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▲Donald Trump deu ordens para atacar três instalações nucleares no Irão, deixando de lado a não intervenção em conflitos externos

The Washington Post via Getty Im

▲Donald Trump deu ordens para atacar três instalações nucleares no Irão, deixando de lado a não intervenção em conflitos externos

The Washington Post via Getty Im

Bluff, dissuasão e poder militar. Ao atacar o Irão, querem os EUA voltar a ser o polícia do mundo?

Trump e aliados têm defendido política de não-intervenção, mas EUA atacaram o Irão eficazmente, numa operação que envolveu bluff e surpresas. "Dissuasão americana está de volta", declarou Hegseth.

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America First. Este foi um dos lemas que Donald Trump mais repetiu desde que chegou à Casa Branca. A ideia consistia em colocar a América em primeiro lugar, apostando numa postura isolacionista. Contrariando a política norte-americana desde o final da Segunda Guerra Mundial, o Presidente norte-americano considerava que Washington não devia desempenhar o papel de “polícia do mundo”, devendo focar-se nos problemas internos. Na campanha eleitoral para as presidenciais de 2024, assumiu-se como aquele que “nunca começou ou começaria guerras”.

No entanto, cinco meses depois de ter começado o seu segundo mandato, Donald Trump deu ordens para atacar três instalações nucleares no Irão. Deixando de lado a não intervenção em conflitos externos, a presidência norte-americana levou a cabo a operação Midnight Hammer, entrando abertamente ao lado de Israel na guerra. Os alvos foram escolhidos a dedo, incluindo o centro de enriquecimento de urânio em Fordow, mas o chefe de Estado admitiu ir mais longe: “Se a paz não vier rapidamente, vamos atrás dos outros alvos com precisão, velocidade e competência”.

Numa conferência de imprensa este domingo, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, parecia ter oficializado o fim do não-intervencionismo norte-americano, tantas vezes defendido por Donald Trump. “A dissuasão norte-americana está de volta. Quando este Presidente fala, o mundo vai ouvir”, afirmou o líder do Pentágono, acrescentando que, sempre que estiverem em risco “os parceiros, pessoas ou interesses” dos EUA, não é colocada de parte uma resposta militar “decisiva e rápida”.

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▲ "A dissuasão norte-americana está de volta. Quando este Presidente fala, o mundo vai ouvir", declarou Pete Hegseth

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Esta nova retórica gera alguns anticorpos naqueles que rodeiam Donald Trump. Por exemplo, o vice-presidente norte-americano sempre se assumiu como um isolacionista. Na guerra da Ucrânia, JD Vance criticou inúmeras vezes o apoio que Washington concedeu a Kiev. No Médio Oriente, manteve sempre várias dúvidas sobre a resposta norte-americana. Este domingo, ainda que tenha apoiado a operação Midnight Hammer, afirmou que os Estados Unidos “não estão em guerra contra o Irão”, mas contra o “programa nuclear iraniano”. 

A fação mais radical do Partido Republicano — Make America Great Again (MAGA) — é bastante vocal nesta política não-intervencionista. Porém, Donald Trump ignorou as opiniões destes apoiantes e atacou o Irão. E Pete Hegseth não afastou uma guerra prolongada contra o Irão. “Tudo pode acontecer num conflito, reconhecemos isso”, disse, lembrando que as “capacidades das Forças Armadas norte-americanas são ilimitadas”.

A operação Midnight Hammer e a demonstração do poderio militar norte-americano

No discurso ao final da noite de sábado (madrugada em Portugal), Donald Trump elogiou a atuação das Forças Armadas norte-americanas nos ataques contra três instalações nucleares — Fordow, Natanz e Esfahan. “As principais instalações de enriquecimento nuclear do Irão foram completa e totalmente obliteradas. O Irão, o bully do Médio Oriente, tem agora de fazer a paz”, disse o Presidente norte-americano. “Se não o fizer, os futuros ataques serão muito maiores e muito mais fáceis. Há 40 anos que o Irão diz ‘Morte à América, morte a Israel’.”

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▲ Donald Trump falou ao povo norte-americano para justificar os ataques

Getty Images

Colocando na mira o bully do Médio Oriente, Donald Trump justificou assim a operação militar. A ideia que fica patente é também o slogan Peace Through Strength (Paz Através da Força) — os meios militares podem ser utilizados caso o objetivo final seja o cessar das hostilidades. Contudo, o Presidente dos EUA foi mais além do que isso; no discurso, ameaçou que o país pode ir atrás de outros alvos iranianos “com precisão, velocidade e competência”.

