Um dia de folga, um dia de paragem, um dia para lamentar nova ausência. A 16.ª etapa, uma das tiradas mais aguardadas de toda a Volta a França, começou com o (esperado) anúncio da desistência de Mathieu van der Poel, neerlandês da Alpecin que liderou durante quatro dias a prova depois de vencer a segunda etapa mas que não resistiu a uma pneumonia. “A saúde é a nossa prioridade máxima”, anunciou a equipa, dando conta de um período de repouso absoluto de uma semana antes de novos exames médicos. Menos uma figura após o abandono de Remco Evenepoel antes da paragem que deixou a edição de 2025 ainda mais reduzida a uma luta entre Tadej Pogacar e a Visma de Jonas Vingegaard – ou Tadej Pogacar contra si mesmo.

Apesar dos mais de quatro minutos de avanço na frente depois de verdadeiros hinos ao ciclismo a deixar toda a concorrência sem a mínima capacidade de resposta, o conjunto do dinamarquês recusava desistir da prova. “Está muito difícil mas, sinceramente, acredito que é possível. O meu ponto forte é sempre a terceira semana, lembrem-se disso”, dizia Vingegaard na conferência de imprensa feita no dia de descanso, quase a fazer um desafio ao impossível. “Tenho de atacar e é isso que farei, vou atacar. A diferença que existe explica-se com dois dias menos bons que tive, no contrarrelógio e em Hautacam, que nunca me tinham acontecido. Agora estou melhor, ele também pode ter um dia mau e a Visma tem um plano”, prometia o escandinavo.

Em paralelo, o próprio Wout van Aert parecia “picado” com as palavras de Tadej Pogacar antes do descanso. “Se estivesse no lugar do Jonas [Vingegaard], não seria a pessoa mais feliz ao jantar. Continuo a achar que ele pode ganhar o Tour, está em segundo e já demonstrou que está numa grande forma. Entendo que queiram ganhar etapas mas também aspiram à liderança da geral”, comentou o esloveno. “Se me incomoda? Não, não chateia nada mas não deixa de ser muito curioso que o Tadej diga isso… Se ele tivesse esperado pelo grupo do Jonas, tinha existido um gesto desportivo. Não o fez e agora queixa-se de algo que não existe, quando só queríamos lutar pela vitória na etapa. Todos queríamos entrar na fuga”, referiu o belga.

Mais uma pequena polémica a apimentar o regresso às estradas e logo com a mítica etapa de Mont Ventoux, naquele que seria mais um grande desafio para o todo poderoso Pogacar. “O nome não me interessa. Não quero dizer que não queira saber aquilo que estou a subir mas acredito que todas as subidas são mais ou menos iguais com uma distância e com uma percentagem que permite fazer cálculos com dados estatísticos. Na verdade, gosto de todas e de Mont Ventoux, é emblemático. Às vezes parece que desenharam este Tour para me assustarem porque montaram três etapas onde o Jonas Vingegaard me deixou para trás: Hautacam, Mont Ventoux e Col de La Loze. Mas analiso as situações de corrida e estou com muita vontade que cheguem estas duas etapas. Não estou à procura de uma vingança nem nada parecido mas quero ser o que tem as melhores pernas nesses dois dias, é isso que pretendo”, salientou o líder no dia de descanso.

“Como está a constipação do Tadej? Bem, há tantas diferenças de temperatura, no pódio o ar condicionado está no máximo, depois as conferências e o anti-doping, a seguir mais calor… Afeta mas está bem. Medo da queda em Toulouse? Nem tive tempo para pensar. Tenho duas frases que me acompanham sempre: ‘Hoje temos de ganhar, sim ou sim’ e ‘Qualquer problema tem solução’. É isso que procuro sempre”, comentou também Joxean Fernández Matxin, diretor da UAE Team Emirates. “O Tadej é tudo menos arrogante, se diz que a equipa lhe paga para ganhar é porque ele compete para ganhar. Está mais maduro, em todos os aspetos. Nos autógrafos, na corrida… Há uma diferença entre ser líder ou ser campeão e ele é um líder. Digo-lhe isso várias vezes: ‘Não és um campeão, és um puto líder'”, acrescentou o responsável da equipa.

