Siga aqui o liveblog do Observador sobre a guerra no Médio Oriente
“Temos um território em que estamos e a ordem é: toda a gente que entrar tem de morrer.” A descrição do cenário na Faixa de Gaza foi feita por um soldado israelita, numa entrevista sob anonimato à Sky News, em que revelou a dimensão do assassinato arbitrário de civis palestinianos no enclave por parte das forças armadas israelitas.
O soldado, que já cumpriu três comissões de serviço em Gaza como elemento da 252.ª Divisão das Forças de Defesa de Israel, explicou que decidiu falar à estação britânica por dever de consciência: “Sinto que fiz parte de algo mau e tenho de o contrariar fazendo algo bom, falando em público, porque estou muito perturbado por aquilo de que fiz parte e de que ainda faço parte como soldado e cidadão deste país.”
Na entrevista, o militar descreve o modo como as forças israelitas recebiam instruções para delimitar áreas proibidas e para abater todas as pessoas que entrassem nessas áreas proibidas. De acordo com o soldado, a informação recebida pelos soldados era a de que os palestinianos sabiam dos limites das áreas proibidas. O militar, contudo, diz que é impossível saber se os civis tinham realmente toda essa informação.
Benjamin Netanyahu já está em Washington para se reunir com Donald Trump
“Se eles entram, são perigosos e temos de os matar, não interessa quem são”, explicou o soldado, acrescentando que a decisão cabia, arbitrariamente, a cada comandante. Alguns líderes, sublinhou o militar, determinavam que, em vez de serem abatidos, aqueles que entrassem nas zonas proibidas deveriam ser detidos.
Numa das suas passagens por Gaza, o soldado esteve colocado no corredor de Netzarim. Os militares estavam instalados numa zona residencial, adjacente a uma área civil — e chegavam a pernoitar nas casas de palestinianos deslocados. A zona controlada pela unidade militar era delimitada por uma “linha invisível” que, segundo era dito aos soldados, os palestinianos conheciam.
“Numa das casas onde estivemos, tínhamos um grande território. Era o mais próximo do bairro civil, onde viviam pessoas. E havia uma linha imaginária que nos diziam que o povo de Gaza conhecia e que sabia que não podia cruzar. Mas como é que podiam saber?”, questiona-se o soldado, sublinhando que a maioria das pessoas que cruzavam essa fronteira invisível eram abatidas. “Era toda a gente que vinha ao território, e podia ser apenas um adolescente numa bicicleta.”
Na entrevista à Sky News, o militar destacou ainda que entre os soldados israelitas havia a ideia generalizada de que todos os habitantes em Gaza eram terroristas — uma ideia que os comandantes das unidades não só não negavam como encorajavam. Entre os soldados, o tom das conversas sobre os palestinianos mortos era dominado pelo ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023. “Eles diziam: ‘Sim, mas estas pessoas não fizeram nada para evitar o 7 de Outubro e provavelmente divertiram-se enquanto isto nos acontecia. Por isso, merecem morrer.’ As pessoas não têm compaixão deles.”
“Penso que muitos deles verdadeiramente sentiram que estavam a fazer algo de bom”, considera o soldado. “Penso que, na cabeça deles, estas pessoas não são inocentes.”
“[Os comandantes] dizem que se alguém vem aqui [à área proibida], é porque sabe que não deve estar lá. Se, mesmo assim, vem, então é porque é um terrorista”, disse o soldado. “É o que nos dizem. Mas não acho que seja realmente verdade. É só gente pobre, civis que não têm muita escolha.”
Ainda assim, lembra o soldado, era frequente que os vários comandantes tomassem arbitrariamente a decisão de abater ou deter qualquer civil que cruzasse as linhas das zonas proibidas. Os corpos dos mortos ficavam, habitualmente, no local onde morriam. “Cada comandante pode escolher o que faz. É como o Faroeste. Alguns comandantes podem decidir cometer crimes de guerra e fazer coisas más e não enfrentam as consequências disso”, sublinhou.
O soldado disse que tomou a decisão de falar publicamente sobre a realidade da guerra em Gaza para dar aos cidadãos israelitas uma imagem mais real sobre o que está a acontecer.
“Penso que na comunidade israelita é muito difícil criticar-se a si própria e ao exército. Muitas pessoas não compreendem aquilo com que estão a concordar. Pensam que a guerra tem de acontecer e que temos de trazer os reféns de volta, mas não compreendem as consequências”, destacou. “Penso que muitas pessoas, se soubessem exatamente o que está a acontecer, não concordariam tanto. Espero que, ao falar, possa mudar o modo como as coisas estão a ser feitas.”
Questionado pela Sky News sobre as alegações feitas pelo soldado, o exército israelita afirmou em comunicado que opera “em estrito respeito pelas regras de combate e pelo direito internacional”, tomando “medidas exequíveis para mitigar o dano causado aos civis”.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 8.º e último episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui e o sétimo aqui]