Aos 25 anos, grávida, com 29 semanas, a nepalesa Bibika respirou de alívio quando percebeu que ia ser das primeiras a entrar esta quinta-feira na Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, no Porto, para carimbar o seu Registo Criminal.
Bibika, que veio de Beja, tinha atrás de si mais de três centenas de imigrantes, angolanos e nepaleses, cansados e ansiosos, depois de dias e noites a dormir ao relento, no passeio da Rua do Rosário, no coração da cidade do Porto. Carimbar o registo criminal é fundamental para poderem regularizar a sua situação junto da AIMA – Agência para a Integração Migrações e Asilo e, assim, garantir a sua permanência em Portugal. Vieram de vários pontos do país, de Faro a Braga, porque em Portugal existem apenas dois locais – um dos quais, em Lisboa, esteve temporariamente encerrado – para validarem, em 10 dias, os registos criminais que lhes garantirá a sua permanência no país.
Às 09h00, funcionárias da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas do Porto iniciaram a distribuição das senhas até ao número 250, os outros terão de continuar no mesmo local, a aguardar o dia seguinte. Duzentos e cinquenta é o número que as quatro funcionárias deste serviço consideram poder atender, no seu horário de trabalho, já prolongado por mais uma hora.
Em Portugal há cerca de oito meses, o nepalês Ohurba, em declarações à Lusa, pediu ao novo Governo que “ajude a legalizar” estes imigrantes, porque “não é justo” estarem três dias sem comer e sem dormir, na rua. “Estamos a perder dias de trabalho, nunca causamos problemas”, disse. As jovens angolanas, Estrela e Violeta, chegaram há poucos meses a Portugal, sentem-se “discriminadas” pelos serviços, que durante o dia de quarta-feira, terão alegadamente dado prioridade aos imigrantes do Nepal. Disseram também terem sido “insultadas” por um dos comerciantes da rua, que se queixam de estarem a ser prejudicados nos seus negócios.
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De Portimão, onde trabalha desde há três anos, Sajam Shani disse sentir-se “muito cansado”, por ser “muito difícil” estar três dias e noites na rua. O angolano Manuel contou à Lusa que “têm sido dias confusos, com nenhuma organização”. “Tivemos de ser nós a fazer uma lista, para não haver confusão. Se são humanos, deviam fazer mais”, disse o imigrante, defendendo a abertura de mais postos de atendimento ou, então, reforçar as equipas de atendimento. Ana Batista, também angolana, a residir há um ano e meio em Braga, classificou de “injusta” a forma como estão a ser tratados. Chegou à rua do Rosário na terça-feira de madrugada, onde não existe sequer um local para fazer “as necessidades e a higiene” pessoal. Francisco Binza, angolano, de 43 anos, há um ano e dois meses em Portugal, defendeu que devia existir um “método mais fácil” para autenticar o registo criminal. “Deem oportunidade aos imigrantes, estamos cá também para ajudar. Não estamos a invadir, no meu país existem muitos imigrantes portugueses e são bem tratados”, apelou.
Mas nem tudo é mau, há quem, aproveite para fazer amizade, como foi o caso das nepalesas Juna Paudel, de 27 anos, de Santarém, e Shyam Magar, de Braga. “Não nos conhecíamos e ficámos amigas, apoiamo-nos uma à outra”, contaram, sorridentes, à Lusa.