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Medina e Mariana Vieira da Silva são próximos e sentaram-se lado a lado no Governo da maioria absoluta de António Costa.
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▲Medina e Mariana Vieira da Silva são próximos e sentaram-se lado a lado no Governo da maioria absoluta de António Costa.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

▲Medina e Mariana Vieira da Silva são próximos e sentaram-se lado a lado no Governo da maioria absoluta de António Costa.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Carneiro faz tudo para ser único no PS, mas há socialistas a correr atrás de uma alternativa

Há uma frente no PS que pede tempo e aposta num candidato a líder que possa ser mais consensual do que Carneiro. Vieira da Silva e Medina não se excluem. Sinal terá de chegar antes de sábado.

José Luís Carneiro já está no terreno no PS. Sinalizou a vontade de se candidatar, intensificou muito os contactos, a dias da Comissão Nacional onde vai decidir-se a reorganização do partido depois do terramoto eleitoral de domingo, e está a fazer tudo para ser o único no terreno. Mas o nome não deixa os socialistas rendidos e há movimentos internos em busca de uma alternativa que possa ser mais consensual, afinal algum do universo pedronunista (e não só) não se revê no antigo adversário Carneiro.

No PS o que se espera é que o quadro fique claro até à reunião de sábado e, neste momento, há uma tentativa final de encontrar uma “solução de unidade”, como lhe chamou Duarte Cordeiro. O nome que no partido era visto como o mais consensual para líder — e um dos poucos capazes de fazer Carneiro recuar nas suas intenções — colocou-se fora da corrida, numas declarações à Agência Lusa precisamente à hora em que José Luís Carneiro confirmava estar disponível.

Mas também acabava por deixar ali um travão numa altura em que o partido tenta alternativas, como Mariana Vieira da Silva ou Fernando Medina — que foram dos poucos protocandidatos que ainda não se retiraram de cena. A deputada disse ainda esta terça à noite que está “disponível para ajudar o PS a voltar a ter a confiança dos portugueses e isso significa participar nas conversas das várias tendências para ver quem está disponível” e “encontrar um caminho que seja de união”. Não quis comprometer-se com mais do que isto, continuando em cena ao contrário do que outros já fizeram.

A intervenção de Cordeiro foi vista entre socialistas como uma assunção de ser “a voz que está a liderar” o processo de sucessão no PS — mas não é o único a fazer contactos e pressão sobre aqueles de que se fala nesta altura. O socialista nunca referiu nomes, mas determinou condições: “Quem se candidatar deve trabalhar com todos, os melhores, respeitar o passado e ter uma atitude construtiva.” A ideia parece ser não substituir uma facção, a pedronunista, por outra. Isto numa altura em que o partido sofreu um dos maiores abalos da sua história, ao ser apanhado pelo Chega e a estar prestes a tornar-se na terceira força política no Parlamento.

Carneiro apressado

“Há que dar tempo a que as pessoas se decidam”, comenta um alto quadro do partido ao Observador, quando há conversas a decorrer nas últimas horas para explorar alternativas. “O PS tem de ter tempo de respiração“, comenta outra fonte que também está por dentro nestas conversas. Há um certo mal-estar com a rapidez com que Carneiro se pôs em campo e se multiplica em contactos nas últimas horas. “É legítimo que se candidate, mas até para ele achei tudo demasiado rápido”, comenta outra fonte do partido. Certo é que nos vários contactos feitos pelo Observador junto de vários dirigentes do partido uma das frases mais ouvida foi “o José Luís já me ligou” — essa contagem de espingardas vai avançada e o condicionamento do espaço também. “Quando há vacatura, prepara-se o conclave“, atira em contraponto um apoiante do ex-ministro da Administração Interna.

Certo é que o partido que esteve com Carneiro nas últimas diretas não será o mesmo. Pode haver algumas transferências do pedronunismo (presidentes de federação como o de Viseu, por exemplo), mas há sobretudo uma ala vinda do costismo que, desta vez, pode não estar dentro. Afinal, foi o anti-pedronunismo que acabou por levar para José Luís Carneiro alguns dos apoios que teve em 2023, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva ou José António Vieira da Silva. Agora, sem Pedro Nuno na área, as contas fazem-se de outra maneira.

