Com um ataque cerrado à justiça francesa, que acusa de ser parcial, Marine Le Pen discursou para uma multidão com bandeiras francesas que se juntou em frente à cúpula dos Invalides, em Paris, para apoiar a líder da extrema-direita francesa, condenada por desvio de fundos.
“Não me vou render de forma alguma. [Esta] não foi uma decisão da justiça, foi uma decisão política. Sentimos horror pela nossa justiça e parcialidade da justiça francesa. A cada dia, há uma nova forma de denegrir a política francesa”, começou por dizer, argumentando que isto prejudica a “cultura e identidade” dos franceses.
Apelando a um combate a “essa parcialidade da justiça”, Marine Le Pen diz ser necessário “ter noção do que é verdade e justo”. “O nosso combate, as nossas convicções fazem com que a nossa determinação continue. Somos aqueles que não se resignam e que não abdicam.” “Estes ataques”, como o classificou a líder da extrema-direita francesa, são “a última forma de poder”. “É um ataque a todo o país e em particular aos que são descriminados na nossa sociedade. [Mas] vou continuar a lutar”, rematou.
Marine Le Pen usa André Ventura e Salvini como exemplos após ser condenada por desvios de fundos
Já este domingo, num vídeo apresentado no congresso da Liga italiana, de Matteo Salvini, Le Pen sublinhou que a “batalha” contra a sua condenação “será como a de Salvini, pacífica e democrática”, evocando “o exemplo de Martin Luther King, que falou dos direitos civis”. “São os direitos dos franceses que estão a ser postos em causa”, apontou, advertindo depois que esta “tentativa de manipulação” afeta todo o continente europeu, dando como exemplo as investigações aos partidos Chega, de André Ventura, e de Salvini.
“Vamos seguir o exemplo de Martin Luther King, que defendeu os direitos civis”, prometeu a líder da extrema-direita aos seus pares italianos. Antes, Le Pen já tinha comparado a perseguição de que diz estar a ser alvo à de Alexei Navalny, o opositor político russo que morreu numa prisão na Sibéria há mais de um ano.
A manifestação deste domingo, de apoio ao Rassemblement National, começou em Paris pouco depois das 15 horas e abriu com o presidente da Câmara de Perpignan a qualificar a condenação de Marine Le Pen a cinco anos de inelegibilidade, a cumprir de imediato, e a quatro anos de prisão, dois dos quais suspensos em liberdade condicional, como um “caso de perseguição”. Acusando o Parlamento Europeu de cumplicidade e falsificação, Louis Aliot, também condenado a seis meses de prisão e três anos de inelegibilidades, acusou o Parlamento Europeu de cumplicidade e de falsificação: “Não houve desvio de dinheiros públicos, não houve prejuízo para o Parlamento Europeu” disse.
Num outro ponto de Paris, numa outra praça, a da República, a esquerda reuniu-se para uma contramanifestação. O protesto foi liderado pela líder dos Ecologistas, Marine Tondelier, que prometeu uma demonstração “espontânea”, sem destaque para as filiações políticas. Contudo, a França Insubmissa encarregou-se da organização da manifestação e os antigos parceiros de coligação — o Partido Socialista e o Partido Comunista Francês — não marcaram presença, porque consideraram que isso daria razão às acusações de Marine Le Pen sobre a politização da Justiça. Já o deputado Alexis Corbière, que abandonou o partido de Melénchon acabou por ser vaiado enquanto discursava na manifestação. À saída, classificou o “sectarismo” dos insubmissos como “ridículo e infantil”.
Apesar das divisões internas, cerca de 15 mil pessoas marcaram presença, segundo os números avançados pela organização, para gritar “contra o fascismo e a extrema-direita”, a favor do Estado de Direito e para que “a extrema-direita não faça a sua própria lei”. “Foi importante mostrar hoje que quando a extrema-direita ataca a república, a democracia e o Estado de Direito, não pode ficar sem resposta das pessoas”, resumiu Manuel Bompard, deputado da LFI e uma das pessoas que discursou na praça da República.
“Tu roubas, tu pagas”. Gabriel Attal responde a Le Pe em congresso de macronistas
O antigo primeiro-ministro francês, Gabriel Attal, discursou no congresso da coligação Ensemble, em Saint Dennis, onde recusou votar a favor da proposta dos Republicanos para remover a pena de inelegibilidade em casos de condenação de figuras políticas. O membro da Renascença dirigiu-se depois a Marine Le Pen, que acabara de discursar no centro de Paris momentos antes.
“Tu roubas, tu pagas, especialmente quando és uma líder política”, afirmou, notando que as investigações do Ministério Público e o julgamento subsequente duraram quase dez anos e terminaram com uma sentença inequívoca para a União Nacional e a sua líder.
Attal recusou ainda as comparações da deputada da extrema-direita aos ativistas Navalny e Luther King, apontando as afinidades do seu partido com a Rússia e o Presidente Vladimir Putin. “Madame Le Pen, não é Alexei Navalny. É um dos peões do seu executor“, acusou, citado pelo Le Figaro.