Nem só de bandeiras de tecido e gritos de apoio se faz uma arruada. Em Aveiro, após uma caminhada de um quilómetro, a bandeira original do Chega irrompeu pela campanha adentro, quando um grupo de pessoas de etnia cigana ganhou protagonismo entre acusações de fascismo e racismo. André Ventura, apanhado de surpresa num incidente que fez aumentar a tensão da comitiva, não deixou voar a oportunidade: “Têm todos de trabalhar, como toda a gente.”
“Racista, racista, racista.” Os gritos entoados na direção da comitiva do Chega, à medida que André Ventura se aproximava da tenda do partido que marcava o local de fim da arruada, não deixaram ninguém indiferente. Foram acompanhados por palmas, intercalados com a palavra “fascista” e mostraram o descontentamento de quem protestava contra um partido que, acusam, alimenta o discurso de ódio contra uma comunidade inteira.
Belarmina Fernandes está à frente, é a mais vocal e mostra-se revoltada. Acusa uma mulher da comitiva (que não se percebe quem) de a ter “mandado para a Roménia” e responde, já com a atenção dos microfones dos jornalistas: “Nós somos portugueses” — vinca, com orgulho, tanto que segundos depois, ao ritmo da própria comitiva do Chega, que começa a cantar “Portugal, Portugal”, se junta ao cântico. “A única coisa que nós, comunidade cigana de Portugal, queremos é que se acabe de alimentar o ódio contra a etnia cigana, porque os nossos filhos vão viver tempos piores do que aquilo que estamos a viver”, explica, assegurando que trabalham e descontam para a Segurança Social.
“Acontece qualquer coisa com a comunidade cigana e pagamos todos por igual. Isso não pode acontecer, porque erros tanto há na comunidade cigana como fora da comunidade cigana.” Belarmina Fernandes considera que há “mais represálias” desde que o Chega existe e fala dos ciganos, crente de que “incentiva” ao “discurso de ódio“.
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Nuno Maia, que também está no grupo, recorda o percurso de Ventura, dizendo que foi “inteligente” ao usar o rendimento do RSI (Rendimento Social de Inserção) para atacar a comunidade, explicando que é injusto porque este apoio para a comunidade cigana é uma “miniatura” do que representa a nível nacional. “Recebe mais a raça dele do que a nossa.”
O clima foi ficando mais quente, com troca de argumentos de parte a parte, tudo num espaço de tempo muito curto, tudo entre muita confusão. Ventura reagiu no momento, primeiro com poucas palavras — “Não sou fascista, não!”, ia dizendo, apontando na direção de quem o confrontava e abanando a cabeça negativamente. De seguida, tirou proveito da situação, não fosse esta uma das principais (e a primeiríssima) bandeiras do Chega. Aliás, não fosse esta uma bandeira de Ventura dos tempos em que ainda era do PSD, quando se candidatou a Loures pelos sociais-democratas e conseguiu ser eleito vereador.
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Nessa altura, deu uma polémica entrevista onde afirmou que “os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”. De Loures para o Parlamento, o tema marcou os primeiros tempos de intervenção de Ventura que, de quando em quando, recupera a questão sempre que necessário. E os ciganos de Aveiro deram-lhe essa oportunidade em plena campanha.
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“Não é racismo nem fascismo, é terem todos de trabalhar, como toda a gente. É só isso. Trabalhar e cumprir as mesmas regras”, justificou. Assumiu que lhe custa quando o chamam de fascista, frisando que “não é verdade” e que, neste caso em específico, “é a vitimização da comunidade cigana, que procura [isto] para poder atacar o Chega”.
Ventura sublinhou que “a etnia cigana tem de cumprir as regras que todos cumprem” e, confrontado com o facto de as pessoas terem dito que trabalhavam, prosseguiu: “Há uns que trabalham, uma maioria que não trabalha, fazem as mulheres casar aos 13 anos, vivem num estado de desagregação face à regra geral da comunidade absurda. Não sou eu que sou fascista, são eles que querem regras à parte em Portugal.”
No final da arruada, a pedido das pessoas da comunidade cigana, a PSP confirmou a identificação das duas partes, sem acrescentar mais sobre o sucedido.
À noite, no jantar-comício no distrito de Aveiro, André Ventura recuperou o tema e antecipou um país em que seria primeiro-ministro: “Tem de ser humanista e ter a certeza de que quando governar será no país onde está, com as pessoas de todas as etnias e nacionalidades. E sabemos disso. Mas também tem de dizer que em Portugal, sejam ciganos ou não ciganos, todos terão de cumprir a lei”, sublinha, assegurando que “sentimentos de que alguns estão acima da lei vai acabar”.
E ainda avisou os ciganos que vão confrontando o Chega pelo país (já tinha acontecido no Algarve, sem a presença de Ventura): “Quando sou atacado é quando fico ainda com mais força para fazer a mudança que é preciso fazer.”
O apelo ao voto útil para unir à volta do Chega eleitores à direita
No rescaldo do debate dos partidos sem assento parlamentar (onde Ventura se sentou em 2019, altura em que se estreou na Assembleia da República), o líder do Chega vestiu o fato de “analista político” para argumentar que o atual contexto político não deve “gerar a entrada” de novos partidos no Parlamento.
“Não me parece porque há uma polarização grande, há uma tripartidarização também muito acentuada, que todas as sondagens mostram, e isso significa que há um contexto que não é propício à entrada de novas forças políticas como era, por exemplo, em 2019″, explicou o presidente do Chega, crente de que “isso não vai acontecer“.
