O fotojornalista Eduardo Gageiro, conhecido por imagens históricas captadas na Revolução do 25 de Abril, morreu durante a madrugada desta quarta-feira, em Lisboa, aos 90 anos, disse à agência Lusa fonte da família.
Eduardo Gageiro morreu esta madrugada, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, “em paz, rodeado pela família, com todo o carinho e conforto”, disse à Lusa Afonso Gageiro, neto do fotojornalista.
O velório do fotojornalista realiza-se na quinta-feira, a partir das 18h00, na Academia Recreativa Musical de Sacavém, disse à agência Lusa fonte próxima da família. O funeral será na sexta-feira, às 11h00, no Cemitério de Sacavém, concelho de Loures.
Nascido em Sacavém, em 1935, Gageiro, que completou 90 anos em fevereiro, deixa um vasto arquivo de uma obra de décadas que ilustra realidades políticas, sociais e culturais do país, modos de vida e personalidades diversas, num registo histórico desde a década de 1950 até à atualidade.
Eduardo Gageiro foi um dos primeiros fotojornalistas a chegar aos cenários do 25 de Abril, fixando as imagens do encontro dos militares no Terreiro do Paço, o assalto à sede da PIDE, a polícia política da ditadura, e o momento em que o capitão Salgueiro Maia percebeu que a queda da ditadura era inevitável e a revolução triunfara.
“Fui o primeiro fotógrafo e o único que lá esteve na maioria das fotografias feitas no 25 de Abril. No Terreiro do Paço só vi outros fotógrafos por volta das onze. Eu estava lá desde as seis da manhã, com o Salgueiro Maia ao meu lado”, contou em entrevista ao Observador em 2024, a propósito da sua última grande exposição, Factum: Eduardo Gageiro, em Lisboa, realizada no âmbito dos 50 anos da Revolução dos Cravos e que reuniu mais de 170 fotografias da sua autoria.
Nascido em Sacavém a 16 de fevereiro de 1935, iniciou-se como empregado de escritório na Fábrica de Loiça de Sacavém enquanto era ainda criança. Foi nesse meio que, convivendo com pessoas do meio artístico, deciciu tornar-se fotojornalista, dando enorme passo quando, aos 12 anos, conseguiu ter uma fotografia sua publicada na manchete do Diário de Notícias, recorrendo a uma máquina de plástico do irmão.
Foi assim que se lançou num percurso onde fotografou o Portugal do Estado Novo — o que lhe valeu, inclusive, o encarceramento durante dois meses em Caxias por ordem da PIDE — e o da democracia. “De nenhuma maneira sou revolucionário nem filiado a nenhum partido, mas achei necessário mostrar o que era o Portugal real. O mundo é tão difícil”, disse nessa mesma entrevista.
Ao longo da sua carreira, trabalhou em inúmeros meios, como o Diário Ilustrado, O Século Ilustrado, ou Match Magazine, sendo correspondente da Associated Press em Portugal. Um dos mais singulares episódios da sua atividade foi ter sido um dos únicos fotojornalistas do mundo a captar o atentado nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, na sua inteireza.
Foi também editor da revista Sábado e trabalhou como fotógrafo para a Companhia Nacional de Bailado, para a Assembleia da República e para a Presidência da República, além de acumular trabalhos a nível internacional para a Deustche Gramophone, na Alemanha, para a Yamaha, no Japão e para a Cartier, em França.
Membro de honra de inúmeros clubes de fotografia, foi distinguido com vários prémios ao longo da carreira, onde se destaca o segundo lugar na categoria de retratos do World Press Photo, em 1974, com uma fotografia do General António Spinola. Em 2004, foi agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República à época, Jorge Sampaio.
Morreu hoje Eduardo Gageiro. Através da sua lente, conhecemos os anos sombrios da ditadura, a esperança da Revolução, o trabalho e a pobreza, a vida de um povo. pic.twitter.com/DVN5GcLI0k
— mariana mortágua (@MRMortagua) June 4, 2025
A coordenadora do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, já reagiu à sua morte, partilhando uma fotografia nas redes sociais onde surge ao seu lado no âmbito de uma ação de campanha às legislativas de 2024. “Morreu hoje Eduardo Gageiro. Através da sua lente, conhecemos os anos sombrios da ditadura, a esperança da Revolução, o trabalho e a pobreza, a vida de um povo”, escreveu.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]