Os ataques dos Estados Unidos da América às centrais nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan, na madrugada deste domingo, marcaram uma viragem na guerra entre Israel e o Irão, com o envolvimento norte-americano a gerar mais dúvidas do que certezas sobre o futuro do Médio Oriente, o estado do programa nuclear iraniano e uma eventual escalada internacional do conflito.
Foi já perto da uma da manhã em Lisboa que se soube do lançamento do ataque norte-americano, no qual estiveram envolvidas 125 aeronaves militares norte-americanas, com destaque para sete bombardeiros B-2, que saíram para um voo de 18 horas para visar aquelas três estruturas nucleares iranianas.
O “sucesso” do ataque, segundo a administração dos EUA
Do lado americano, a mensagem oficial sobre o ataque lançado pelos bombardeiros B-2, denominado Midnight Hammer, foi praticamente unânime: do “sucesso militar espetacular” anunciado pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, no curto discurso realizado na Casa Branca, ao “sucesso incrível e avassalador” verbalizado pelo Secretário de Defesa, Pete Hegseth, na manhã deste domingo, numa conferência de imprensa realizada no Pentágono ao lado do general Dan Caine.
Trump assinalou também que “as principais instalações de enriquecimento nuclear do Irão foram completa e totalmente obliteradas”, após um “ataque de precisão massivo” para conseguir executar “uma operação como o mundo não via há muitas e muitas décadas”, acrescentado ainda na sua rede social Truth Social que “Fordow desapareceu”. Já na noite deste domingo, chegou mesmo a declarar que os EUA tinham tirado “a bomba das mãos” iranianas.
Sobre os danos nas centrais nucleares iranianas, Pete Hegseth limitou-se a declarar que os ataques norte-americanos “devastaram o programa nuclear iraniano”, sem atingir outros alvos militares ou população civil. O Secretário da Defesa destacou o ataque desferido às instalações subterrâneas de Fordow para defender que “conseguiu destruir as suas capacidades”, mas sublinhou que é preciso analisar mais dados: “A avaliação dos danos da batalha está em curso, mas a nossa avaliação inicial (…) é que todas as nossas munições de precisão atingiram onde queríamos que atingissem e tiveram o efeito desejado.
Bluff, dissuasão e poder militar. Ao atacar o Irão, querem os EUA voltar a ser o polícia do mundo?
O membro da administração liderada por Donald Trump dedicou boa parte da sua intervenção a elogiar o Presidente dos EUA, mas sinalizou que a operação Midnight Hammer será o fim do programa nuclear do regime de Teerão. “Muitos Presidentes sonharam dar o golpe final no programa nuclear iraniano. Ninguém o conseguiu até ao Presidente Trump”, frisou.
Menos expansivo do que Trump ou Hegseth sobre a gravidade dos danos nas infraestruturas nucleares iranianas, JD Vance considerou que os EUA atrasaram “substancialmente” a capacidade do Irão de vir a desenvolver uma arma nuclear. “Não vou entrar em informações sensíveis sobre o que vimos no terreno no Irão, mas vimos muita coisa e estou muito confiante de que atrasámos substancialmente o desenvolvimento de uma arma nuclear, e era esse o objetivo deste ataque”, referiu.
Instado a comparar a sua descrição mais contida dos danos com a análise de obliteração total efetuada por Donald Trump, o vice-Presidente norte-americano — um conhecido isolacionista e defensor de uma política de não intervenção americana em conflitos no exterior — relativizou a terminologia adotada: “Severamente danificado versus obliterado — não sei exatamente qual é a diferença”.
No entanto, a CNN , citando fontes próximas do ataque, revelou que os EUA terão retido o uso das bombas MOP na central de Isfahan, ao contrário do que fizeram nas estruturas de Fordow e Natanz. A infraestrutura de Isfahan concentra, alegadamente, cerca de 60% das reservas de urânio enriquecido iraniano no subsolo e um especialista disse à estação televisiva norte-americana, após analisar imagens de satélite, que os danos na instalações estarão restritos às estruturas à superfície.
Irão confirma ataques, mas relativiza danos
Pouco depois de ser conhecido o ataque, as autoridades iranianas confirmaram que as infraestruturas nucleares de Fordow, Natanz e Isfahan foram visadas, mas sem se alongarem em descrições públicas e oficiais sobre o impacto das bombas MOP — capazes de destruir complexos subterrâneos a grande profundidade — e dos mísseis ‘Tomahawk’. Por agora, a tónica das reações iranianas centra-se na condenação da decisão da Casa Branca e no direito do Irão a retaliar ao ataque dos EUA.
Até ao momento, os dados oficiais divulgados pelo regime de Teerão relataram somente a existência de 11 feridos, mas a maioria já deixou inclusivamente o hospital.
Paralelamente, a organização do Crescente Vermelho — o equivalente da Cruz Vermelha nos países de maioria muçulmana — referiu que não foi registada qualquer variação nos níveis de radiação após os ataques às três instalações nucleares. Já anteriormente um dos responsáveis da televisão estatal iraniana tinha declarado que o Irão tinha movido “há algum tempo” a maior parte do urânio e das máquinas.
“[O Irão] não sofreu um grande golpe porque os materiais já tinham sido retirados”, afirmou Hassan Abedini na televisão estatal.
A única consequência formal que emanou de Teerão após os ataques foi a decisão do Parlamento iraniano de aprovar o fecho do Estreito de Ormuz, uma via crucial para o transporte de cerca de 20% do petróleo mundial, gerando receios de uma possível crise petrolífera e de uma nova convulsão nas bolsas internacionais.
A avaliação possível da Agência Internacional da Energia Atómica
O líder da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, fez já um ponto de situação sobre o estado das infraestruturas nucleares atingidas pelos EUA e transmitiu as informações disponíveis até ao momento na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que esteve reunido este domingo a pedido do Irão.
Sobre a infraestrutura de Fordow, a principal localização iraniana para o enriquecimento de urânio a 60% (muito acima do limiar de 5% estabelecido para fins civis), Grossi revelou que “são visíveis crateras nas instalações” e que as imagens apontam “a utilização pelos Estados Unidos da América de munições de penetração no solo”, confirmando o que tinha sido anunciado por Washington. Rafael Grossi salientou ainda que neste momento nem a AIEA está em posição de ”avaliar os danos subterrâneos em Fordow”.
Quanto a Natanz, o responsável da AIEA lembrou que Israel já tinha atingido anteriormente as instalações, mas que o ataque norte-americano teria consistido igualmente no uso de “munições de penetração no solo”.
Finalmente, em relação a Isfahan, Rafael Grossi confirmou que “as entradas dos túneis utilizados para o armazenamento de material enriquecido parecem ter sido atingidas”, dando ainda conta de que “outros edifícios foram atingidos durante a noite”. Entre estes edifícios incluem-se estruturas relacionadas “com o processo de conversão de urânio”.
Na sequência destes esclarecimentos, o líder da AIEA convocou para segunda-feira uma sessão especial do Conselho de Governadores do organismo de vigilância nuclear das Nações Unidas, a ter lugar em Viena (Áustria).