Em 2024, várias entidades reuniram-se num fórum promovido pelo CHUDE – Centro Humberto Delgado e pelo Museu Nacional Resistência e Liberdade (MNRL) a fim de discutir formas de preservar a memória histórica da oposição à ditadura em Portugal. Daí surgiu o fito de criar a rede RESIST, apresentada esta quarta-feira em Peniche.

Composta por 19 entidades distintas, a rede inclui desde a Fundação José Saramago ao Museu de Angra do Heroísmo, passando pelas câmaras municipais de Grândola ou da Sertã, além das acima mencionadas. Em comunicado, o MNRL afirma que a RESIST pretende “resgatar, estudar e difundir o conhecimento sobre as múltiplas formas de resistência à ditadura, promovendo o património material e imaterial associado a esta luta e afirmando os valores da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos”. Em declarações ao Observador, Aida Rechena, diretora desse mesmo museu, explica como se deu esta iniciativa e quais os primeiros passos a tomar.

“A primeira ideia que esteve na base foi mesmo identificarmo-nos uns aos outros. Ou seja, quem é que em Portugal está a trabalhar com as memórias da resistência e da oposição à ditadura”, conta, em vésperas da apresentação.

Se, por um lado, o ano de atividade cumprido pelo MNRL desde que abriu portas a 27 de abril de 2024 serviu para esta instituição estabelecer contactos de forma orgânica com outras entidades de propósito similar, houve também um trabalho de fundo para chegar a outros possíveis parceiros.

“Já tínhamos enviado um e-mail às comunidades intermunicipais a perguntar se nos seus territórios existiam algumas instituições — podiam ser arquivos, museus, núcleos museológicos, ou até escolas que estivessem a fazer projetos sobre as memórias da resistência e da oposição à ditadura. E tivemos algumas respostas de câmaras municipais que depois se reuniram connosco no ano passado no tal fórum no CHUDE”, adianta a diretora do MNRL.

Na Fortaleza de Peniche, uma visita guiada ao novo Museu Nacional Resistência e Liberdade: “Para que ninguém esqueça”

Foi então no decurso dessa reunião que foi possível chegar a “uma plataforma de entendimento comum a todos” para trabalhar aquilo que define como o “património da resistência”. Este consiste não só em identificar as pessoas que resistiram à ditadura, como também os locais relacionados com essa resistência.

No entender de Aida Rechena, “há uma urgência” na coordenação desta rede porque muito do património que trata é imaterial, baseado na experiência de vida em quem se opôs ao Estado Novo e/ou à Guerra Colonial. “Tenho defendido que é importante recolher todos os testemunhos que pudermos dos antigos presos e presas políticos, dos seus familiares e dos opositores que não estiveram presos, porque começam a desaparecer. O 25 de Abril já foi há 50 anos. Portanto, as pessoas vão começar a desaparecer e depois perdemos essa oportunidade de trabalhar com as memórias vivas”, alerta.

Um dos pilares fundamentais da rede é então aproveitar a dispersão geográfica das entidades que a integram, justamente porque “com certeza que em cada um dos territórios destes equipamentos que vão trabalhar na RESIST, haverá antigos presos políticos ou familiares ou opositores. E se chegarem a eles, se entrevistarem, registarem e recolherem [os testemunhos], estamos a constituir património e memórias coletivas para o futuro”. Esse, defende, seria “um grande passo para esta rede”.

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Portugal é apenas o início

Para já, com a apresentação desta quarta-feira, dá-se um primeiro passo — talvez mais pequeno, mas fundamental — de apresentar a rede e a sua “Carta de Compromisso”, assinada por todas as entidades que compõem para já a RESIST.

O objetivo, no entanto, é que mais parceiros se juntem, razão pela qual ainda não há um plano de atuação definido. “Não queremos já estar condicionar nem a fechar. Portanto, isto ainda está tudo muito em aberto”, aponta.

