Uma piada sobre a tentativa de assassinato contra Donald Trump vai levar um comediante ao banco dos réus num tribunal alemão. Sebastian Hotz poderá ser condenado a três anos de prisão, no contexto de mais um caso sobre os limites do humor e a liberdade de expressão que tem dividido opiniões na sociedade alemã.
A piada foi feita pouco depois da tentativa de assassinato de Trump, que aconteceu durante um comício a 13 de julho de 2024. Na rede social X, Hotz comparou o ataque falhado ao momento em que alguém perde, por pouco, o autocarro que queria apanhar: “Infelizmente perdeste-o”.
Apesar de o tweet original ter sido apagado, o comediante não pareceu recuar, tendo depois escrito na mesma rede social que acha “fantástico” quando um “fascista” morre, conta o Telegraph. Numa mensagem ainda visível, acrescentava: “Ninguém nos força a ter piedade de fascistas, podemos escolher não a ter sem qualquer consequência”.
absolut niemand zwingt einen Mitleid mit Faschisten zu haben, man kann es ohne die geringste Konsequenz einfach lassen
— E L H O T Z O (@elhotzo) July 14, 2024
Mas, ao contrário do que esperava, para Hotz houve mesmo consequências: pouco depois de eclodir a polémica sobre os seus tweets, foi despedido da rádio pública RBB — como Elon Musk chegou a pedir, marcando o então chanceler alemão Olaf Scholz numa publicação e defendendo que “alguém a desejar a morte do candidato presidencial norte-americano é pago para fazê-lo pelo governo alemão — e foi mesmo acusado de cometer o crime de “perdão e recompensa de atos criminosos”.
Como contava então o The Guardian, um dos vice-presidentes do Parlamento alemão, Wolfgang Kubicki, chegou a pedir também uma investigação criminal ao comediante. E a diretora de programas da rádio pública, Katrin Günther, considerou que as afirmações de Hotz não eram “compatíveis com os valores” da RBB, sendo que a também pública ARD cancelou um evento literário em que Hotz participaria devido aos “desenvolvimentos atuais”.
O julgamento começará dia 23 de julho, num tribunal de Berlim.
A divisão na sociedade alemã é a que tem acontecido nestes casos (e, noutra escala, a quem acontecido em Portugal, durante o julgamento que resultou de a dupla Anjos ter processado a humorista Joana Marques por ter feito humor com um vídeo dos cantores): há quem argumente, como o comediante Gerd Buurmann, que mesmo que o que Hotz disse seja “nojento” ele tem de “ter direito a dizê-lo”, e quem defenda que a internet não está “fora” dos limites legais.
Como o Telegraph recorda, em 2016 o apresentador televisivo Jan Böhmermann foi acusado de quebrar uma lei alemã que proíbe o insulto a “figuras de autoridade” depois de ler um poema satírico sobre o Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, em que dizia que o governante “adora ter sexo com cabras enquanto oprime minorias”. Apesar de a então chanceler Angela Merkel ter aprovado pessoalmente a acusação, depois de falar com as autoridades turcas, o caso acabou por não ter qualquer consequência — a não ser a revogação dessa lei.