“Não há força militar no mundo que pudesse fazer aquilo que nós fizemos esta noite, nem de perto. Nunca houve qualquer força militar que pudesse fazer o que aconteceu há pouco”, saudou Donald Trump. Este domingo, Pete Hegseth voltou a frisar este ponto: apenas as Forças Armadas norte-americanas poderiam ter feito uma operação desta envergadura.

A operação militar Midnight Hammer demorou meses a ser preparada, até que o Presidente norte-americano desse a ordem de ataque. De acordo com o secretário da Defesa, foi algo “histórico”, que contou com uma grande vantagem: o facto de ninguém “ter sabido de antemão” dos planos. “Foi uma operação complexa e com um elevado grau de risco”, complementou Dan Caine, o chefe do Estado-Maior Conjunto, que falou na mesma conferência de imprensa que Pete Hegseth.

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▲ A operação Midnight Hammer e Dan Caine

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Dan Caine esclareceu que se tratou “de uma missão confidencial com poucas pessoas em Washington a saberem os detalhes operacionais”. A divulgação de informações foi, por isso, controlada ao mais íntimo pormenor. As primeiras informações divulgadas à imprensa ocorreram quando, durante a tarde de sábado, se soube que seis bombardeiros B-2 tinham sido deslocados para a ilha de Guam (o que acabou por ser um engodo).

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A par da discrição que pautou a operação militar, as próprias declarações de Donald Trump pareciam afastar um ataque iminente às instalações nucleares iranianas. Na quinta-feira, o Presidente norte-americano assinalou que apenas tomaria uma decisão duas semanas depois. Tendo em conta a complexidade da operação militar, é garantido que o chefe de Estado norte-americano fez bluff para apanhar as autoridades iranianas desprevenidas.

Uma fonte da administração norte-americana com conhecimento da operação confidenciou ao Washington Post que efetivamente o objetivo era “apanhar os iranianos desprevenidos”, ainda que também houvesse um “fundo de verdade”. Isto porque Donald Trump já estava convencido de que iria atacar as instalações nucleares do Irão, mas ainda reservava para si a possibilidade de o cancelar à última hora.

Dezenas de aviões, um submarino e 40 bombas e mísseis lançados em apenas 25 minutos. Como foi o ataque dos EUA ao Irão?

A operação demorou meses a ser preparada. Dan Caine assegurou que Washington manteve vários “elementos surpresa” e lançou iscos para não dar espaço para o Irão reagir. E é esta capacidade de surpreender que as Forças Armadas conjuntas norte-americanas “fazem melhor do que ninguém no mundo”. O responsável militar assegurou também que os Estados Unidos agiram sozinhos nesta operação militar — e não contaram com Israel.

Esta operação militar, como salientaram os responsáveis norte-americanos, é uma demonstração das capacidades únicas das Forças Armadas norte-americanas. E é com base nas mesmas que Donald Trump pode ajudar a afirmar-se na comunidade internacional. A mensagem enviada pela sua administração é clara: os EUA têm um poderio militar que pode eficazmente retaliar contra quem lhe fizer frente.

Neste contexto, esta forte componente de dissuasão sublinhada por Pete Hegseth e Dan Caine pode servir para evitar uma retaliação iraniana. Seria uma “decisão muito má” se o Teerão contra-atacasse, descreveu o líder do Pentágono, que explicou que a escalada da operação Midnight Hammer foi “intencionalmente limitada”, mas as “capacidades das Forças Armadas norte-americanas são ilimitadas”. “Acreditamos que tenha um efeito psicológico nos iranianos”, destacou o secretário da Defesa.

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▲ Bombardeiros B-2 usadas na Midnight Hammer

GC Images

Uma exceção do uso da força ou uma situação que pode tornar-se regular?

Uma retaliação iraniana está obviamente a preocupar os dirigentes norte-americanos. Mesmo que o regime dos ayatollahs esteja mais frágil, Teerão já deu provas de que consegue surpreender com ataques subversivos. Na conferência de imprensa deste domingo, Dan Caine assumiu que Washington está a adotar uma abordagem “proativa e não reativa”. “Estamos a ser muito ponderados a proteger as nossas Forças Armadas”, vincou o militar.

