Ao segundo dia, a greve sem serviços mínimos dos trabalhadores da CP entrou na campanha eleitoral. A paralisação total da circulação de comboios levou Luís Montenegro a admitir a possibilidade de mexer na lei da greve e motivou críticas por parte da oposição, com acusações de “autoritarismo”. Tudo começou na manhã desta quinta-feira quando o líder da AD, na Figueira da Foz, classificou a greve como “absolutamente injusta” e disse que o Governo “fez tudo” para a evitar.
“Esta é uma greve absolutamente injusta, por mais razão sindical e laboral que pudesse existir a quem está a fazer a greve, entre os efeitos da greve, o prejuízo é causado à vida das pessoas e à vida do país. Há uma desproporção enorme e, francamente, nós um dia vamos ter de pôr cobro a isto”, afirmou Montenegro, que foi desafiado várias vezes a explicar o que pretendia dizer com a expressão “vamos ter de pôr cobro a isto”, mas não concretizou a ideia. Ainda assim, disse que não está nos planos fazer mexidas no direito à greve dos trabalhadores.
As reações da oposição não tardaram a chegar. Pedro Nuno Santos criticou as declarações de Montenegro, acusando-o de “chantagear”, “ameaçar” e desrespeitar os direitos dos trabalhadores com possíveis alterações à legislação. O secretário-geral do PS falou também em “autoritarismo” e “insulto à democracia” e lembrou o direito à greve como “uma das principais conquistas de Abril”. Além disso, rejeitou a queixa do ainda primeiro-ministro sobre uma origem político-partidária da paralisação, afirmando que “o Governo falhou e só se pode queixar de si próprio”.
Consegui acabar com muitas greves no passado, com diálogo”, disse ainda o líder socialista, apontando à gestão da greve dos motoristas de matérias perigosas em 2019, quando era ministro. Foi precisamente nessa altura, no rescaldo dessa greve, que Pedro Nuno disse que é preciso “revisitar a lei da greve, mas para assegurar que situações limite não aconteçam”.
Confrontado com as declarações de Pedro Nuno Santos, Montenegro manteve a sua posição. Mais tarde, pediu para fazer a “reposição da verdade” e leu as declarações antigas do secretário-geral do PS a propósito da greve dos motoristas, de quando este ocupava o cargo de ministro das Infraestruturas. “Devemos com cautela refletir sobre a lei da greve, sobre a organização sindical e sobre o abastecimento das nossas infraestruturas críticas”, leu Montenegro, antes de afirmar que “há aqui uma grande dose de incoerência”. “Um zig e um zag. O zig é ‘devemos refletir’, o zag é que os que refletem são autoritários. Não sei como é que se pode governar um país com dúvidas e ziguezagues tão declarados. Em que é que as pessoas vão acreditar?”, provocou.
De seguida, na troca de acusações, a palavra voltou a estar do lado de Pedro Nuno, que se esquivou a questões dos jornalistas acerca das declarações que proferiu em 2019 (e que o líder da AD leu). O responsável socialista acusou Montenegro de não ter feito tudo para evitar a greve, nomeadamente para “conseguir que fossem decretados serviços mínimos”. E à paralisação dos comboios juntou a lembrança de uma outra greve para apontar o dedo a um Governo que descreveu como “negligente”: “A greve do INEM não só não foi evitada como também não teve serviços mínimos decretados.”
Não foi só da parte do PS surgiram reações. André Ventura começou por defender que as declarações de Montenegro sobre a CP foram “sobretudo um erro de cálculo e um erro de ângulo”. “Se houvesse alguma alteração a fazer na lei, deveria ser na questão dos serviços mínimos e não na questão de haver direito à greve”, explicou o líder do Chega, dizendo que essa ideia é “sem sentido”.
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Já Rui Rocha optou por não assumir posições definitivas sobre uma possível alteração à legislação, mas mostrou-se “disponível” para avaliar. “Não há leis intocáveis”, mesmo que “o direito à greve” o seja, afirmou, dizendo-se “um lesado da CP”. À esquerda, o PCP entendeu as declarações de Montenegro como uma “casca de banana” e exigiu ao atual executivo que acabasse “de uma vez” com a greve. “O Governo alegou que está em gestão para não permitir que a CP assinasse o acordo com os sindicatos. O mesmo Governo que alegou que estava em gestão para contrair quatro mil milhões para a guerra e para o armamento. Digam lá se isto não é gozar com quem trabalha”, atirou Paulo Raimundo.
Também à esquerda, Mariana Mortágua criticou o ainda primeiro-ministro e disse que a primeira vez que o ouviu a falar sobre trabalho ou trabalhadores na campanha eleitoral “foi para atacar o direito à greve”. “Luís Montenegro não quer saber do trabalho” e quando aborda o tema é para “atirar trabalhadores contra trabalhadores”, considerou a coordenadora do Bloco de Esquerda.
Também o PAN se opôs a possíveis alterações à legislação, com Inês Sousa Real a ter considerado que “Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz já se deviam ter ido sentar à mesa com o setor”. Ainda assim, pediu bom senso aos trabalhadores da CP e defendeu que a greve deveria ter sido agendada para depois das legislativas. Por sua vez, o Livre dirigiu críticas ao Governo por invocar o facto de estar em gestão para não resolver os problemas na CP, incluindo por não se “sentar à mesa e falar com os trabalhadores”.
Além dos partidos, e ainda que sem se referir explicitamente à CP, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que era “natural” que os líderes políticos em campanha falassem sobre as greves que acontecem durante o período eleitoral, seja para apoiar ou criticar. O Presidente da República, sem comentar as palavras de Montenegro, disse que “cada um faz a campanha como quer” e depois assume as responsabilidades.
Questionado sobre a possibilidade de uma revisão na lei da greve, Marcelo começou por referir que já foi alvo de alterações ao longo do tempo. “Mas não é uma questão que esteja neste momento ainda em cima da mesa, não se conhece nenhum projeto ou proposta”, notou.