Sábado, 12h30, antes da hora de almoço, antes da primeira individual de Wimbledon. Por mera coincidência, Carlos Alcaraz e Jannik Sinner coincidiram no período de treino antes da tão aguardada decisão do terceiro Grand Slam da temporada. Cruzaram-se nos acessos de Aorangi Park, não trocaram mais do que uma frase e uma palavra. “Tutto bene, Jannik?”, atirou o espanhol, descontraído como sempre. “Bene“, respondeu logo o italiano, mais concentrado do que nunca. Um trazia toda a sua equipa atrás, outro chegou mais cedo do que os seus dois treinadores. As duas caras da nova Era Dourada não poderiam ser mais diferentes, a forma de encarar uma final é cada vez mais diferente. E era neste contexto que chegava a decisão mais “nova” desde 2006, no primeiro duelo em relva por Wimbledon que Roger Federer e Rafa Nadal travaram.

Novak Djokovic, que parece ter entregue de vez a batuta do ténis aos novos reis do circuito, continua a ser o jogador com mais vitórias de sempre em Majors mas a rivalidade que Alcaraz e Sinner têm construído parece encontrar mais pontos de contacto com o início do duelo entre o suíço e o espanhol. Outro exemplo: nesse mesmo ano de 2006, Federer e Nadal tinham feito a sua primeira final de um Grand Slam em Roland Garros, tal como aconteceu agora com a dupla que em conjunto soma apenas 45 anos (22-23). A única coisa que não encontra ainda paralelo é o aparecimento de um Terceiro Mosqueteiro como aconteceu com o sérvio – sendo justo recordar que durante essa década e meia de domínio da tríada houve também Andy Murray. De resto, são muitos os pontos de contacto. E tal como aconteceu em 2006, quando Federer olhou para essa decisão de Wimbledon como uma “vingança” da derrota em Roland Garros, aqui o contexto era o mesmo.

Alcaraz e Sinner faziam já o 13.º encontro entre si, com vantagem do espanhol nos recentes duelos mas uma vitória do italiano quando se defrontaram nos oitavos da relva londrina em 2022, mas tudo mudara desde a mítica decisão na terra batida francesa que ficou como uma das melhores finais de sempre de Grand Slams. O transalpino teve três match points anulados, o espanhol recuperou mas ainda foi quebrado no quinto set pelo adversário, tudo foi decidido no super tie break do quinto parcial para a coroação de Carlitos. A partir daí, Alcaraz mostrou uma confiança à prova de bala que o colocou numa série de 24 vitórias seguidas, Sinner teve uma passagem fugaz por Halle com uma derrota na segunda ronda e “fechou-se” na sua bolha, a trabalhar como nunca para tentar contrariar uma história que parecia escrita para o adversário ser feliz.

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Era esse sentimento que se vivia na antecâmara da final. Uma final que poderia valer o sexto Grand Slam a Alcaraz com o terceiro triunfo seguido em Wimbledon ou o quarto Grand Slam a Sinner naquela qu e era a sua quarta final consecutiva de um Major. Com uma certeza: era altamente improvável que se visse algo como acontecera na véspera, com Iga Swaitek a “atropelar” Amanda Anisimova com um duplo 6-0…

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“Que parte do jogo de Sinner escolheria para mim? Bom, da minha parte penso que escolheria o backhand dele a deslizar com a perna esquerda… Para mim é dos melhores do circuito, se não o melhor. É mesmo uma brutalidade”, respondia Alcaraz ao jornal Marca após o triunfo diante de Taylor Fritz nas meias-finais. Sem grandes problemas, o espanhol mostrava grande tranquilidade a abordar tudo o que rodeava esta decisão mas sempre a fintar qualquer ponta de favoritismo que lhe fosse atribuído. “Como grande campeão que é, o Jannik aprende de tudo, incluindo das derrotas, dia a dia. Tenho a certeza de que vai estar mais forte tanto física como mentalmente”, apontava o extraterrestre que chegava à final com a melhor percentagem de vitórias em relva na história do ténis (92,1%, 35 triunfos, três derrotas), à frente de Federer e Djokovic.

Do outro lado, aqueles 15 minutos que pareceram uma eternidade em que ficou sentado no chão do balneário a chorar após a derrota em Roland Garros tinham agora a primeira oportunidade de uma redenção. Desde esse contratempo que foi muito mais do que um desaire numa final, Sinner esteve com os pais nos Alpes, tirou uns dias de descanso e entregou-se como nunca aos treinos após um teste em relva mal sucedido. “Foi por causa disso, de todo esse trabalho, que estou de regresso a uma final. É o segundo Grand Slam seguido em que estamos na final, o que acho fantástico para o ténis, mas não nos podemos comparar ao que Federer, Nadal e Djokovic fizeram ao longo de mais de 15 anos… O Carlos é favorito, torna-se complicado ganhar-lhe em relva mas adoro estes desafios”, destacara o transalpino que apanhou um enorme susto frente a Dimitrov nos oitavos até o búlgaro desistir mas que chegava com claros 95% de triunfos no seu serviço.

