A autarquia de Estocolmo, capital da Suécia, recebeu uma carta vinda da embaixada dos Estados Unidos a exigir ao Departamento de Planeamento Urbano da cidade para cancelar as medidas conhecidas pela sigla inglesa DEI – diversidade, equidade e inclusão.
A missiva norte-americana avisava o departamento da autarquia de que os contratos com agências estatais dos EUA não seriam mantidos caso não cancelassem quaisquer programas de inclusão. Em resposta, o governo da cidade considerou a carta “completamente bizarra”.
Em declarações ao jornal Dagens Nyheter, o vereador responsável pela pasta do planeamento urbano, Jan Valeskog, rejeitou totalmente as pretensões norte-americanas.
“Não vamos fazer isso de maneira nenhuma, é contra tudo o que defendemos”, sublinhou o vereador, que pediu aos representantes norte-americanos para “retirar estas esquisitices”. Segundo Valeskog, interessa mais à embaixada manter as relações com o governo local da capital sueca, do que o contrário.
“Se os EUA cancelarem a sua relação com o Gabinete de Planeamento da Cidade, a embaixada terá dificuldade em obter uma licença de construção se, por exemplo, quiser reconstruir [o edifício]”, acrescentou o representante. “Isso é uma dor de cabeça para eles, não para nós”, disse ainda.
A autarquia não foi a única entidade de Estocolmo a receber uma carta com exigências do mesmo género. O Dagens Nyheter noticiou na semana passada que a embaixada requereu o fim das medidas de diversidade a várias empresas sediadas na cidade.
“As missões dos EUA estão a rever os contratos e as subvenções para garantir que cumprem a mais recente Ordem Executiva da Casa Branca”, esclareceu a representação diplomática ao jornal, acrescentando que isto leva a que os “contratantes e beneficiários” cumpram com a “certificação exigida”, ou seja, o fim destas medidas.
A ministra sueca para a Igualdade e o Trabalho, Nina Larsson, garantiu que a lei sueca era “firme” e que estavam previstas sanções para quem eliminasse medidas deste tipo.
“As empresas suecas são obrigadas, ao abrigo da Lei da Discriminação, a trabalhar preventiva e ativamente para combater a discriminação e promover a igualdade de direitos — por exemplo, com base no género, na etnia ou na deficiência”, acrescentou.
Os representantes dos empresários rejeitaram e criticaram também quaisquer obrigações vinda dos EUA sobre as suas políticas de recrutamento.
“A política de recrutamento das empresas privadas suecas deve ser da competência das próprias“, afirmou Magnus Demervall, diretor da confederação empresarial Företagarna, uma das maiores do país.
O diretor da confederação sublinhou ainda que os estados “não devem obrigar nem proibir” as entidades privadas a ter “uma política de recrutamento específica”.
Várias entidades espalhadas pela Europa — públicas e privadas — têm recebido cartas com exigências para acabarem com as medidas de DEI para continuarem a receber apoios do governo norte-americano desde a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos.
Em Portugal, várias universidades com projetos financiados pelos EUA receberam cartas com várias questões que tinham de responder para manter esses programas, incluindo se estes acordos representavam ou continham programas para a diversidade e inclusão.
Estas questões foram consideradas “uma intromissão intolerável na autonomia das instituições e na sua liberdade de investigação e da ação académica” pelo Conselho de Reitores e levaram ao cancelamento de programas nas instituições portuguesas.