O dermatologista do Santa Maria que recebeu 715 mil euros por cerca de 500 doentes que operou ao longo de quatro anos diz que “a ideia de escolher cirurgias por valor financeiro é falaciosa”. Em entrevista ao Expresso, Miguel Alpalhão diz que todas as cirurgias que realizou — inclusive aos próprios pais — foram comunicadas, e validadas, superiormente.
O médico é suspeito de, ao longo de vários anos, ter usado em proveito próprio o sistema de agendamento de cirurgias em regime extraordinário (através do chamado sistema SIGIC). No seu caso, era o próprio dermatologista quem inseria nesse sistema os códigos referentes às cirurgias que realizava fora do horário, e que se traduziam em rendimentos acrescidos. A esse respeito, contesta a ideia de ganhos irregulares e garante, na mesma entrevista, que “o que determina o valor a pagar é o GDH [grupos de diagnósticos homogéneos], que é gerado com a codificação dos diagnósticos e dos procedimentos, bem como de variáveis intrínsecas do doente”.
“Operei quem precisava de ser operado, segundo as regras que foram definidas superiormente, fiz as cirurgias que estão registadas na melhor qualidade técnica de que fui capaz e registei as comorbilidades que estavam disponíveis nos processos dos doentes, a quase totalidade por observações e registos de colegas de outras especialidades”, diz o dermatologista ao Expresso.
Alpalhão atira ainda aos superiores hierárquicos no Hospital de Santa Maria, a quem atribui a responsabilidade de ter validado todos os procedimentos em que o médico interveio. “O tipo e número de cirurgias foram sempre comunicados pelo diretor do serviço à equipa e fundamentadas, segundo me é dado entender, em autorizações superiores.” E recusa a ideia de ter tido ganhos “financeiramente superiores” aos de outros colegas da instituição.
Condena, ainda a “especulação” que considera que se criou à volta do seu caso, com suspeitas de adulteração dos códigos atribuídos às cirurgias que conduziu. E refere que “a taxa de correção da codificação [das suas cirurgias] rondava os 99.5%”. “Acredito que o resto da bolha mediática rebentará quando ficar demonstrado que não incorri em ilícitos dolosos ou cometi qualquer desconformidade com as regras que me foram comunicadas.”
Quase um mês depois de o caso ter sido divulgado pela CNN, Miguel Alpalhão defende celeridade da investigação e diz que ainda não foi chamado nem Inspeção Geral das Atividades de Saúde, pela Ordem dos Médicos ou pelo Ministério Público.