Agora que as conclusões preliminares da polícia espanhola apontam o rebentamento de um pneu e um possível excesso de velocidade como responsáveis pelo acidente que vitimou os irmãos Diogo Jota e André Silva, em contradição com as garantias avançadas pelo camionista que foi ultrapassado instantes antes pelo carro do craque — e que garantiu que não só não circulavam em excesso de velocidade, como ainda parou para os socorrer e tentar dominar (sem sucesso) o incêndio com o seu extintor —, saiba como é e do que é capaz o superdesportivo italiano em que os futebolistas portugueses perderam a vida na noite de 3 de Julho.
Se entre as quatro linhas, Diogo Costa tinha dois amores, defendendo as cores da selecção portuguesa de futebol e do clube britânico Liverpool, uma vez ao volante a sua preferência recaía num Lamborghini Huracán EVO, coupé de dois lugares com um motor de 10 cilindros em “V” e um preço que, em novo, ultrapassa os 300 mil euros. Este “Lambo”, assim é conhecido o construtor italiano, herdou a denominação do famoso touro Huracán, que ganhou reputação nas arenas espanholas no final do século XIX. Assume-se como o mais acessível dos coupés da marca, mas isso não lhe belisca a nobreza da mecânica, animada por um motor V10 e suportada por um chassis híbrido em alumínio e fibra de carbono, que depois é revestido por uma carroçaria em alumínio e materiais compósitos.
De acordo com a marca transalpina de superdesportivos, Diogo Jota era proprietário de um Lamborghini Huracán EVO, embora não exista a certeza se era uma versão com tracção traseira ou se estaria equipado com um sistema de tracção integral, uma vez que o veículo não era novo, nem foi adquirido em Portugal. Ainda assim, em causa estão meros detalhes, dado que em ambas as versões se trata de um coupé relativamente curto (4,52 m), muito largo (1,93 m) e extremamente baixo, já que o seu tejadilho está apenas a 1,16 m do asfalto. Foi com esta fórmula que o fabricante procurou criar um modelo curto para ser ágil, largo para ser estável e baixo para fazer maravilhas ao centro de gravidade, o que é determinante para optimizar o comportamento em curva. A cereja no topo do bolo é a colocação do conjunto motor V10 e caixa de velocidades em posição central traseira, para centrar aí o peso e reduzir drasticamente a massa “pendurada” à frente do eixo dianteiro e atrás do traseiro, mais uma vez para melhorar o comportamento numa utilização desportiva. Para tal, o EVO disponibiliza ainda o sistema ANIMA (de Adaptative Network Intelligent Management), que permite ao condutor optar por um dos três modos de condução — Strada, Sport e Corsa — que alteram a regulação ao nível do chassis, suspensões, motor e caixa de velocidades.
O Lambo Huracán, que está em vias de ser substituído pelo Temerario — outro nome de touro que ficou na história das arenas, com a Lamborghini a manter-se fiel ao animal que exibe no emblema em honra do signo do zodíaco do seu fundador Ferruccio Lamborghini —, é proposto em quatro versões, nomeadamente os Serrato (para pisos de terra ou neve), Tecnica (só com tracção traseira), STO (parecido ao Tecnica, mas com apêndices aerodinâmicos mais exuberantes) e EVO Spyder (o roadster da família). O EVO similar ao do falecido futebolista português foi já retirado de produção na versão coupé com tracção integral (4WD) e com apenas tracção traseira (RWD). Veja em baixo a apresentação publicada no Observador do Lamborghini Huracán Tecnica, uma evolução do Evo RWD similar ao do jogador português.
Ao volante do Huracán Tecnica, o Lamborghini que agrada em pista e surpreende fora dela
O motor do Huracán EVO é o V10 atmosférico da marca (e um dos poucos que existem no mercado com esta arquitectura, dispendiosa, mas que assegura um roncar memorável), com 5204 cc, que extrai 610 cv na versão RWD e 640 cv para os 4WD, sendo que a unidade motriz está acoplada a uma caixa de velocidades com dupla embraiagem e sete velocidades. A velocidade máxima é em ambos os casos de 325 km/h, mas a versão 4WD, por ter menos dificuldades em colocar a potência no asfalto no momento do arranque, ultrapassa a fasquia dos 100 km/h ao fim de apenas 2,9 segundos, contra os 3,3 segundos do EVO com apenas tracção traseira. O Observador já teve a oportunidade de conduzir diversas versões do Huracán e em pista, onde é mais fácil e seguro explorar tudo o que o superdesportivo tem para dar, e o coupé revelou-se sempre tão rápido quanto eficiente, com o modo de condução Corsa a ajudar quem está ao volante a deliciar-se com a generosa potência do V10 e a enorme eficiência do chassi. Em cidade e em estrada, nos modos de condução Strada ou Sport, há mais conforto, menos ruído e maior progressividade do acelerador. Tudo isto torna o Huracán mais civilizado, permitindo uma utilização normal no dia-a-dia, só não sendo aconselhável uma ida às compras, na medida em que a bagageira possui uma capacidade de apenas 100 litros. Mas duvidamos que os clientes do modelo não perdoem facilmente este aspecto negativo…
Como lidar com rebentamento de um pneu como o que vitimou Diogo Jota e André Silva
As versões 4×4 dos Huracán recorrem ainda a um sistema controlado electronicamente Haldex para repartir a potência entre as rodas anteriores e posteriores. De realçar que o imponente V10 não é o motor mais exuberante, sofisticado ou potente da marca do touro, pois esse estatuto pertence ao V12 que anima o Revuelto, o topo de gama da Lamborghini em matéria de coupés. Este modelo soma os 825 cv do motor atmosférico ao rendimento assegurado pelos três motores eléctricos do sistema híbrido plug-in, para atingir 1015 cv.