“Isto é mesmo o início daquilo que gostaríamos que fosse uma rede robusta que conduza a um objetivo que é a cartografia da resistência”, adianta, sublinhando assim que a rede é aberta e qualquer entidade que trabalhe este tipo de temática se pode juntar.

Além de já integrar instituições presentes de norte a sul do país e até nas regiões autónomas, a RESIST também já conta nas suas fileiras com o Museu do Campo de Concentração do Tarrafal, o infame local para onde eram enviados presos políticos do regime em Cabo Verde.

“Também convidamos os colegas de África, dos territórios que na altura estavam colonizados por Portugal e onde existem também muitas memórias da resistência”, revela Aida Rechena, frisando que o objetivo da RESIST não se cinge ao combate “à ditadura portuguesa”, alargando-se à “luta pela libertação desses povos”. “Já temos connosco o Tarrafal, mas gostaríamos de alargar a pelo menos um representante de cada um dos outros países”, confessa.

Com um grupo já em vias de consolidação, Aida Rechena diz que agora as diferentes entidades vão sentar-se discutir qual a metodologia para fazer esse tipo de levantamento. “Somos muito dispersos, todos muito diferentes e com tutelas distintas. Portanto, vamos ter de encontrar aqui uma maneira depois de reunir toda a informação e de a apresentarmos de uma forma que seja idêntica”, afirma.

Perante a indefinição do que se segue, a diretora do MNRL sugere que o material recolhido por resultar tanto em projetos individuais como em conjunto, e que se uns podem “fazer exposições, outros podem organizar eventos” destinados ao público. Isso, porém, é apenas uma consequência do primeiro objetivo da RESIST: preservar. “O nosso objetivo último é não deixar esquecer. Não é só mapear — é mapear, registar e preservar, para não deixar esquecer, para que as pessoas tenham a informação do que foi, do que é e daquilo que querem para o futuro”, defende.

Um “sonho antigo” tornado real há um ano

Além da apresentação da “Carta de Compromisso”, a apresentação desta quarta-feira tem ainda como foco uma conferência de Aurora Rodrigues, a magistrada jubilada que foi detida pela PIDE aos 21 anos e sujeita a tortura em Caxias.

Sendo Aurora Rodrigues um símbolo vivo do combate ao Estado Novo, Aida Rechena diz que a sua presença não só é “um prazer” por poder ver-se “a garra daquela mulher na luta contra a ditadura”, como também tem a importância de mostrar “outra forma de luta, porque vivemos em liberdade e em democracia”.

Essa luta de que fala é a que o Museu Nacional da Resistência e Liberdade tem encabeçado desde que abriu, de preservação da memória. Desde que a Fortaleza de Peniche abriu as suas portas e libertou os presos políticos a 27 de abril de 1974, havia o “sonho antigo” de transformá-la num centro memorial à sua luta contra o Estado Novo, não só por parte de quem enfrentou o cárcere, mas também das “famílias e os filhos que aqui vinham visitar”.

Museu da Resistência e Liberdade com 120 mil visitantes no primeiro ano

Ao fim de um ano de atividade, a diretora do museu afirma que “a sociedade portuguesa está a responder muito positivamente”, citando o número de visitantes — 120 mil no espaço de 365 dias — que passaram pelas suas portas. “É claro que ainda estamos na estabilização do museu, a conhecer como funciona, como reage, porque ainda só passou um ano, mas é um balanço muito positivo, quer em termos de visitantes, quer em termos das opiniões que os visitantes nos deixam, dos inúmeros antigos presos e familiares que aqui vêm — há quase sempre alguém que está aí a visitar”, revela.

Essa resposta positiva, confessa, é parte da razão para avançar com uma rede como a RESIST, porque também há interesse do público pela temática. “É disseminar pelo país desta experiência. Não significa que sejam museus; não precisamos de encher o país de museus, mas podem ser projetos, arquivos, lugares, pessoas, memórias, que temos de valorizar. Portanto, acho que sim, é esse alento que a boa repercussão que o museu tem tido nos dá.”