A cantora brasileira Nana Caymmi morreu nesta quinta-feira internada no hospital após ter sofrido uma “overdose de opioides”, avançou o jornal O Globo, que cita o irmão da artista. Tendo tido contacto com a música desde o berço, Caymmi marcou gerações, tanto com temas de música popular brasileira, como com a luta contra a extrema-direita em plena ditadura. Nos últimos anos, assumiu-se, porém, como apoiante do ex-presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o que lhe valeu críticas, incluindo da própia família.
“O Brasil perde uma grande cantora. Um das maiores intérpretes que o Brasil já viu”, disse o irmão, Danilo Caymmi, visivelmente abalado e emocionado, num vídeo partilhado nas redes sociais e onde lembra que a irmã tinha completado 84 anos apenas dois dias antes.
Nana Caymmi encontrava-se hospitalizada desde agosto de 2024, devido a um quadro de arritmia cardíaca. Os nove meses em que esteve nos cuidados intensivos foram de muito sofrimento. O irmão afirmou mesmo que, apesar do choque que teve quando recebeu a notícia da morte, acabou por ser uma “bênção”, por a ter libertado de um momento “doloroso”.
Conta ainda que a cantora enfrentou sérios problemas de saúde ao longo do último ano, agravados também pela obesidade: colocou um pacemaker, teve problemas pulmonares e osteomielite, foi submetida a um cateterismo, a uma traqueostomia e à reposição de glicose.
Nana Caymmi viveu rodeada de música toda a sua vida. Nasceu a 29 de abril de 1941, numa família de artistas. O pai, Dorival Caymmi, era compositor, e a mãe, Stella Maris, era cantora.
O pontapé da sua carreira deu-se, inclusivamente, com uma faixa escrita para si, que acabou por se tornar numa das mais conhecidas canções de embalar do Brasil: Acalanto. Dorival Caymmi cantava todas as noites o verso “boi, boi, boi / boi da cara preta / pega essa menina que tem medo de careta” à filha e, em 1960, gravaram a música juntos.
Ao longo das seis décadas seguintes, gravou dezenas de discos e consagrou-se como uma das principais vozes da música popular brasileira, marcando também presença no imaginário popular pelas suas participações em bandas sonoras de novelas e minisséries de televisão.
Em 1976 o seu talento foi reconhecido através do Troféu Villa-Lobos de Melhor Cantora do Ano e foi indicada a quatro Grammys Latinos. A primeira indicação internacional foi em 2004, pelo álbum Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo, na categoria de Melhor Álbum de Samba/Pagode.
Durante a ditadura militar brasileira, Nana ecoou as vozes dos tropicalistas que lutavam contra o regime, tendo participado em faixas com grandes nomes da época como Maria Bethânia, Toquinho, Caetano Veloso e Gilberto Gil, este último com quem teve até mesmo um relacionamento para além do profissional e artístico.
As relações conturbadas com Gilberto Gil (e com Caetano Veloso). E a viragem à direita
Nana teve um breve casamento com Gilberto Gil nos anos 60. Ela contou, na altura, que tudo começou quando Gil a procurou por ser grande um grande admirador do seu pai. Estiveram juntos durante três anos e chegaram a compor juntos a canção Bom Dia, que foi apresentada no III Festival de Música Brasileira em 1967.
A separação foi complicada, causada pelo exílio de Gil em Londres, em 1969. O tropicalista foi ameaçado pelo governo, mas Nana não pôde acompanhá-lo, pois não poderia deixar para trás os seus três filhos.
Uma foto da época do seu relacionamento começou a circular nas redes sociais nesta sexta-feira, em memória da sua vida. Nela os dois são vistos ao lado de Caetano Veloso, na Passeata dos 100 mil, em junho de 1968, no Rio de Janeiro, em protesto contra a ditadura militar.
