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Cinco dias depois de Israel ter retomado as operações na Faixa de Gaza, a 23 de março, uma equipa do Crescente Vermelho era chamada para uma ocorrência no sul do enclave. Havia relatos de vários mortos depois de um ataque aéreo israelita a Rafah. No entanto, quando os funcionários humanitários chegaram ao local, para prestar assistência aos feridos, foram atacados pelas forças israelitas, que abriram fogo sob a comitiva do Crescente Vermelho. Oito elementos daquela organização humanitária, seis elementos da Defesa Civil de Gaza e um funcionário da ONU foram mortos.
Um dos voluntários do Crescente Vermelho que sobreviveu ao ataque, Munther Abed, de 27 anos, contou ao jornal Guardian que seguia na parte de trás da ambulância, e que viu outros dois voluntários, que se encontravam na dianteira do veículo, a serem mortos pelas forças israelitas. “Não ouvi nada dos meus colegas, exceto os sons de seus últimos momentos. Ouviu-os a darem o último suspiro“, disse o jovem.
“Depois, arrastaram-me para fora da ambulância, e fizeram-me manter a cabeça baixa para evitar ver o que tinha acontecido aos meus colegas”, relatou Munther Abed, acrescentando que, depois, foi espancado, e detido com as mãos amarradas. Garante que os militares israelitas abriram fogo contra outros veículos que iam chegando ao local do ataque aéreo, no distrito de Hashashin, na zona norte de Rafah. Pelo menos três ambulâncias foram atacadas.
????Report: The sole survivor of the paramedics Israeli massacre in Rafah, Munther Abed, recounts the moments when his colleagues were executed before his eyes and how he survived the Israeli attack that targeted Red Crescent and Civil Defense ambulances on March 23, killing 15… pic.twitter.com/3cvTDPOGJw
— Gaza Notifications (@gazanotice) April 3, 2025
Abed contou ao Guardian que os militares israelitas o torturaram e ameaçaram de morte. “Eles deitaram-me no chão, e o interrogatório começou. Sofri tortura severa, incluindo espancamentos, insultos, ameaças de morte e asfixia quando um soldado pressionou uma espingarda contra o meu pescoço”, relatou o jovem.
Militares israelitas terão atirado corpos e veículos para uma vala
Os corpos das 15 vítimas mortais não civis foram depois encontrados numa vala, juntamente com os veículos em que seguiam, e que ficaram danificados depois dos ataques de que foram alvo. “Eles começaram a cavar um buraco enorme e mandaram para lá as ambulâncias e o veículo de defesa civil, enterrando-os e, depois, cobriram o buraco”, contou Munther Abed.
O jovem palestiniano poderá ter sido o único sobrevivente da investida das forças israelitas, sendo que ainda se encontra desaparecido um outro funcionário humanitário, Assad al-Nassara, também do Crescente Vermelho palestiniano. Abed garante que viu o colega vivo e a ser detido pelas forças israelitas depois do ataque.
Ano de 2024 foi o mais mortal para trabalhadores humanitários
A atuação das forças israelitas provocou uma onda de condenação internacional, com a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho a classificar o incidente como um “crime de guerra”. “Só pode ser considerado um crime de guerra punível sob o direito internacional humanitário”, sublinhou a federação, em comunicado, denunciando ainda o facto de as Forças de Defesa de Israel (IDF) terem impedido, durante uma semana, o acesso à zona onde ocorreu o ataque.
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Do lado da ONU, o chefe do Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários em Gaza, Jonathan Whittall, classificou o ataque como um “horror absoluto”, defendendo que os trabalhadores humanitários não devem ser um alvo. Numa primeira reação, as IDF argumentaram que os trabalhadores humanitários avançaram na direção dos militares israelitas “de forma suspeita” sem sinais de marcha de emergência. Os militares israelitas garantiram ainda que, entre os mortos, estava um “agente militar do Hamas, Mohammad Amin Ibrahim Shubaki, juntamente com outros oito terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina”. Esta quinta-feira, as IDF anunciaram, no entanto, a abertura de uma investigação formal ao incidente.
Munther Abed nega que as ambulâncias não estivessem claramente identificadas. “As luzes da ambulância estavam claramente acesas, e o logótipo do Crescente Vermelho estava visível quando nos dirigimos para o local”, garantiu o jovem palestiniano ao jornal britânico, recusando também a informação avançada pelas IDF de que a zona onde ocorreu o ataque era uma zona de guerra, e por isso, sensível do ponto de vista militar. “É uma área civil onde a vida diária estava a desenrolar-se como de costume, não uma zona de combate”, realçou Abed.