Fernando Medina foi o último dos socialistas que estavam a tentar uma solução alternativa a José Luís Carneiro a confirmar que não vai candidatar-se à liderança do PS. O caminho fica livre para a existência de uma única candidatura com hipóteses de vencer as eleições diretas do partido, que é a de José Luís Carneiro — mas não vai isento de críticas.
O antigo ministro das Finanças confirmou no canal Now a notícia avançada pelo Observador esta noite: “Não serei candidato à secretário-geral do PS”. Mas também deixou criticas à forma precoce como Carneiro se posicionou. Na última semana, uma frente de dirigentes e altos quadros do partido — de que fez parte Medina, mas também Duarte Cordeiro, Mariana Vieira da Silva e Ana Catarina Mendes — procuraram ganhar tempo para procurar o elemento em melhores condições para liderar o partido e promover um debate interno depois de uma derrota pesada nas legislativas.
O avanço do antigo ministro da Administração Interna inviabilizou o debate prévio pretendido e, na explicação sobre a sua decisão, Medina disse que Carneiro, ao apresentar uma candidatura logo na segunda-feira, “iniciou um processo interno, de contagem de espingardas, que inviabiliza que esse debate profundo se faça antes de uma eleição direta”. Considerou também que, “face à dimensão da derrota era preciso um debate despessoalizado das candidaturas” e que depois aferiria “uma solução que permitisse uma melhor resposta”.
Nos últimos dias, Carneiro estava a avançar a todo o gás, na recolha de apoios das estruturas do partido que até aqui tinham estado com Pedro Nuno Santos. As três maiores federações distritais no PS, Porto, Braga e Lisboa, estavam já a comprometer-se com um apoio numa altura em que o partido está também pressionado pelo calendário das autárquicas. Entre esses nomes estavam já alinhados o do candidato à Câmara do Porto, Manuel Pizarro (um rival de Carneiro há anos), e também à Câmara de Vila Nova de Gaia, João Paulo Correia.
Nos autarcas e candidatos autárquicos do PS existia um sentimento dominante sobre o risco de uma luta interna divisiva nesta altura, tendo em conta que o país está a meses das eleições autárquicas — onde o PS lidera em número de câmaras. A mesma preocupação existia entre alguns dirigentes do partido e houve uma tentativa de adiar o processo de sucessão de Pedro Nuno por causa disso mesmo. O presidente do PS, Carlos César, avançou entretanto com a informação de que as eleições seriam marcadas de forma imediata, o que já indiciava que o processo eleitoral seria simplificado, ou seja, não haveria mais do que um candidato com condições de vencer.
A “contagem acelerada de espingardas” de Carneiro, segundo Medina, tornou “impossível discutir matérias de natureza estratégica e da forma de gestão e composição da direção” e trouxe “o processo eletivo”. Isto quando o partido precisava de “reflexão”: “Qualquer pessoa de bom senso vê que é um momento crítico para o PS” e “tem de recuperar a credibilidade”. Ainda assim, o socialista lembrou que apoiou Carneiro na última candidatura à liderança, contra Pedro Nuno, e deseja-lhe boa sorte.
Duarte Cordeiro também já se tinha colocado, esta semana, fora de jogo, ainda que tivesse falado na necessidade de uma candidatura consensual no partido e pensada com tempo. O mesmo aconteceu com Mariana Vieira da Silva, que também disse existirem “pessoas em melhores condições para uma candidatura à liderança do PS”, afastando-se dessa frente.
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Ao mesmo tempo, Vieira da Silva defendia ser importante que houvesse mais do que um candidato às eleições internas, para o partido poder refletir a partir de “soluções de maior unidade e não a partir de soluções de unanimidade.” Já durante a semana tinha sido especialmente dura com Carneiro, na SIC-Notícias, ao dizer que não se pode “considerar que só porque alguém que já estava a pensar candidatar-se ao próximo congresso, tem um direito reforçado ou prioritário para ser líder do Partido Socialista”.
Esta noite, confirmou na sua conta de Instagram que fez parte do grupo que nos últimos dias procurou uma alternativa e que fosse feito “um debate alargado e profundo sobre a estratégia a seguir e sobre a pessoa certa para a liderar. Um cenário inédito como o que saiu do último domingo, que nos traz dimensões estruturais novas, exigia novas respostas e que não repetíssemos os procedimentos habituais“, voltou a defender, apontando a Carneiro.
A intenção de procura de uma alternativa caiu, disse, “tendo em conta o calendário” acelerado para as diretas: “Entendemos ir ao encontro do apelo de unidade do partido, não apresentando uma candidatura que forçasse uma disputa interna em período eleitoral e prejudicasse a profunda reflexão que nos é exigida – para a qual estamos todos convocados”.
Estas decisões acabaram por simplificar a reunião da Comissão Nacional deste sábado, onde vai não só discutir-se os resultados eleitorais, como também fixar o calendário eleitoral interno. Até aqui Carlos César tinha um problema bicudo em mãos tendo em conta a discórdia sobre o melhor momento para avançar com eleições diretas, com a proximidade das autárquicas — e quando o trauma eleitoral do PS está à flor da pele. Essa questão ficou resolvida, mas o processo não vai deixar de ser criticado pelos conselheiros do partido.