Essa foi uma das principais “armas” do italiano jogando contra alguém com vantagem anímica no confronto direto, que levava 20 vitórias seguidas em Wimbledon e que somava 24 triunfos consecutivos desde a derrota com Holger Rune na final de Barcelona. Mesmo sentindo que Alcaraz é o novo menino querido do ténis da atualidade, pela forma como festejava os seus melhores pontos, e mesmo começando a final a perder o set inicial com quatro encontros consecutivos do espanhol, Sinner nunca baixou a guarda, foi melhor (em fases do encontro, muito melhor) e conquistou o quarto Grand Slam da carreira em cinco finais, naquele que foi um triunfo histórico também por ser a estreia em Wimbledon contra o antigo bicampeão do torneio.

Apesar de toda essa expetativa, não se pode dizer que o encontro tenha começado com grande “qualidade” ou emoção tendo em conta a vantagem que o serviço ganhava em relação a tudo o resto. Alcaraz abriu com um jogo em branco em que Sinner apenas conseguiu devolver uma bola, Sinner ganhou depois a 30 mas sempre a controlar, Alcaraz venceu também a 30 após chegar ao 40-0, Sinner fez o 2-2 em branco. Só mesmo na quinta partida houve aquilo a que se pode chamar “jogo”, com o espanhol a não ser tão efetivo no serviço frente a um italiano a entrar mais rápido na bola – e com capacidade de escolher para onde queria receber para trabalhar o resto do ponto – e a fazer mesmo o break. Os serviços voltariam depois a entrar mas Sinner tinha essa preciosa vantagem de depender apenas de si para fechar o primeiro set contra um Alcaraz mais confortável quando o serviço não definia o ponto, como aconteceu no break do 4-4 e como voltou a acontecer de seguida para o 6-4, com uma bola do outro mundo em volley a fechar o parcial nas vantagens.

A própria reação das bancadas à forma como fechou esse ponto pareceu deixar Alcaraz “deslumbrado” na longa tarefa que tinha ainda pela frente, abrindo o segundo set com três pontos de break entre nova dupla falta e bolas nos pés que ficaram na rede e o serviço quebrado à terceira tentativa, sendo que logo a seguir perdeu a oportunidade de fazer o contra break. A toada estava marcada, com o transalpino a resistir a jogos de serviço difíceis e o espanhol a cumprir quando tinha o saque apesar de ter falhado cinco serviços seguidos no sétimo encontro que fez o 4-3. Pelo meio, outro grande “momento” paralelo desta final: um espectador abriu uma garrafa de champanhe nas bancadas e a rolha foi aterrar ao court perto do italiano… Não se poderia propriamente antever esse cenário mas a entrada do espanhol no set seria determinante para a decisão, com Sinner a fechar mesmo o segundo parcial com duas bolas fantásticas para o 6-4.

Voltava tudo à estaca zero, quase como se a final de Wimbledon fosse jogada à maior de três e não de cinco. Mais: percebia-se que esta poderia ser uma peça importante para o puzzle montado na decisão mais esperada do ano no ténis. Alcaraz voltou a não começar da melhor maneira, evitando dois pontos de break depois de outra entrada para esquecer, teve de ir às vantagens para segurar o sexto jogo perante um Sinner que estava a aumentar de nível e mostrava um enorme à vontade físico para jogar a campo inteiro, mas não resistiu a novo jogo de serviço com erros proibidos cometidos, perdendo o serviço no 5-4 antes da confirmação do 6-4 por parte do italiano que não só servia melhor como criava dúvidas no jogo do opositor, a tentar sem sucesso vários amorties que causavam mossa em termos anímicos. Sinner estava mais perto da redenção.

Recordando o histórico do espanhol, nada estava perdido. Alcaraz já tinha ganho na relva após estar a perder por 2-1, Alcaraz já tinha conquistado Grand Slams em finais em que esteve a perder por 2-1, Alcaraz ganhara há pouco mais de um mês em Roland Garros após começar a perder por 2-0. No entanto, e ao contrário do que se passara aí, Sinner conseguia neutralizar todas as tentativas do jogador de Múrcia para encontrar um clique que permitisse lutar pela reviravolta, deixando o adversário a olhar meio perdido para os seus técnicos quase a assumir que estava a perder a batalha num cenário adensado pelo break para o 2-1. A família e todos os amigos presentes no seu camarote puxavam por Alcaraz e a oportunidade chegou mesmo, com dois pontos para fazer o 4-4 no serviço de Sinner. Nem assim o espanhol encontrou a rampa para a reviravolta, acabando mesmo por perder o quarto set por 6-4 num jogo que ganhava parecenças… a Roland Garros.