▲ Na passagem da campanha por Braga, nestas legislativas.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Além disso, a ala do líder que está de saída também não morre de amores pelo adversário de Pedro Nuno Santos que, durante a liderança, foi sempre marcando terreno de forma ostensiva, tanto em comentários televisivos menos alinhados — que saltaram à vista na tensa negociação do Orçamento –, como no terreno — ainda na campanha das legislativas Carneiro andava nessa medição de forças, exibindo nas redes sociais vídeos de apoios à sua candidatura como cabeça de lista em Braga de figuras como Francisco Assis, Sérgio Sousa Pinto ou mesmo Fernando Medina.

Entre os seus apoiantes, a garantia é de que tudo está controlado e que nem Medina nem Mariana Vieira da Silva vão avançar. “José Luís Carneiro vale mais votos do que há um ano”, contabiliza-se ao mesmo tempo que se afirma que a velocidade a que o socialista avançou já lhe dá vantagem. “O partido está tão desorientado que as pessoas querem é agarrar-se a alguém“, diz a mesma fonte, que está convencida de que “as estruturas [que até aqui estavam com Pedro Nuno] vão-se aproximando do candidato que tem hipóteses de ganhar”.

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Certo é que na distrital de Lisboa já se sentem movimentos nesse sentido. Alguns dirigentes mostraram isso mesmo, em conversa com o Observador. “Não queremos guerras internas antes das autárquicas, só deve haver um candidato e provavelmente vai ser José Luís Carneiro”, comenta um dirigente. “Só o Duarte Cordeiro poderia fazer Carneiro sair”, argumenta para apostar nesse candidato único que é o que já está no terreno. E o tema ganha peso quando se fala com candidatos autárquicos. São os menos interessados em divisões em cima das autárquicas e esse aviso foi logo visível na própria noite eleitoral, como escreveu então o Observador.

Mas até agora os dois nomes que são apontados como alternativas continuam sem sair de jogo e estão a dar indicações de estarem a refletir. Mariana Vieira da Silva e Fernando Medina, até aqui, só falaram da questão da governabilidade — para defenderem um desbloqueio da situação política pela mão do PS, se for necessário. Vieira da Silva mostrou-se ainda contra a pressa em dar resposta ao que aconteceu ao PS no domingo: “É incompatível dizer que precisamos de fazer uma reflexão profunda e querer ter nova liderança depois de amanhã. É preciso compreender o que aconteceu e perceber que o próximo líder tenha a capacidade de avaliar o passado e o presente do PS.”

PS em choque absoluto. Pedro Nuno sai e deixa partido perdido entre o que fazer com AD e se avança com diretas já

O que cada um tem (e não tem)

José Luís Carneiro tem vantagem natural no terreno — nunca deixou de alimentá-lo neste ano e meio de Pedro Nuno no poder, depois de ter concorrido contra ele e conseguido 37,7% dos votos — e vai garantindo, mais uma vez, que está disponível para dar resposta aos apelos que diz que lhe chegam “do partido e da sociedade civil” — a fórmula é tirada a papel químico da sua candidatura em 2023 para provar dimensão política dentro e fora do partido. Junto das bases tem especial trabalho feito na segunda maior distrital do país, a de Braga — foi o círculo em que concorreu nas legislativas. Já começou a fazer contactos em Lisboa e terá maior dificuldade no Porto, onde a federação é liderada por um indefectível de Pedro Nuno Santos, o seu diretor de campanha Nuno Araújo, e onde o candidato autárquico é o seu arqui-rival no partido, Manuel Pizarro.

