Eduardo Ferro Rodrigues recordou esta segunda-feira em tribunal, como testemunha, os insultos e ameaças de que foi alvo em setembro de 2021. “FDP, cabrão, nojento, devias estar morto. Lembro-me bem de ter ouvido”, recordou o antigo Presidente da Assembleia da República durante o julgamento de dez arguidos acusados de injúrias e tentativas de agressão a Ferro Rodrigues e também a Henrique Gouveia e Melo, que não compareceu nesta primeira sessão, uma vez que o tribunal não o conseguiu notificar.
“As tentativas de chegar até mim foram contidas” pelos seguranças, acrescenta, lembrado que um dos operacionais viu o seu cabelo ser arrancado por manifestantes. Condena ainda os insultos de “pedófilo”, que considera serem “uma ofensa gravíssima à segunda figura da República” e que remonta a acusações com base em “coisas que não se passaram há 20 e tal anos”.
???????? A Procudoria Geral República abre inquérito a insultos de negacionistas a Ferro Rodrigues. pic.twitter.com/4SzrPlb1XW
— Globalesfera (@globalesfera) September 21, 2021
O antigo Presidente da Assembleia da República reconheceu distintivamente um dos arguidos: Anabela Seara, a que Ferro Rodrigues se refere como sendo “a senhora do megafone”, que se ouvia claramente até dentro do restaurante onde se encontrava com a mulher.
O antigo secretário-geral do PS detalha os eventos desse dia. Recorda que saiu da residência oficial do presidente da Assembleia da República e dirigu-se, na companhia da mulher, ao restaurante italiano. “Quando me aproximei, vi que havia alguma gente à volta. Uns 20 ou 30. Lembro-me bem de ter reconhecido alguns [manifestantes] de imagens antigas da televisão, de negacionistas das vacinas”, conclui.
Assim que reparou na multidão, disse à mulher: “Vamos ter chatice, mas temos que avançar.” Já no restaurante, verificou que os manifestantes passaram de “algumas dezenas” para “centenas”.
“Lá dentro percebi que tinham cercado o restaurante. Uma senhora com megafone”, testemunha, sem se recordar se os arguidos entraram no estabelecimento. Apresar de ter assumido que prescindiu, nesse trajeto até ao restaurante, da segurança pessoal de Estado, acrescenta que pediu este apoio quando, durante a refeição, percebeu que os insultos continuavam e estavam mais pessoas concentradas.
Admite que comeu “calmamente”, sem se deixar ser intimidado, e pediu o apoio dos seguranças “20 minutos antes” de sair do restaurante. Assim que se dirigiu para o carro, que o motorista estacionou perto da entrada do estabelecimento, os insultos terão subido de tom. “Aquilo era uma ofensa gravíssima à 2.ª figura da República”.
Nesse trajeto, acredita que só não foi agredido “porque estava protegido pelos seguranças”.
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Depois de Ferro Rodrigues, falou em tribunal a agente da PSP que estava, na altura dos factos, na equipa responsável pela defesa do Presidente da Assembleia da República (AR). “Estávamos a fazer serviço com o Presidente da AR. Voltamos ao Parlamento depois do funeral de Jorge Sampaio”, detalha. Dispensados do serviço, a equipa manteve-se no Parlamento, onde receberam uma chamada do motorista de Ferro Rodrigues a avisar que o político ia almoçar com a mulher.
“Como ele não deve andar sozinho” os agentes seguiram “a caminho do restaurante”. Nesse momento, receberam uma chamada do motorista “a dizer que a esposa [de Ferro Rodrigues] tinha ligado a explicar que estavam num restaurante a almoçar e que estavam a ser importunados por pessoas a bater no vidro”.
Na versão da testemunha, “as coisas estavam calmas” enquanto o político comia no restaurante, mas quando se aperceberam da presença dos polícias, os manifestantes disseram: “Lá vêm os capangas. Nós não temos medo de vocês”.
“Quanto estão a sair, começa-se a juntar um aglomerado de pessoas. Liguei para a esquadra por uma questão de segurança e por proteção da entidade. Começaram aos gritos, com apitos, com megafones”, relata a polícia, que identifica facilmente três pessoas: a senhora que segurava o megafone, um homem que estava a gravar e a mulher que lhe arrancou cabelos.
“É quando temos de entrar no carro que as pessoas se mandam para cima de nós. Tivemos de conter as pessoas. Senti o puxar de cabelo e vi que a pessoa estava escondida”, detalha.
Só quatro dos dez acusados de agredir e insultar Gouveia e Melo falaram em tribunal
Esta segunda-feira arrancou o julgamento dos dez arguidos acusados de injúrias e tentativas de agressão a Henrique Gouveia e Melo, à data dos factos vice-almirante e coordenador da task force da vacinação, e Eduardo Ferro Rodrigues, então Presidente da Assembleia da República. As próximas sessões estão marcadas para o dia 26 de junho e 3 de julho.
Chegada do vice-almirante Gouveia e Melo ao centro de vacinação de Odivelas.
O coordenador da task-force foi interpelado por manifestantes anti-vacinas que o acusaram de ser um “assassino”.
Vídeo: José Carlos Duarte/Observador pic.twitter.com/F0eaIYFnDH— João Porfírio (@porfiriojoao1) August 14, 2021
Esta manhã, antes de Ferro Rodrigues prestar depoimento, quatro dos dez arguidos aceitaram prestar declarações, apesar de terem estado todos presentes na sala do Tribunal Central Criminal de Lisboa.
Dois arguidos, segundo a Lusa, abordaram o episódio com Ferro Rodrigues, que foi insultado por um grupo de ‘negacionistas’ quando saía de um restaurante na companhia da mulher. O primeiro arguido ouvido admitiu que chamou “pedófilo” e “genocida” ao então Presidente da Assembleia da República, mas diz que não se lembra de ter chamado “assassino” e “canalha”, segundo a agência de notícias.
Os outros dois arguidos ouvidos abordaram o momento em que Henrique Gouveia e Melo foi insultado ao entrar no centro de vacinação de Odivelas. Um explicou que gritou “assassino”, outro detalha que disse “Capitão iglo, paga-me um shot”, escreve a Lusa.
O Tribunal Central de Instrução de Lisboa entendeu existirem indícios suficientes para julgar dez dos 12 arguidos do Ministério Público pelos crimes de ofensas à integridade física agravada na forma tentada, ameaça agravada, injúria agravada e dano qualificado na forma consumada. Alguns arguidos pediram abertura de instrução e a juíza não pronunciou dois arguidos acusados de ofensas à integridade física qualificada na forma tentada.