Casandra Ventura começou esta terça-feira a ser ouvida enquanto testemunha da acusação no julgamento de Sean “Diddy” Combs. É o segundo dia de audiências após a escolha do júri, no Tribunal de Nova Iorque. Cassie, como é conhecida no meio artístico, é ex-namorada do rapper, com quem manteve uma relação romântica intermitente de mais de dez anos, e pode ser a chave para o caso em que o músico é acusado de agredir, drogar, violar, traficar, intimidar e subornar dezenas de pessoas no seio da indústria da música por anos a fio.
Quando conheceu Combs, em 2005, a mulher, hoje com 38 anos, tinha apenas 19 anos e aspirações de singrar na indústria da música. “Só sabia que ele era um grande empresário e músico. Era fã da música. Não sabia muito sobre ele pessoalmente”, recordou sobre a altura em que assinou um contrato para a gravação de dez álbuns com a editora do rapper, Bad Boy.
Mas depressa percebeu que o humor do produtor musical mudava do dia para noite, culminando em reações extremas. “Fazia a expressão errada e, quando dava por mim, estava a levar na cara“, recordou. Lembrou também como a relação romântica com “Diddy” começou, numa viagem a Miami, onde tiveram relações sexuais num barco e ele lhe deu um comprimido de ecstasy.
Depois disso, sempre que ela não atendia os telefonemas do músico imediatamente ele começava a contactá-la “incessantemente”. Se não tivesse resposta no tempo que queria, mandava os seus assistentes e seguranças irem atrás dela.
Ventura entrou na sala do tribunal por volta das 11h00 (16h00 em Portugal Continental) com o júri presente. Segundo descreve o New York Times, a cobrir o julgamento dentro da sala do tribunal, a artista está grávida de oito meses e meio. Casandra falou num tom de voz baixo e calmo. Utilizou um lenço de papel para enxugar o nariz e os olhos, sempre que se emocionou com as descrições que fazia.
Um episódio, que se tornou público graças à divulgação de um vídeo com imagens que remontam a 2016, captadas num corredor do hotel, torna Cassie num dos elementos chave do julgamento. A gravação mostra Combs a agredir e a arrastar a ex-companheira. Pela voz de Ventura, sabe-se agora que a agressão ocorreu num “freak-off” que precedeu a estreia de um filme em que a artista estrelava.
Combs enviou-lhe uma mensagem de texto a pedir-lhe para estarem juntos sexualmente na véspera do evento. Para evitar que a ocasião corresse mal, Cassie decidiu satisfazer-lhe a vontade com um “freak-off”. “Assim garantia que a minha estreia correria bem”, confessou.
Cassie revela que agressão em hotel, que ficou gravada em vídeo, aconteceu durante “freak-off”
No quarto de hotel estava Cassie, uma acompanhante e Combs. Durante a relação sexual, o rapper acertou na companheira e deixou-lhe um olho negro. “Nessa altura, só conseguia pensar em sair dali em segurança”, recordou a testemunha.
Depois de Combs a ter atirado ao chão, diz Ventura, ela tapou a cara e ficou no chão porque “não queria que ele fizesse mais estragos do que aqueles que já tinha feito”.
Foi ainda questionado a Casandra Ventura, pelos procuradores, quantas vezes, durante a sua relação com Sean Combs, ele a tinha atirado ao chão, como se pode ver no vídeo do hotel. “Demasiadas para contar”, diz ela.
O testemunho de Casandra Ventura ocupou praticamente toda a audiência do julgamento do músico nesta terça-feira. Foi interrompido por volta das 17h00 da tarde (22h00 em Portugal Continental), mas continuará na manhã desta quarta-feira.
Depois de iniciar o namoro com Combs, Cassie percebeu que o companheiro tinha o mundo a seus pés. “Ele tinha assistentes à sua disposição. Conseguia fazer tudo rapidamente. Tinha o respeito de toda a gente e viajava bastante”, descreveu.
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Casandra diz ter participado nas festas de sexo e droga porque sentia responsabilidade de agradar a Combs
“Eu queria estar com o Sean pelas mesmas razões que toda a gente na altura”, respondeu Cassie quando foi questionada pelos procuradores sobre as razões que a levaram a manter-se perto do músico. “Ele era um homem excitante, divertido e engraçado que, por acaso, também tinha a minha carreira nas suas mãos”, acrescentou.
Foi convidada a descrever em pormenor a sua relação com Sean Combs na sala de tribunal. “Havia discussões violentas que normalmente resultavam em algum tipo de abuso físico. Arrastamento, coisas dessa natureza”, começou por referir.
Estes “surtos” do então companheiro causaram-lhe, durante vários anos, “nervosismo e confusão”. Sobre os famosos “freak-offs” diz que não compreendia, já na altura, como é esses encontros podiam ser excitantes para o companheiro, mas disse que sentia a “responsabilidade” de agradar a Combs. “Estava confusa, nervosa, mas também o amava muito”, recordou.
Os “freak-offs” passaram a ocupar uma grande parte da vida da cantora. Disse em tribunal que se lembra de ficar acordada “dias a fio”, a beber álcool, a tomar drogas e a fazer sexo com “estranhos” que participavam nas orgias. Conta que algumas das festas chegaram a durar quatro dias, embora pudessem durar mais tempo, mesmo que com alguns intervalos.
Para Cassie, as festas sexuais tornaram-se num trabalho em que não havia espaço para fazer mais nada a não ser recuperar e “tentar sentir-se normal de novo”, testemunhou, referindo ainda que Combs determinava ao mais ínfimo pormenor o modo como ela tinha que se vestir e parecer nessas ocasiões.
Revelou que o ex-namorado participava nos “freak-offs” de modos diferentes, por vezes ingressava nas relações sexuais, mas muitas das vezes ficava a assistir e a gravar as cenas sexuais, mantendo-se de lado. Por vezes, segundo contou a testemunha, chegava a acompanhar as festas à distância, por Facetime.
Em maio do ano passado, imagens de videovigilância divulgadas pelos meios de comunicação norte-americanos mostravam o rapper a agredir Cassie. “Assumimos total responsabilidade pelo facto de ter havido violência doméstica neste caso”, afirmou na segunda-feira a advogada de Diddy.
A estratégia da defesa parece, até agora, ser a de apresentar o seu cliente como um “swinger” e admitir até os crimes de violência doméstica, inegáveis graças à existência de gravações em vídeo, mas ilibá-lo dos crimes mais graves, de violação e tráfico sexual.