Entre os destacados socialistas que estiveram ao seu lado contra Pedro Nuno em 2023, ainda não se ouviu muito. Em princípio conta com uma transferência, a de Sérgio Sousa Pinto que logo na noite eleitoral considerou uma boa notícia o seu avanço para a liderança — quase para sacudir de cima de si o peso de uma resposta sobre esse cenário. Mas a maior parte dos dirigentes do partido prefere esperar pela clarificação dos próximos dias e perceber se não existe mesmo uma candidatura que possa ser mais agregadora. Carneiro representaria sempre uma facção que ainda vem dessa disputa interna contra Pedro Nuno Santos.

Já Mariana Vieira da Silva fazia facilmente a ponte com o passado do pedronunismo, onde “não tem rejeição”, como aponta um socialista em conversa com o Observador. Se decidisse avançar, provavelmente seria a que melhor congregaria os apoios que estavam com Pedro Nuno Santos — que ficou sempre reconhecido por a antiga ministra de Costa ter integrado a sua direção e ter mantido lealdade e disponibilidade para candidaturas (mesmo quando foi preterida para a Câmara de Lisboa). Além disso, é uma figura fortemente ligada ao último período de ouro do partido, o costismo — foi braço direito de Costa no Governo, de forma constante, desde 2015. Tem uma vantagem sobre Fernando Medina, que é ser deputada — um líder que esteja no Parlamento é fundamental para poder enfrentar diretamente Luís Montenegro, ainda mais numa altura em que o PS vai ter de lutar com o Chega pela relevância na oposição — teve mais votos, mas provavelmente ficará com menos deputados, depois de distribuídos os votos dos círculos da emigração.

▲ No comício da Aula Magna, na campanha das legislativas.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Fernando Medina é visto como tendo maior dificuldade em agregar todas as alas dentro do partido, em comparação com Mariana Vieira da Silva. Mas acaba por ser um nome com maior destaque público, por ter sido presidente da Câmara de Lisboa e ter estado à frente de um Ministério com especial relevo, o das Finanças. Ainda assim, terá mais anticorpos dentro do partido, já que durante anos foi o rival interno de Pedro Nuno Santos e isso deixou marcas. Tem também a tal desvantagem de, por vontade própria, ter pedido para não ir nas listas do partido nestas últimas legislativas, pelo que não tem representação no palco parlamentar.

Outros nomes foram sendo falados no partido por estes dias, mas com menos sublinhado. Exceção para o caso de Duarte Cordeiro, que era, de facto, o preferido por grande parte do partido, mas que tem-se mantido fora da política mais ativa, numa altura em que está apostado na sua carreira empresarial — continua a ser, no entanto, uma figura desejada no partido para o futuro. Alexandra Leitão também é um nome que facilmente saltaria para esta lista de protocandidatos, embora o calendário não jogue a seu favor, já que é a candidata do PS à Câmara de Lisboa — teria também alguma dificuldade na agregação, sendo conotada com uma linha mais à esquerda no partido. A própria veio clarificar esta terça-feira que não entra nas contas para a liderança por estar focada na candidatura autárquica.

A sobreposição desta corrida com as autárquicas ainda é um problema que o partido tem para resolver e para o qual a clarificação das disponibilidades para a liderança não será alheia. O assunto continua a pesar no espírito dos candidatos a autarquias, que já viram o calendário interrompido por umas legislativas fora de tempo e que agora temem que uma contenda interna possa enfraquecer o partido nessa frente. A solução apontada por Carlos César — o presidente do partido — de ter as diretas já em junho ou início de julho — e deixar o congresso (e as naturais divisões provocadas pelas listas para delegados e distribuição de lugares em órgãos nacionais do partido) para depois das autárquicas, não é consensual. “Ainda pode mudar a proposta”, diz um dirigente ao Observador.

E isto porque os autarcas e candidatos autárquicos do partido continuam preocupados com os efeitos de uma luta interna em plena pré-campanha (se as autárquicas forem em setembro, junho e julho são os meses preferenciais para chegar aos eleitores). No entanto, também há quem dramatize a solução de deixar tudo para depois dessas eleições e a imagem de um partido sem líder durante essa campanha. “Como se faz autárquicas sem líder?”, questiona uma fonte do partido. Todas as saídas parecem más numa casa onde deixou de haver pão.

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