“Quem andava de joelhos a querer ser parte do Governo de Montenegro era André Ventura não era eu.” Ideologicamente distantes, André Ventura e Inês Sousa Real têm abordagens diferentes em praticamente todos os assuntos — até quando tocam em bandeiras de Chega e PAN como a violência doméstica ou os animais. Não se pouparam mutuamente a interrupções constantes e acusações de parte a parte. André Ventura acusou a adversária de ser “radical”, ainda recuperou a ideia de que gosta “mais de animais” do que Sousa Real, e a líder do PAN não largou as críticas ao comportamento “intolerável” dos deputados do Chega no Parlamento.

Do debate saiu uma promessa de André Ventura que pouco ou nada tem a ver com o PAN: “Fazer um acordo com uma pessoa que insiste em não dar essas explicações? Enquanto não houver clareza e transparência [de Luís Montenegro] nunca será nunca.” O líder do Chega não perdeu a primeira oportunidade da temporada de debates para colar Montenegro a Sócrates, assegurando que o Chega atua onde quer que haja “corrupção, falta de ética e suspeitas”. Mais do que isso, fez questão de sugerir que não conseguiria comprar “uma, nem duas” casas em Lisboa a pronto e até trouxe Inês Sousa Real para tema — obrigando a porta-voz do PAN a concordar.

De resto, André Ventura trazia uma narrativa contra a deputada única do PAN, que não largou em nenhuma circunstância: “A Inês Sousa Real é uma muleta do PSD e do PS”. Acusou Sousa Real de ter estado ao lado de António Costa nas questões da imigração, de não ter contribuído para aprovar propostas do Chega para combater a imigração, considerando que a deputada única mantém-se como um apoio constante a socialistas e sociais-democratas, e ainda tirou outro coelho da cartola: “O PAN sustentou a corrupção de Miguel Albuquerque da Madeira” — já que a deputada única do PAN/Madeira chegou a ter um acordo parlamentar com o PSD/Madeira (e está agora fora do parlamento regional).

Inês Sousa Real, que muitas vezes acusou André Ventura de estar a “mentir aos portugueses“, não deixou as acusações sem resposta e, por diversas vezes, contra-atacou. “Quem andava de joelhos a querer ser parte do Governo de Montenegro era André Ventura não era eu”, provocou a porta-voz do PAN.

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Sousa Real aproveitou ainda o frente a frente com o líder do Chega para recuperar o tema do comportamento dos deputados da bancada do partido (que sublinhou ter “intoxicado o Parlamento”) descrevendo-o como “intolerável” e recuperando nomes usados na Assembleia da República, nomeadamente com bodyshaming. “Nunca ouvi um pedido de desculpas”, disse — Ventura defendeu-se dizendo que ninguém terá sido tão atacado na história da democracia como o próprio.

Quanto ao tema das violações de mulheres, André Ventura foi o primeiro a colocar o PAN no mesmo lote de Livre e Bloco de Esquerda para acusar os partidos de tornarem “as mulheres objetos” e de terem impedido um aumento de penas ou a castração química para crimes sexuais. Com um trunfo na mão, Sousa Real não perdeu a hipótese de trazer para a mesa de debate um dos casos que mais perturbou o Chega nos últimos meses — um dirigente e deputado municipal do Chega acusado de prostituição de menores.

Sem referir o nome de Nuno Pardal, perguntou se o Chega também queria castração química para a sua bancada, o que levou Ventura a mostrar-se quase ofendido e a assegurar que sim (“Um violador não deve ter pena suspensa, deve ir para a cadeia, um pedófilo deve ser castrado“). Ainda atiraria com a acusação de que o braço direito de Sousa Real está acusado de assédio, Sousa Real apenas reagiu com um “isso é mentira”.

Por fim, no tema da imigração, que também dividiu os dois, Inês Sousa Real reconheceu que existem “problemas de segurança“, mas explicou que são “multifatoriais”, sugerindo que “fazer da insegurança relacionada com a imigração a preocupação maior a nível nacional vai contra a Constituição”. Mais do que isso, a porta-voz do PAN fez questão de assegurar que a entrada de imigrantes é “boa para o país”. Do outro lado, André Ventura voltou a colar o PAN a outros partidos, designadamente ao PSD e Livre, para criticá-los por quererem “contribuir para uma invasão de imigrantes e de bandalheira“.

Diálogo mais revelador:

Inês Sousa Real: Lamento que os 50 deputados não tenham conseguido mudar nada em matéria de corrupção.

André Ventura: Isto que a Inês Sousa Real diz é verdade, mas tem uma razão. A Inês Sousa Real é uma muleta do PS e do PSD.

Inês Sousa Real: Nós não somos muleta de ninguém…

André Ventura: O Chega não é e, por isso, não vê aprovadas as suas propostas.

Inês Sousa Real: Quem andava de joelhos a querer ser parte do Governo de Montenegro era o André Ventura não era eu.