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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O decidido, as dúvidas e os que estão fora da corrida. A disponibilidade, os apoios e relação com a AD dos potenciais candidatos ao PS

José Luís Carneiro já assumiu que será candidato à sucessão de Pedro Nuno. Medina e Mariana Vieira da Silva são nomes falados para alternativa. Qual o ponto da situação da corrida à liderança do PS?

A anunciada saída de Pedro Nuno Santos abriu a corrida à sucessão na liderança do PS. José Luís Carneiro não perdeu tempo a manifestar interesse em avançar, mas rapidamente outras alas do partido se movimentaram para que o antigo ministro da Administração Interna não fosse sozinho a diretas. Fernando Medina e Mariana Vieira Silva já revelaram ser a favor de não fazer o processo à pressa e são nomes que continuam em cima da mesa (só um dos dois avançaria) para fazer frente a Carneiro. Para já, há um decidido, duas dúvidas e vários que se colocaram de fora da corrida à liderança. Afinal, que disponibilidade manifestaram, que apoios têm e que relação podem ter com a AD estes três potenciais candidatos?

O decidido

José Luís Carneiro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Grau de disponibilidade

Totalmente disponível para se candidatar à liderança do PS, Carneiro nem deixou a noite eleitoral arrefecer e já estava em contactos a reativar a sua base de apoio. Na verdade nunca deixou de o fazer ao longo deste ano e pouco que separa o PS das últimas diretas. Em dezembro de 2023, Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro enfrentaram-se pela sucessão de António Costa e o antigo ministro da Administração Interna conseguiu 37,7% dos votos dos militantes socialistas, reclamando a partir daí dimensão para ser ouvido e representado em listas dos órgãos nacionais do partido.

Foi sempre cabeça de lista pelo partido (em Braga) nas duas legislativas da era Pedro Nuno, mas não teve grande saída por parte do atual líder para além disso. Quando, por exemplo, se ofereceu para se candidatar à Câmara do Porto, Pedro Nuno simplesmente ignorou a disponibilidade manifestada e escolheu Manuel Pizarro. A relação entre os dois socialistas nunca foi próxima e azedou na campanha interna, com os apoiantes de Pedro Nuno a acusarem sempre a candidatura rival de uma campanha negra. Apontou sempre muito às rótulas do seu adversário — e aqui torna-se quase literal, já que, à porta da Comissão Nacional pós-demissão de Costa, Carneiro disse que “desde criança” tinha aprendido “que as dívidas são para pagar”, sabendo que com isso trazia à memória de todos o episódio do jovem Pedro Nuno a incitar ao não pagamento da dívida: “As pernas dos banqueiros alemães até tremem!”

Antes disto já não tinham qualquer proximidade, eram de grupos diferentes no PS. Carneiro foi sempre da ala mais moderada do partido e, depois da disputa interna que perdeu e da tradicional jura de “unidade”, foi uma voz mais crítica da linha de Pedro Nuno. Isso tornou-se bem presente durante a discussão do Orçamento do Estado para 2024, quando foi um dos primeiros socialistas a pressionar para a viabilização (ler mais abaixo). Mal Pedro Nuno saiu de cena, aprontou-se para voltar a tentar a liderança, sabendo que a rapidez pode ser fundamental para tomar a dianteira dos apoios do partido. E para tentar condicionar eventuais concorrentes que possam recolher-se perante um calendário pouco propício a divisões internas, com as autárquicas já ao virar da esquina.

Apoios

Carneiro já vai adiantado no terreno e nas últimas horas tem tentado dar mostras da força interna, através de alguns apoios. Augusto Santos Silva, por exemplo, não vê razões para mudar o apoio que lhe deu na última candidatura. Já João Soares, que esteve ao lado de Pedro Nuno, fez saber que agora estará com Carneiro e Sérgio Sousa Pinto também já disse, logo na noite eleitoral, que o socialista “reúne todas as condições para poder avançar para a liderança do PS e fazer alguma coisa. Porque o PS tem de liderar a esquerda e liderar as soluções que sejam autenticamente reformistas e progressistas para o nosso país”. E há outros, como Eurico Brilhante Dias, que já o apoiou no passado, que voltará a estar com esta candidatura. Neste momento está a tentar virar a estrutura — que até aqui estava praticamente toda com Pedro Nuno — a seu favor e já há, pelo menos, um presidente de federação que lhe declarou apoio: Armando Mourisco, de Viseu. No seu círculo garante-se que a ideia de Carneiro é “ser agregador” e não rasgar com opções já tomadas, nomeadamente em termos de candidaturas autárquicas. “Onde estão fechadas é para seguir”, diz fonte próxima do socialista, que também afiança que Carneiro vai avançado na recolha de apoios na estrutura.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, coproduzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Relação com a AD

