O presidente do Conselho Europeu, António Costa, recomendou esta segunda-feira à União Europeia “nervos de aço” na relação com os Estados Unidos de Donald Trump, mas avisou que o bloco europeu está preparado para responder, “se for atacado”.
“Temos de manter nervos de aço e prosseguir a política que temos tido de manter o nosso diálogo com os Estados Unidos numa base institucional. Não podemos responder a cada tweet, não podemos estar a responder a cada decisão que é tomada”, defendeu António Costa, durante uma conversa com o antigo-primeiro-ministro e antigo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, na conferência “Europa e Relações Transatlânticas”, organizada em Lisboa pelo canal Now.
Costa recordou que muitas decisões do Presidente norte-americano “são revertidas ou suspensas ou adiadas nos dias seguintes”, pelo que instou a prosseguir “o diálogo de uma forma construtiva”.
“Ouvimos coisas desagradáveis, sim”, reconheceu o ex-primeiro-ministro, que insistiu na necessidade de a Europa se focar “na parceria única” que desenvolveu “ao longo de 200 anos com os EUA”.
Se a UE “for atacada, objeto de medidas discriminatórias”, avisou, “terá de responder e a Comissão Europeia está preparada, designadamente em matéria comercial”, mas procurando “evitar uma escalada”.
Costa defendeu ainda que a Europa “não tem de ficar entalada entre um confronto de dois blocos, mas tem aqui uma grande oportunidade e o dever de desenvolver uma rede de parcerias à escala global”, exemplificando com o Brasil, África do Sul,Índia, Indonésia, Nigéria.
Atores que, sublinhou, “olham para a Europa com mais interesse, devido a dois valores essenciais: previsibilidade e confiança”.
Costa diz que 3% ou 5% de gasto em Defesa “não é um número mágico”
António Costa defendeu ainda que a União Europeia não precisa de 27 grandes Forças Armadas, mas de um “robusto sistema de defesa coletivo”, considerando que o objetivo de gasto em Defesa “não é um número mágico”.
“Nós não precisamos de 27 grandes Forças Armadas, o que precisamos é de um robusto sistema de defesa coletivo e para isso nós temos que trabalhar com base nos planos da NATO e nas prioridades definidas pela Agência Europeia de Defesa”, sustentou António Costa durante a conferência “Europa e Relações Transatlânticas”.
Para Costa, a discussão sobre o objetivo de investimento em Defesa no âmbito da NATO, “sobre 5%, 3%” do produto interno bruto (PIB) é “uma má forma de tratar o assunto, porque o que interessa não é um número mágico”.
O ex-primeiro-ministro socialista considerou que a Europa tem de “definir quais são as capacidades prioritárias” de investimento. “Quais são as capacidades que nós temos que preencher rapidamente para assegurarmos a nossa defesa coletiva? E é nisso que temos que ter um plano de investimento”, afirmou.
“É aí que nos devíamos focar e termos de facto uma estrutura europeia, que pode e deve ser no âmbito da NATO”, algo que exige negociação com os Estados Unidos, referiu.
A União Europeia, defendeu, “deve continuar a ser a entidade política, mas não deve duplicar nem substituir-se àquilo que é a instituição militar que existe, que é a NATO”, destacando a necessidade de “não descredibilizar a capacidade dissuasora do artigo 5.º” da Aliança Atlântica, que estabelece o princípio da defesa coletiva.
Para Costa, o que a UE deveria estar a discutir é “como é que na próxima década a Europa vai progressivamente assumido cada vez maior responsabilidades e desonerando cada vez mais os Estados Unidos” no âmbito da NATO.