens que saem de território espanhol sem autorização de exportação ficam automaticamente na posse do Estado.
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Após a Direção-Geral de Bibliotecas, Arquivos e Património Cultural ter informado a UCO da localização do artefacto, foi iniciada uma investigação policial, que culminou na localização e recuperação da peça. Não foi necessário qualquer recurso judicial para resolver o caso, pois o dono da galeria permitiu a repatriação, declarando que tinha comprado o medalhão como parte de uma “antiga coleção de arte espanhola”.
A Ministra Regional da Cultura, Turismo, Juventude e Desporto, Victoria Bazaga, citada no website da Junta da Extremadura, realçou os “esforços rigorosos e sustentados das equipas da Direção-Geral das Bibliotecas, Arquivos e Património Cultural durante quase duas décadas” e celebrou o facto de “finalmente esta joia, que faz parte da história [da região], regressar a casa”.
Também estiveram presentes na assinatura formal da ordem de repatriação o coronel Matthew Bogdanos, chefe da Unidade de Tráfico de Antiguidades do Gabinete do Procurador Distrital de Nova Iorque, e Marta de Blas, cônsul-geral da Espanha em Nova Iorque.
“Assim que conseguimos recuperar a peça, iniciámos o processo para a devolver ao povo da Espanha”, disse o coronel Matthew Bogdanos, chefe da Unidade de Tráfico de Antiguidades do Gabinete do Procurador Distrital de Nova Iorque, presente na assinatura da ordem de repatriação. Marta de Blas, cônsul-geral da Espanha em Nova Iorque que também assistiu ao momento, expressou a sua gratidão pela colaboração entre os dois países e acrescentou que espera que a cooperação na área do património histórico entre os Estados Unidos e a Espanha “continue a crescer ainda mais forte”.
Não é a primeira peça de património espanhol perdido que reaparece misteriosamente nos Estados Unidos. No ano passado, os norte-americanos repatriaram para a Espanha um tratado matemático intitulado Breve Resumo da Prática da Aritmética, publicado em Valência em 1515. Já em 2022, dois livros escritos por Sor Juana Inés de la Cruz, que tinham sido roubados da biblioteca do Convento de Santa Ana, em Sevilha, foram também devolvidos pela cidade de Nova Iorque.
Texto editado por Dulce Neto