A equipa preparou-se para o pior: já se tinham passado quase dez anos desde a última vez que este animal em vias de extinção tinha sido avistado. Mas as expectativas foram superadas: foi captada a primeira fotografia de que há registo de um lechwe de Upemba (Kobusanselli, nome científico) vivo. É “um grito de alerta” para salvar o também conhecido como “o antílope esquecido de África”.
O registo coube a uma equipa de investigadores que fez uma expedição aérea ao Parque Nacional de Upemba, na República Democrática do Congo, para avaliar o estado da subespécie regional de antílopes em março último. A bordo de um Cessna 182, um pequeno avião monomotor, a equipa conseguiu observar dez lechwe de Upemba e publicou na terça-feira o resultado do seu trabalho, bem como a primeira imagem publicada de um exemplar vivo no African Journal of Ecology.
“A sensação foi inacreditável”, descreveu Manuel Weber, do departamento de investigação e biomonitorização do Parque Nacional de Upemba ao The Guardian.
“Eu sabia que precisávamos daquela fotografia — caso contrário, não teríamos qualquer forma de chamar a atenção dos media para a causa, e fiquei devastado ao fim do primeiro dia porque, de facto, conseguimos avistar alguns lechwe do Upemba, mas estavam a fugir desesperadamente, sem hipótese de fotografar,” disse Weber ao The Guardian.
“Foi na manhã do segundo dia que um único indivíduo parou apenas por alguns segundos — tempo suficiente para eu carregar no botão — antes de fugir, tal como os outros que tínhamos visto”, contou.
Durante meses, Weber e outros três investigadores organizaram a expedição, que decorreu entre os dias 13 e 14 de março, em seis horas de voo. O intuito era fornecer a primeira atualização populacional em mais de 50 anos desta subespécie de antílope que existe apenas nesta região no sul da República Democrática do Congo.
Apesar de terem traçado um mapa do histórico de deslocação da espécie — com base em literatura especializada, relatos de guardas florestais experientes e testemunhos de moradores locais —, a possibilidade de que, no final do levantamento, o lechwe de Upemba tivesse de ser oficialmente declarado extinto esteve sempre presente. “Mal dormi nas noites anteriores à descoberta”, confessou Weber.
Nunca antes um lechwe de Upemba fora fotografado oficialmente, não havendo registos desde 2005, ano em que foi reconhecido como subespécie de antílope com base em 35 espécimes de museu recolhidos em 1926 e entre 1947/1948. Ainda assim, o feito não representa um fim, mas o início de um longo percurso. “Esperamos que esta imagem se torne um grito de alerta”, afirmou Weber, sublinhando que “esta pode ser a nossa única oportunidade para salvar a espécie”.
Estima-se que restem menos de 100 exemplares em estado selvagem na região, o número mais baixo alguma vez registado, “tornando-o num dos grandes mamíferos mais raros do planeta”, revelam os dados publicados no African Journal of Ecology no dia 25 deste mês.
Atualmente, o lechwe de Upemba é considerado um dos mamíferos mais raros do mundo e encontra-se em risco iminente de extinção devido à caça furtiva. O Parque Nacional de Upemba enfrenta há mais de 70 anos problemas relacionados com a delimitação da sua área de proteção ambiental, sendo a caça uma das suas consequências mais graves.
Estudos indicam que, durante o período em que o governo estabeleceu limites ao parque (entre o final da década de 1960 e o início da de 1980), com o objetivo de proteger a fauna, o número dos lechwes ou (cobos) ascendia aos milhares. No entanto, com o declínio das medidas de proteção, a população entrou em colapso.
“Até 22 mil indivíduos foram contabilizados no início dos anos 1970, antes mesmo de o lechwe de Upemba ser descrito como subespécie. Já no início da década de 1990, carne de dezenas de exemplares era enviada semanalmente para Bukama, a maior cidade da região”, alertou Weber, que ainda considera “anormal” que estes antílopes continuem a existir.
Trata-se de uma situação bem conhecida pelos habitantes da região do Parque de Upemba, mas que, segundo Weber, ainda carece de mediatização a nível global — algo que a fotografia inédita finalmente proporcionou.
O artigo da equipa aponta várias ações urgentes de conservação para evitar o desaparecimento da espécie. “Estabelecer uma presença permanente de patrulhas anticaça na área central de habitat da espécie; realizar levantamentos adicionais; recolher dados sobre os fatores que a afetam e avaliar a viabilidade de medidas de proteção”, são algumas delas.
“O simples facto de ainda existirem alguns exemplares é extraordinário, mas sem proteção urgente, desaparecerão”, avisa Manuel Weber.
Texto editado por Dulce Neto