No PSD já se ouviu de tudo sobre Carneiro, mas nunca propriamente nada desfavorável à figura. Em 2023, durante as diretas do PS, os sociais-democratas alegavam que, em legislativas, Pedro Nuno seria um adversário mais fácil do que Carneiro. “Parece-me óbvio que uma vitória de Pedro Nuno Santos permite uma maior clarificação. Julgo que o PSD fica mais sozinho no tal centro moderado”, explicava então Pedro Duarte. Mas desde que é Governo, a postura mudou e agora o mesmo PSD já vê essa mesma postura de Carneiro como vantajosa. “Pode protagonizar uma nova fase do PS que espero mais moderada e mais responsável, tem todas as condições para isso”, disse Hugo Soares já depois da noite de domingo.

Da parte de Carneiro já se ouviu, a propósito da relação entre socialistas e Governo, que “o PS deve ser claro no que respeita à garantia de viabilização do Governo, porque é isso que os cidadãos nos pedem”. Numa entrevista à CNN Portugal, o socialista defendeu que PS e AD devem ser “capazes de assentar compromissos que imponham um ritmo de reforma” em áreas que classificam como “vitais”: o crescimento da economia, a atração de investimento estrangeiro, o combate à pobreza e desigualdades e o reforço da posição de Portugal na questão da defesa europeia. Mas isto só através de compromissos ao nível parlamentar, porque Carneiro rejeita um bloco central, considerando que essa solução seria “prejudicial” para ambas as partes.

Para Montenegro traz ainda uma vantagem muito direta: se fosse líder do PS não avançaria a comissão parlamentar de inquérito ao caso Spinumviva. Em entrevista ao programa Vichyssoise, na rádio Observador, antes da campanha, Carneiro manifestou-se contra a manutenção do inquérito parlamentar numa nova legislatura, como defendia Pedro Nuno Santos — e que mesmo na saída do PS continuou a defender. Sobre este assunto, José Luís Carneiro explicou que sempre teve “dúvidas sobre a aprovação de uma comissão de inquérito, porque as comissões de inquérito são um instrumento parlamentar (…) o Parlamento tem uma dimensão de escrutínio político. Tudo o que tem a ver com matérias sobre as quais se colocam questões de legalidade, nós temos conhecimento de factos e devemos comunicá-los às autoridades competentes que têm os seus instrumentos de investigação, por forma a que se administre a justiça.”

As dúvidas

Fernando Medina

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Grau de disponibilidade

É uma das incógnitas políticas do momento. O ex-ministro das Finanças já falou sobre a noite eleitoral, mas recusou dizer o que quer que fosse sobre a sucessão de Pedro Nuno Santos, o que no seu caso tem uma leitura simples: não se exclui desse jogo. Medina foi um apoiante de Carneiro nas últimas diretas mas, mesmo com o ex-ministro da Administração Interna já em campo, preferiu manter o silêncio sobre o assunto. No PS existem movimentações na busca de uma candidatura que possa reunir maior consenso (leia-se: que possa integrar as várias alas, sobretudo a pedronunista, mais adversa a Carneiro) e Medina é um dos nomes que aparece na lista e que está a ponderar por estes dias.

Se avançar já sabe que conta com uma dificuldade, que ele próprio criou. Em abril fez saber que não estava disponível para integrar as listas de deputados pelo PS, numa conversa que teve com Pedro Nuno Santos e da qual saiu a declarar apoio ao partido na campanha — coisa que cumpriu, aparecendo mesmo no comício da Aula Magna, em Lisboa. Assim, se fosse líder teria a dificuldade de não poder estar no palco político mais visível, a Assembleia da República, e onde o PS pode vir a sofrer o rombo de deixar de ser a segunda maior força (falta contabilizar os votos da emigração para distribuir os quatro mandatos que faltam e que podem desempatar os 58 deputados que PS e Chega têm, cada um).

