A vida de Ruben Amorim tem sido mais difícil do que fácil desde que decidiu deixar o Sporting e rumar ao Manchester United. Ainda assim, o treinador português já conta com alguns cromos na coleção de boas memórias — e um deles, de forma natural, é a vitória contra o Manchester City logo em dezembro, em pleno Etihad, num triunfo que lhe garantiu uma margem de manobra importante junto dos adeptos.

Quatro meses depois, agora em Old Trafford, os dois rivais de Manchester voltavam a encontrar-se. Afundado no 13.º lugar, mas vindo de uma fase otimista onde só perdeu um dos últimos oito jogos, o United recebia o City com espaço para acreditar que podia repetir o feito de dezembro. Até porque Ruben Amorim, nas suas próprias palavras, garantia que não será capaz de passar muito tempo sem ter verdadeiro sucesso em Inglaterra.

“Conheço-me muito bem, não posso passar muito tempo a meio do caminho. Eu conheço-me, não vou aguentar este tipo de vida. Acho mesmo, mesmo, que no futuro podemos ganhar a Premier League. Não sei quando, vai levar tempo, basta olhar para o clube neste momento, mas quero colocar essa pressão sobre mim próprio, porque não vou ficar no meio-termo e tentar usar desculpas. Isso não está em mim. Sei que não vou aguentar este tipo de vida”, disse o treinador português em entrevista à Sky Sports.

Ora, na mesma ótica, mas sem um pingo de compaixão, Pep Guardiola disse compreender as dificuldades de Ruben Amorim nos últimos meses — mas lembrou que nada foi surpreendente. “Desejo sempre que os treinadores tenham tempo nos respetivos cargos, mas tudo depende do Manchester United. Todos os treinadores precisam desse tempo, é óbvio, mas neste mundo não te dão muita coisa e, nos grandes clubes, estás em problemas se não ganhas. Não foi fácil chegar a meio da época, mudar a forma de jogar da equipa e fazer com que tudo funcione. Não é fácil para ninguém”, atirou o treinador espanhol.

Neste contexto, este domingo, Ruben Amorim apostava em Mazraoui, Harry Maguire e Leny Yoro no trio de centrais, com o inglês a render o lesionado De Ligt. Diogo Dalot aparecia no corredor direito, com Bruno Fernandes e Alejandro Garnacho no apoio a Højlund, e Eriksen e Zirkzee começavam ambos no banco. Do outro lado, Pep Guardiola tinha Rúben Dias, Matheus Nunes e Bernardo no onze inicial, apostando em Marmoush e Phil Foden no ataque, sendo que De Bruyne também era titular no último dérbi de Manchester que cumpria, dias depois de anunciar que vai deixar os citizens no fim da temporada.

Numa primeira parte que terminou sem golos, o primeiro sinal de perigo apareceu através de Phil Foden, que rematou ligeiramente ao lado da baliza de André Onana (10′). Ainda assim, o Manchester United começou bem e de forma enérgica, causando perigo principalmente através de lances rápidos e de transição: o City tinha a bola e o aparente controlo das ocorrências, mas as situações de verdadeira aproximação à baliza contrária aconteceram essencialmente por mérito da equipa de Ruben Amorim.

Garnacho teve uma grande oportunidade ainda antes da meia-hora, ao tentar cabecear na sequência de um bom cruzamento de Diogo Dalot (21′), Casemiro acertou mal na bola após assistência de Bruno Fernandes (29′) e o jogo chegou mesmo empatado ao intervalo — e sem que o Manchester City tivesse criado uma verdadeira ocasião de perigo à exceção do remate de Phil Foden.

A ideia mudou logo nos instantes iniciais da segunda parte, com Mazraoui a intercetar um pontapé de Phil Foden que poderia ser letal, já que o inglês estava isolado na cara de Onana (48′). Pep Guardiola foi o primeiro a mexer, trocando Foden por Jérémy Doku à passagem da hora de jogo, e Ruben Amorim respondeu com a entrada de Lindelof para o lugar de Harry Maguire, que parecia limitado fisicamente, antes de também lançar Mason Mount e Zirkzee.

Os red devils ficaram muito perto de abrir o marcador já dentro dos últimos 20 minutos, com um remate de Manuel Ugarte que passou ligeiramente ao lado (71′), e Guardiola continuou a tentar injetar ideias e criatividade na equipa ao apostar em Jack Grealish e Rico Lewis. As oportunidades, porém, só apareciam mesmo do outro lado — e Ederson foi crucial na hora de manter o nulo, ao defender um remate complicado de Zirkzee (77′).

Até ao fim, na verdade, já nada mudou. Manchester United e Manchester City empataram sem golos em Old Trafford, num dérbi onde os red devils tiveram mais oportunidades e os citizens tiveram uma posse de bola inconsequente, sem que ninguém provasse ter aquilo que era preciso para levar a vitória para casa.