Uma dermatologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, terá recebido cerca de 113 mil euros em cirurgias realizadas em apenas sete sábados, segundo avançou a CNN Portugal, em mais um caso a abalar o serviço daquela unidade hospitalar.
Desta feita, trata-se de uma dermatologista, Rita Travassos, que terá registado em seu nome cirurgias em horário adicional. Isto terá ocorrido, por exemplo, a 14 de maio, quando Rita Travassos estava num congresso em Itália, bem longe do Hospital de Santa Maria, mas teve cirurgias registadas em seu nome nesse período — de acordo com a CNN, as cirurgias nessa data terão sido feitas por médicos internos.
A especialista clínica recusou fazer comentários à CNN Portugal após serem apuradas estas informações sobre a sua atividade cirúrgica registada em horário adicional.
Um dermatologista daquele serviço falou sob anonimato para denunciar que a Dermatologia do Hospital de Santa Maria “é uma anarquia completa” e criticar os valores pagos por estas cirurgias em horário adicional são “obscenos”.
Em maio, a estação do grupo TVI/CNN tinha avançado que um dermatologista, Miguel Alpalhão, tinha recebido cerca de 400 mil euros em cirurgias realizadas em horário adicional, dos quais 51 mil euros em apenas um sábado, tendo ainda efetuado procedimentos aos próprios pais ao abrigo do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC).
Miguel Alpalhão veio negar quaisquer “ilícitos dolosos” esta quinta-feira, em entrevista ao Expresso, reiterando que “o tipo e número de cirurgias foram sempre comunicados pelo diretor do serviço à equipa e fundamentadas (…) em autorizações superiores”.
Na sequência da divulgação desse caso, o Ministério Público e a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) anunciaram a abertura de inquéritos. A IGAS referiu também que avançaria com uma auditoria aos factos relacionados com a atividade cirúrgica realizada em produção adicional e classificação dos doentes em grupos de diagnósticos homogéneos (GDH), no Serviço de Dermatologia da Unidade Local de Santa Maria, desde 2021 até ao momento.
Em causa está, essencialmente, o Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC), que permite fazer cirurgias fora do horário laboral, de modo a mitigar as longas filas de espera nos hospitais, com uma remuneração superior para os profissionais de saúde responsáveis pela realização desses procedimentos.
*Artigo atualizado às 22h40 para clarificar que as cirurgias realizadas por médicos internos terão ocorrido pelo menos no dia 14, sem confirmação das restantes