Apoios

É um nome que tem anticorpos entre os pedronunistas, já que foi durante anos o rival interno do líder que está agora de saída, mas vem de dentro do costismo, pelo que terá capacidade para agregar algumas das figuras mais destacadas dessa era. Muito desses nomes, a começar pelo próprio Medina, tinham-se juntado a José Luís Carneiro precisamente por causa da oposição a Pedro Nuno Santos, agora que esse já não é um tema, podem juntar-se noutra frente.

Relação com a AD

Medina foi o único socialista que fez uma declaração de voto na moção de confiança do Governo que o PS rejeitou, para mostrar que, se não fosse a disciplina de voto, a sua posição teria sido outra. No texto que entregou, nessa altura, o socialista avisou para o risco de eleições antecipadas, temendo que daí viesse a resultar uma solução de Governo que pudesse continuar a “enfermar profundas fragilidades políticas ou, pior, fique nas mãos da extrema-direita.” No texto também criticava um “debate de insinuações e calúnias”, que nessa altura ia no seu auge com críticas intensas da liderança do PS a Montenegro por causa da Spinumviva e com o avanço de uma comissão parlamentar de inquérito ao caso. Ao mesmo tempo que dizia que a crise política “evitável” resultou “de decisões do primeiro-ministro”, também arranjou forma de qualificar as críticas que, naquela altura, eram feitas a Montenegro como ataques “injustos e indignos“ e até falou em “aproveitamento político contra o primeiro-ministro”.
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Medina avisa para riscos de novas eleições e critica debate de “insinuações e até calúnias”

Medina também chegou a discordar da comissão parlamentar de inquérito à Spinumviva, que considerou um precedente que seria aberto sobre todos os membros do Governo, embora publicamente tenha, mais tarde, considerado que a proposta apresentada pelo PS estava “bem balizada”. Numa altura em que o ainda líder disse, na noite eleitoral, que defenderá que se mantenha a proposta que fez desse inquérito, Medina é mais um protocandidato que pode não estar muito alinhado com essa ideia.

Quanto às relações imediatas com a AD, nomeadamente a criação de condições de governabilidade, o ex-ministro das Finanças já foi muito claro nos últimos dias, ainda que tenha colocado condições à AD. “Se ficar claro que Luís Montenegro quer combater a progressão da extrema-direita, se a Iniciativa Liberal não estiver dentro do espaço da governação e se houver um compromisso que é um diálogo ativo, permanente e empenhado com o Partido Socialista, eu defendo que o PS não deve inviabilizar a entrada em funções do atual governo”, disse, esta segunda-feira, no programa Conversa de Eleição da Rádio Renascença. Medina tem mantido esta linha de aproximação à AD em matérias de governabilidade desde a última legislatura, quando apareceu publicamente a defender que o PS viabilizasse o Orçamento do Estado para este ano, quando Pedro Nuno ainda não tinha decidido sobre o assunto.

Mariana Vieira da Silva

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Grau de disponibilidade

A pressão sobre Mariana Vieira da Silva tem sido grande, mas a própria tem feito tudo para a sacudir dos ombros e esta quarta-feira, à Rádio Renascença, atirou-a mesmo para outros braços: “Há pessoas em melhores condições do que eu para protagonizarem” uma candidatura à liderança do PS. Foi durante anos o braço direito (durante os primeiros anos de governação quase invisível) de António Costa: era sua secretária de Estado Adjunta e só em 2019 é que foi promovida a ministra, da Presidência. A pandemia apanhou-a num cargo determinante e foi, algumas vezes, o rosto que os portugueses mais viam nos briefings do Conselho de Ministros nessa fase de mudanças sistemáticas.

É muito próxima de Fernando Medina e a sua afirmação desta quarta-feira passa precisamente a pressão para cima do antigo ministro que foi, na verdade, quem a introduziu na vida política. Em 2013, Medina levou-a para a lista de candidatos autárquicos do PS em Lisboa, num lugar de eleição impossível — era a 15.ª da lista — mas a chamada tinha segundas intenções: aquele era o último mandato de Costa na Câmara, Medina já sabia que seria o sucessor e queria ter Mariana Vieira da Silva no radar para a chamar para um futuro executivo. Não aconteceu porque Costa a desviou para a preparação do seu programa eleitoral de 2015 e, depois, para o Governo.

