Há um mês que Portugal está a limitar as importações de eletricidade de Espanha em nome da segurança de abastecimento. Todos os dias se tem repetido uma separação dos mercados entre os dois países, com o outro lado a pagar um preço mais baixo. Mas isso não é o mesmo que dizer que Portugal está a pagar mais pelos preços grossistas do que Espanha. Aliás, segundo o administrador da REN (Redes Energéticas Nacionais), isso “não é absolutamente verdade”.
João Conceição diz que, se acrescentarmos ao preço médio do mercado diário, todos os outros custos que não são conhecidos, “em Portugal gastamos menos”. Isto porque Espanha está a recorrer muito aos serviços de sistema numa “gestão prudente” e isso introduz uma componente de custos que não é visível no preço marginalista do mercado.
Essa componente de custos, acrescenta, fazendo uma referência a contas divulgadas pelo El País, está a ser da ordem dos 35 euros por MW hora, um valor que é superior ao que Portugal está a gastar nos mesmos serviços. Logo, conclui, “esta lógica de Portugal estar a pagar mais do que os preços grossistas de Espanha não é absolutamente verdade”.
As declarações foram feitas na conferência sobre a segurança de abastecimento organizada pela Agência Portuguesa de Energia, em parceria com a ADENE e a Direção-Geral de Geologia e Energia (DGEG), que se realizou esta quinta-feira para assinar o Dia Mundial da Energia.
Um mês depois do apagão, e ainda sem se conhecerem as causas oficiais para o incidente em Espanha, Portugal ainda não repôs na totalidade as trocas comerciais, limitando as importações durante as horas de sol nas quais o preço é mais baixo do lado espanhol. Na negociação que definiu os preços diários para esta sexta-feira, Portugal pagou quase 50 euros por MWh, contra 44 euros por MWh do outro lado da fronteira. Mas estes valores só refletem o preço marginalista do casamento entre a oferta e a procura. Faltam outros custos.
Até ao apagão, Portugal contava com importação significativa de eletricidade de Espanha, essencialmente por razões económicas.
Segundo contas feitas pelo jornal espanhol, a fatura elétrica dos clientes residenciais (que em Espanha estão mais expostos ao mercado diário do que em Portugal) já subiu quase 4 euros desde o apagão, o que é o custo de uma gestão mais cautelosa que junta uma grande injeção de energia solar na rede — que faz baixar os preços do mercado diário — a um maior recurso aos tais serviços de sistema.
O administrador da REN considerou também que os agentes do sistema elétrico “estão mal habituados” a um funcionamento muito marcado pelo mercado diário e pelo sistema de preços marginalistas. Um sistema que já funcionou bem, mas que está desatualizado. E é preciso garantir que todos os mercados são o mais transparentes e abertos à participação de todos.
Os mercados de serviços de sistema e de balanço estão “a ganhar uma dimensão em termos exponenciais”. Isto porque numa gestão mais complexa da rede e com maior penetração de renováveis, estes serviços são fundamentais para equilibrar o sistema. Mas têm custos, porque é preciso remunerar os prestadores do serviço, a maioria dos quais são as centrais elétricas.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]