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Nos últimos anos, porém, Caymmi acabou por tornar pública uma visão conservadora, colando-se mesmo a Jair Bolsonaro. Em 2019, em entrevista à Folha de São Paulo a cantora posicionou-se a favor do então Presidente e aproveitou para criticar o atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Entre os ataques à cultura política de esquerda do país, Caymmi não poupou os seus antigos colegas Caetano Veloso e Chico Buarque, o ex-marido e até mesmo a sua sobrinha Alice Caymmi classificando-os como “gado”.
Em resposta, às afirmações da tia, Alice disse que a defesa pelos ideais “bolsonaristas” foi responsável por dividir a família. “Ficou muito difícil, quase impraticável, infelizmente”, pontuou em entrevista à TV Fórum.
Num discurso calcado da extrema-direita e do próprio Jair Bolsonaro, Nana chegou a justificar o posicionamento político com a suposta necessidade de o Brasil ter liberdade de expressão e de pensamento. Nessa mesma entrevista de 2019, afirmou igualmente que não se importava de ser “cancelada”, dizendo que já havia passado por perseguição ideológica no passado: “Não deixei de comer por causa disso”.
Outra das notícias que ligou a sua família ao bolsonarismo surgiu quando o “guru” Olavo de Carvalho incluiu Stella Caymmi, filha da cantora, no seu testamento. Quatro anos antes de morrer, o filósofo e defensor do ex-Presidente fez algumas alterações ao seu testamento — excluindo a própria filha, de esquerda, Heloísa de Carvalho, e acrescentado a filha mais velha de Nana Caymmi. Stella é mesmo referida no testamento do escritor como uma “amiga”, adiantou o O Globo.
Despedidas a “uma das vozes mais importantes da música”
Gilberto Gil e Alice Caymmi, entretanto, não deixaram as amarguras ideológicas afetarem o carinho que sentiam pela cantora. Ambos despediram-se da mesma através das suas redes sociais nesta sexta-feira e no seu velório, no Rio de Janeiro. Gil publicou uma fotografia e a sua composição Resposta Ao Tempo a acompanhá-la. Já a sobrinha, que partilha a profissão da tia como cantora, descreveu que a perda sofrida pela sua morte é “irreparável”.
Caetano Veloso também deixou a sua despedida em forma de texto à cantora, recuperando memórias do tempo em que esteve casada com Gil, em que pensava que ela seria “a mais profunda intérprete que se podia imaginar”.
Quando Nana teve um envolvimento amoroso com Gil e eu passei a vê-la de perto, não me cansava de pedir a ela que cantasse para eu ouvir. Às vezes com Gil ao violão, às vezes à capela. Eu pensava que ela era a mais profunda intérprete que se podia imaginar. Isso só fez crescer com… pic.twitter.com/1iw7PTsajz
— Caetano Veloso (@caetanoveloso) May 2, 2025
A cantora Simone demonstrou o seu profundo respeito pelas habilidades vocais de Nana e descreveu que o canto era para si como “um instinto animal”, em entrevista à Globo News. Daniela Mercury publicou nas suas redes sociais que Caymmi era “uma das vozes mais importantes da música do mundo” e, à Globo News , defendeu que deve continuar a ser uma fonte de inspiração e de aprendizado por ser “fundamental para se conhecer a música popular brasileira”. Maria Bethânia acompanhou as colegas com os elogios: “Gigantesca, sua voz será eterna!”.
Nana Caymmi é uma das vozes mais importantes da música do mundo. É uma intérprete única, que cantou com a doçura da brisa do mar da Bahia e com a força do vento. Vai fazer muita falta na cultura brasileira. Um beijo em toda família Caymmi que eu amo tanto. ❤️ #RIPNanaCaymmi pic.twitter.com/iDHnxhrbkE
— Daniela Mercury (@danielamercury) May 1, 2025
Nana Caymmi deixa para trás três filhos e um grande legado. Outras das suas músicas mais conhecidas são Suave Veneno e Se Todos Fossem Iguais a Mim, além das suas interpretações de Não Se Esqueça de Mim e João Valentão.
Texto editado por Carlos Diogo Santos