Questionado sobre o aparecimento de novos partidos à direita, até focados em alguns dos temas que são bandeira do Chega, como a imigração, Ventura desvalorizou dizendo que “o eleitorado de direita, antissistema, reformista, que quer mudança” vai continuar a preferir o Chega.
“Não encontro ninguém que me diga ‘gosto de si, mas vou votar noutro partido qualquer que não tem representação parlamentar’. Isso não acontece”, assegurou. “O que eu ouço é dizerem que por uma razão qualquer até gostam mais de outro, mas que vão votar no Chega porque sabem que o Chega é o único que pode ganhar [e que], mesmo que não ganhe, é o único que os vai representar e que vai ser a voz deles no Parlamento”, contou, reconhecendo que pode, nesse contexto, haver “voto útil no Chega“.
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Privatização da CP pode ser “um solução”
Uma hora antes, a arruada do Chega começou a ínfimos metros da estação de comboios de Aveiro, em pleno dia de greve na CP, com André Ventura a recuperar a proposta para devolver aos utilizadores dos comboios os dias em que não podem usar os mesmos.
Questionado sobre uma privatização do serviço, o líder do Chega fez questão de referir que “a CP não é um serviço qualquer” e que o partido “não é favorável a privatizações em massa porque não é a solução do nosso problema”. Porém, defendeu que “se a CP não conseguir transmitir ao país e ao público a solidez financeira que precisa e dizer às pessoas que consegue prestar um serviço sem lhes gerar prejuízos gigantescos, pode ser uma solução” — “Se isso não for possível, não. Mais importante do que ser público ou privado é o serviço ser garantido.”
André Ventura, além de referir que, “de forma curiosa”, o Tribunal Arbitral “decidiu que não havia serviços mínimos e portanto temos o país parado”, recuperou a proposta do Chega que remete para uma devolução do dinheiro para as pessoas que têm passe e são prejudicadas nestas circunstâncias.
Para o líder do Chega, se há greve e ainda por cima não há serviço mínimo e o serviço não está garantido, a hipótese é o dinheiro “ser devolvido aos utentes o valor que pagaram pelo passe”. Diz ainda que “podem ser criadas várias fórmulas, como é feito noutros países” e, acrescenta, deve haver uma “uma aplicação prioritária a quem vai trabalhar e a quem tem que trabalhar, ou a quem tem que se deslocar a serviço de saúde”.
Apesar de assumir que “nem sempre é fácil” resolver este tipo de problemas por parte do Governo, o líder do Chega considera que “a negociação já devia ter sido feita há mais tempo para garantir algum avanço”, sugerindo que nisso o Governo não fez o que devia.
A insistência no apagão: Montenegro está a ocultar informação
Na mesma ação de campanha e depois de o ter dito na entrevista ao Observador, André Ventura voltou a sugerir que Montenegro esconde informações sobre o apagão, desde logo em reação ao facto de Pedro Sánchez ter avisado vai demorar tempo a apurar causas. “Estou completamente convencido de que nós estão a ocultar informação”, referiu André Ventura, que fala numa “questão de incompetência absoluta”.
“É inconcebível que países como Portugal e Espanha, num nível em que estão de infraestrutura, aliás o país líder da transição energética, de que nos vangloriávamos de ser, não consiga ao fim de uma semana dizer ao país qual foi a causa real do apagão”, defendeu. Para Ventura, tanto Portugal como Espanha “estão a esconder informação” e “isso é grave”. Apontou ainda que em Espanha está a ser pedida muito mais exigência às entidades oficiais.
Ao cair do dia, no jantar-comício em Aveiro — onde apostou praticamente tudo no deputado Pedro dos Santos Frazão como cabeça de lista, um dos ativos mais conhecidos do Chega — André Ventura culpou Luís Montenegro por ter preferido “atirar o país para o caos do que dar explicações”, criticando o primeiro-ministro por ter decidido “sempre governar como o PS” e por no Orçamento ter ido “para os braços dos socialistas”.
Apesar de recordar a “herança” de partidos como PS e PSD, que “construíram o regime”, diz que “esses dois partidos transformaram-nos num ninho de corrupção e compadrio”, pelo que reitera uma promessa para o primeiro dia: “Vamos apresentar o maior pacote anti-corrupção na história de Portugal.”
Montenegro tenta segurar pensionistas e acusa Pedro Nuno de desespero
E aproveitando os exemplos de idosos que o têm abordado nas ruas, Ventura centra o início do discurso nos pensionistas, depois de Montenegro e Pedro Nuno terem feito exatamente o mesmo. Os idosos, disse, “sentem que imigrantes passam à frente na Saúde, minorias que passam à frente nas casas”, apontando também para os ex-combatentes, como é habitual — e num dia em que foi abordado na rua nesse sentido. “Está tudo errado quando começamos a dar prioridade a quem veio de fora”, reiterou, justificando que é ainda pior “enquanto sistema político se açambarca milhões por ano”.
O líder do Chega culpa PS e PSD pelo estado em que deixaram as pensões dos idosos, frisando que “um candidato a primeiro-ministro tem de dizer o que vai fazer com o país que tem” e que o Chega não esconde (nem abdica) da sua proposta: “Não haverá nenhuma pensão abaixo do salário mínimo em Portugal.”
“Acho graça ao slogan ‘deixem o Luís trabalhar’ porque teve um ano para trabalhar e não fez quase nada, António Costa esteve oito anos e não fez quase nada, Sócrates não fez quase nada”, afirmou, para logo concluir: “Em quatro anos transformaremos o país.”