A retórica mais recente da administração Trump pode ser, assim, mais uma forma de intimidar o regime iraniano a não agir contra os Estados Unidos — e não significar uma alteração de fundo da atual política externa norte-americana. Durante o primeiro mandato, no início de 2020, Donald Trump tomou medidas contra o Irão, assassinando o comandante da força de elite Quds da Guarda Revolucionária do Irão, Qasem Soleimani. A presidência norte-americana ficou-se por aí e não avançou com mais nenhum plano idêntico.

Na mesma linha, Donald Trump sempre se opôs ao programa nuclear iraniano, repetindo por inúmeras vezes — e ao longo dos anos — que o Irão não podia ter uma bomba nuclear. No seu primeiro mandato, retirou os Estados Unidos do acordo nuclear estabelecido entre Irão, EUA e vários países europeus, mas continua a declarar que Teerão não pode desenvolver essa arma. Por outras palavras, se este objetivo for concretizado, o Presidente norte-americano poderá abandonar esta política intervencionista nos assuntos do Médio Oriente.

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▲ Donald Trump e Marco Rubio na Situation Room

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O vice-presidente apontou precisamente para esse cenário. Numa entrevista à ABC News, JD Vance garantiu que os Estados Unidos “não se querem envolver” num conflito no Médio Oriente. “Estamos envolvidos num esforço muito direcionado para eliminar o programa nuclear iraniano. Este vai continuar a ser o objetivo da política externa norte-americana. E este é o objetivo que vai guiar as nossas ações — nas próximas semanas e meses”, clarificou, rejeitando também que os Estados Unidos pretendiam mudar o regime iraniano.

Independentemente disso, não é certo como é que Donald Trump vai agir. O Presidente norte-americano já deu provas de que pode reagir de forma imprevisível quer no que diz respeito à operação militar iraniana, quer na forma como gere a política internacional dos Estados Unidos — e muitas vezes por iniciativa própria.

Muitos aliados do Presidente norte-americano, como Pete Hegseth, elogiaram a movimentação, sendo uma demonstração da abordagem Peace Through Strength. O líder da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, escreveu no X que a operação militar no Irão deve servir como um “lembrete claro aos adversários e aliados que o Presidente Trump fala a sério”: “O Presidente deu ao líder do Irão todas as oportunidades para fazer um negócio, mas o Irão recusou-se a comprometer-se a um acordo de desarmamento nuclear”.

"Estamos envolvidos num esforço muito direcionado para eliminar o programa nuclear iraniano. Este vai continuar a ser o objetivo da política externa norte-americana. E este é o objetivo que vai guiar as nossas ações — nas próximas semanas e meses."
Vice-presidente dos EUA, JD Vance

A ideia que Donald Trump quer transmitir — e que os seus aliados repetiram — é que a força militar pode ser usada pelos Estados Unidos, mas apenas numa situação em que as vias diplomáticas chegam a um “beco sem saída”, como definiu Pete Hegseth.

Mesmo assim, subsistirá para sempre uma sombra de dúvida sobre as verdadeiras capacidades nucleares do Irão e se se chegou mesmo a um “beco sem saída”. Donald Trump assegurou que teve acesso a informações confidenciais que provam que Teerão conseguiria fabricar uma bomba nuclear no prazo de “duas semanas”. Mas as declarações da chefe dos serviços secretos, em março de 2025, levantam questões sobre se efetivamente havia uma justificação para a operação militar — na altura, Tulsi Gabbard afirmou que o Irão não tinha recomeçado o programa nuclear.

Depois de ter sido corrigida por Donald Trump publicamente, Tulsi Gabbard veio esclarecer a sua posição. Criticando os “meios de comunicação sociais desonestos”, a líder das secretas afirmou no X que “a América tinha informações confidenciais de que o Irão podia produzir uma arma nuclear desde semanas a meses, se decidirem finalizá-la”. “O Presidente Trump tem sido claro que isso não podia acontecer e eu concordo.”

Com ou sem justificação, a retórica e a decisão de atacar o Irão marcou um revés em relação a declarações antigas de Donald Trump. Ao Financial Times, Dana Stroul, membro do think tank Washington Institute for Near East Policy, afirma: “Trump repetidamente afirmou a sua preferência pela diplomacia, o seu desejo de fazer um acordo, o seu desejo de ser julgado pelas guerras nas quais os Estados Unidos nunca participaram”. “Cinco meses depois, na segunda administração, colocou os Estados Unidos em conflito direto com o Irão.” 