A etapa mais assustadora de todo o Tour estava lançada. As alcunhas para o Mont Ventoux são muitas, da Montanha Mágica ao Monte dos Ventos passando pelo Gigante de Provenza, as histórias de etapas que foram passando por ali são ainda mais. É um ponto único: 1.910 metros de altitude, 15,7 quilómetros de ascensão a 8,8%. Como recordava a Marca, Roland Barthes escreveu que era “o local que jamais perdoará os mais débeis” e Eddy Merckx referiu que “não está louco quem sobe ao Mont Ventoux mas é louco quem depois o repete”. Foi ali que se viveram episódios trágicos como o golpe que vitimou o ex-campeão mundial Tom Simpson ou imagens icónicas como a corrida de Chris Froome sem bicicleta após colidir com uma mota. Ali, uma vitória é mais do que uma vitória e todos lutavam por um momento que ficaria para a história.

A etapa começou com o próprio Wout van Aert logo a tentar entrar ao ataque, numa tentativa de fuga que não surtiu efeito mas que deixou quase um “aviso” para aquilo que se poderia passar. Continuaram depois as tentativas de saída do grupo, com Marco Haller, Marc Hirschi (Tudor) e Xandro Meurisse (Alpecin) a terem uma primeira vantagem de quase 30 segundos. As movimentações continuavam, entre a ideia de colocar corredores na frente e os esforços para desgastar as principais unidades da UAE Team Emirates para retirar armas a Tadej Pogacar, mas a fuga estava de vez desenhada e com mais de 30 nomes na frente.

Pavel Sivakov, Marc Soler (UAE Team Emirates), Tiesj Benoot, Victor Campenaerts (Visma), Pascal Eenkhoorn, Ilan Van Wilder, Valentin Paret-Peintre (Soudal-Quick Step), Ben Healy (EF Education), Louis Barré (Intermarché), Mick van Dijke (Red Bull-Bora), Toms Skujins (Lidl-Trek), Xandro Meurisse (Alpecin), Julian Alaphilippe, Marco Haller, Marc Hirschi, Matteo Trentin (Tudor), Ewen Costiou, Raúl García Pierna (Arkéa), Enric Mas, Gregor Mühlberger (Movistar),Álex Aranburu (Cofidis), Simone Velasco (Astana), Pavel Bittner (Picnic-PostNL), Michael Woods, Krists Neilands (Israel), Jarrad Drizners, Brent van Moer (Lotto), Jonas Abrahamsen, Andreas Leknessund (Uno-X) e Arensman (Ineos) entraram todos no “comboio” da frente, conseguindo um avanço de 2.30 minutos mas com o pelotão a não querer que subisse muito mais.

Essa resistência acabaria por não durar muito, com a diferença a chegar aos cinco minutos que colocavam o triunfo da fuga como algo inevitável a 55 quilómetros do final. Era aí também que surgiam as longas retas com vento lateral, que poderia permitir cortes na frente como aconteceu mesmo com Fred Wright, Thymen Arensman, Julian Alaphilippe, Matteo Trentin, Enric Mas, Simone Velasco e Jonas Abrahamsen a saírem da fuga para uma vantagem que chegou de forma rápida aos 30 segundos, passando para quase um minuto a cerca de 50 quilómetros do final. À entrada do “inferno”, sobravam Arensman, Alaphilippe, Mas, Velasco e Abrahamsen mas a história onde todos os anos se faz história estava apenas a começar.

Enric Mas quis ser um super herói na terra dos heróis, chegou a ter 1.30 minutos de avanço mas acabou por não aguentar o ritmo infernal, faltando-lhe alguém ao lado para dobrar todas as dificuldades. A vir de trás, Ben Healy, Santiago Buitrago e Valentin Paret Peintre trabalhavam bem para recuperarem do gap que tinha sido criado, ao passo que a Visma voltava a colocar o “comboio” a preparar um ataque para Jonas Vingegaard que apareceu pouco depois. Uma primeira vez, uma segunda vez, resposta sem um aparente esforço extra para Tadej Pogacar, que a 1,5 quilómetros do final também tentou largar o adversário sem sucesso.

Ben Healy, Santiago Buitrago e Valentin Paret-Peintre iam atacando entre si mas começavam a perder algum fôlego, a ponto de van Wilder juntar-se ao companheiro da Soudal Quick-Step para uma batalha que passava a quatro. Ficou sempre a ideia de que se Pogacar tivesse arrancado para mais um ataque talvez ainda fosse a tempo de ganhar também no Mont Ventoux mas a tal maturidade competitiva do esloveno acabou por ser mais forte na hora da verdade, sabendo que ainda existem perigos por contornar neste Tour. Assim, a luta acabou por ficar mesmo entre os da frente, com Paret-Peintre a ganhar ao sprint a Ben Healy e a dar a primeira vitória a um francês nesta edição, com Pogacar a ganhar um par de segundos a Vingegaard à chegada. No dia em que nasceu um novo herói francês, o extraterrestre voltou a ditar regras.

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