Ainda que tenha uma longa relação de proximidade política com Medina, Mariana Vieira da Silva fez o seu percurso político mais relevante na era de Costa em que foi sempre um elemento do núcleo político que fazia a coordenação dos seus três governos. Depois da saída de Costa fez uma transição para a direção de Pedro Nuno Santos, numa prova de que o então novo líder precisava de não entrar em rutura com o passado. Antes disto também tinham tido uma relação estreita quando Vieira da Silva era secretária de Estado Adjunta do primeiro-ministro e Pedro Nuno o dos Assuntos Parlamentares, nos tempos da geringonça. E o entendimento sempre foi pacífico.

Ainda assim, Mariana Vieira da Silva nunca pertenceu ao núcleo de confiança de Pedro Nuno Santos e, antes destas legislativas antecipadas, estava mesmo encostada no partido. Tinha sido um dos nomes apontados para a Câmara de Lisboa, mas à última a candidatura foi para Alexandra Leitão e Vieira da Silva acabou por ficar no banco.

Apoios

No partido é vista como um elemento com poucos anticorpos. Nas últimas legislativas, mesmo depois de ter sido posta de parte em alguns desafios políticos de maior relevo, como as autárquicas, acedeu a voltar a ser cabeça de lista por Lisboa (repetindo a candidatura de 2024). Cumpriu na estrada ao lado de Pedro Nuno Santos, mas a sua linha política é mais próxima da de Fernando Medina. A postura discreta e de lealdade aos órgãos do partido a que pertencia foram apreciadas pela equipa de Pedro Nuno Santos e pelo próprio líder e, neste grupo, não são poucas as vozes que preferem o seu perfil ao de Fernando Medina.

A própria entende não ter um perfil da primeira linha de fogo e à Renascença disse isso mesmo: “Nunca escondi que não tinha como projeto de vida – não é uma coisa em que eu, ao contrário de muitas outras pessoas, tenho pensado ao longo dos últimos anos – fazer um caminho para a liderança do PS. Nunca foi esse o meu posicionamento no espaço político.” No partido continuam a ver-lhe condições para ser líder, mais que não seja porque essa ala sabe que não seria uma protagonista hostil. Alguma da estrutura que Pedro Nuno Santos criou e alimentou nos últimos anos no partido não teria dificuldades em passar para alguém com o perfil de Mariana Vieira da Silva.

Relação com a AD

Mariana Vieira da Silva disse, já depois das eleições à Renascença que “o que é importante é que os partidos olhem com prudência para estes resultados e procurem não alienar capacidade de criar estabilidade para o país.” A antiga ministra do Governo de António Costa acrescenta: “A instabilidade tem beneficiado o Chega e isso é algo que devemos procurar combater”. Ou seja, a socialista é a favor que o novo Governo da AD entre em funções já que, na mesma ocasião em que “existe uma maioria significativa de direito e é no quadro destes partidos que a governação deve prosseguir”.

Os que se colocaram de fora

Francisco Assis, Alexandra Leitão, Duarte Cordeiro

Não é o momento mais apetecível para liderar o PS e alguns dos potenciais candidatos já fizeram questão de se colocar de fora. Francisco Assis disse logo no dia seguinte às eleições, na Rádio Observador, que não estava disponível para uma candidatura. Depois de já o ter sugerido na CNN, Alexandra Leitão, uma espécie de número dois do mandato do Pedro Nuno Santos colocou-se completamente de fora em declarações à Agência Lusa: “Neste momento a única coisa que posso adiantar é que eu própria não me candidatarei ao lugar de secretária-geral porque tenho o foco na cidade de Lisboa e nas eleições autárquicas”. E acrescentou: “O meu foco agora é a minha candidatura à Câmara de Lisboa”. Também em declarações à Agência Lusa, Duarte Cordeiro retirou-se da corrida: “Não serei candidato mas quero contribuir para uma solução de unidade e não de fação”. O antigo ministro do Ambiente parece também alinhar na frente anti-Carneiro, ao ter dito que é preciso “dar tempo” para que se possa “escolher entre os melhores e não eleger os mais rápidos”.

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