Como Trump já irrita alguns republicanos, mas deverá “convencê-los”

Quer Donald Trump ser o “polícia do mundo”? Houve Presidentes que assumiram claramente essa postura na História norte-americana. Não há nada que indicie que o chefe de Estado queira assumir essa postura — o que seria, aliás, interpretado como uma traição por parte do seu eleitorado. Por agora, a força militar, na dinâmica do trumpismo, aparentemente pode ser utilizada em último recurso na ótica da Paz Através da Força.

Mesmo com este âmbito limitado, há vários aliados que mostraram desagrado com as ações de Donald Trump no Irão. Steve Bannon, o antigo estratega da Casa Branca, realçou, logo após os ataques norte-americanos a território iraniano, que “grande maioria das pessoas [nos EUA] não querem estar envolvidas com isto”, criticando também Israel por “essencialmente forçar o Presidente Trump” a entrar na guerra.

epa11911590 Political strategist Steve Bannon at the Conservative Political Action Conference (CPAC) 2025 at National Harbor, Maryland, USA, 20 February 2025. The Conservative Political Action Conference is an annual political conference attended by conservative activists and elected officials from across the United States and beyond.  EPA/WILL OLIVER / POOL

▲ Steve Bannon foi dos primeiros a criticar as ações militares dos EUA

WILL OLIVER / POOL/EPA

A congressista Marjorie Taylor Greene, pertencente à ala mais radical do Partido Republicano, lamentou as ações do Presidente. “Cada vez que a América está perto da grandeza, envolvemo-nos numa guerra estrangeira. Não haveria bombas a cair em Israel se Netanyahu não tivesse bombardeado primeiro o povo do Irão. Israel é uma nação com armas nucleares. Esta não é a nossa luta. A paz é a resposta”, escreveu no X.

Há certamente alguns desiludidos na base eleitoral do MAGA. Ainda assim, até ao momento, Donald Trump parece ainda ter o voto de confiança da maioria dos seus apoiantes. Charlie Kirk, uma das figuras mais preponderantes do trumpismo, defendeu o chefe de Estado nas redes sociais: “O Irão não deu ao Presidente Trump qualquer escolha. Durante décadas, ele apoiou que o Irão não tivesse armas nucleares. O Irão decidiu ignorar a diplomacia para fabricar uma bomba. É um golpe estratégico, operacionalizado na perfeição. O Presidente Trump agiu com prudência e decisão.”

Embora tendo criticado a operação militar e sendo abertamente contra, Steve Bannon preconizou também que Donald Trump se irá explicar melhor. “Há muitos simpatizantes com o movimento MAGA que não estão contentes com isso. Acredito que [Trump] vai convencer o MAGA, mas vai ter de o explicar bem”, anteviu o ex-conselheiro.

Em declarações à Axios, uma figura influente dentro do movimento MAGA garantiu que haverá apoio à “escolha do Presidente”. Mas deixou um aviso: este ataque tem de ser único e não pode repetir-se. O facto de os Estados Unidos ajudarem Israel — um país que muitos evangélicos norte-americanos estimam — também ajuda a convencer a base eleitoral.

De qualquer forma, a presidência norte-americana também foi tentando seduzir as vozes mais ativas na base eleitoral do trumpismo. Steve Bannon e Charlie Kirk foram convidados a ir à Casa Branca para garantir que as suas preocupações eram ouvidas. Uma fonte da Casa Branca contou ao Washington Post que Donald Trump “ouviu” as diferentes perspetivas ideológicas dentro da base eleitoral.

“Em última instância, o Presidente sentiu que a base eleitoral ia apoiar esta decisão, porque estava a prevenir um conflito que poderia muito bem acontecer se o Líder Supremo instruísse o Irão a criar uma bomba nuclear”, sintetizou a mesma fonte. Sabendo de antemão que eram contra os ataques, Donald Trump até ouviu vozes que discordavam dele — como a de Steve Bannon, que almoçou com o chefe de Estado na quinta-feira.

“Falcões” de um lado, “pombas” do outro. Guerra Irão-Israel divide aliados de Trump, que pressionam decisão final do Presidente

Conjugar os slogans de Colocar a América em Primeiro Lugar com A Paz Através da Força pode levar a uma contradição, como ficou visível nos ataques norte-americanos ao Irão. Por breves momentos, os EUA provaram que, mesmo que não o Presidente se afaste desse rótulo, ainda são um dos principais “polícias do mundo”, enfrentando os adversários com grande eficácia. Com a imprevisibilidade que lhe é característica, Donald Trump vai escolher se prefere manter-se fiel à base eleitoral ou se vai mudar a sua abordagem na política externa.

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