A polémica demolição das casas no bairro do Talude Militar, em Loures, continua a dar que falar. Na reunião de câmara desta quarta-feira, o vereador do Chega, Bruno Nunes, acusou o presidente da autarquia, Ricardo Leão, de “populismo” e “eleitoralismo“, nomeadamente por ter levado a cabo o processo sem proteger as crianças, começando por criticar a ausência da Comissões de Proteção de Crianças e Jovens). Além disso, o partido sugeriu que seja pago um bilhete de avião aos imigrantes que querem regressar a casa.
Com o presidente da autarquia ausente no momento da discussão sobre o Talude, a vice-presidente da Câmara Municipal de Loures, Sónia Paixão, ignorou a proposta de remigração do Chega, mas assegurou que ninguém foi deixado ao abandono, assegurando não ter conhecimento de crianças a “dormir ao relento”.
Pouco mais de uma semana depois da entrada de máquinas no bairro do Talude Militar para destruir barracas, durante a reunião da autarquia, Ricardo Leão — que ainda não se tinha juntado aos trabalhos — foi criticado pelo vereador do Chega: “Somos a favor da demolição de toda e qualquer barraca que seja construída no município, agora as medidas eleitoralistas não podem valer tudo.” Aos olhos de Bruno Nunes, a decisão foi tomada sem haver formas de “resolver os problemas”, com “falta de planeamento e coragem”.
Além de apontar à situação “traumática” principalmente para as crianças que assistiram à destruição das casas em que viviam, o também deputado à Assembleia da República questionou o município sobre a ausência da CPCJ (Comissões de Proteção de Crianças e Jovens), da AIMA e até da Segurança Social. “Entrar com as máquinas, destruir as barracas, estamos de acordo… [mas a] CPCJ, estava onde? Porque é que não chamaram a CPCJ, porque é que as crianças não foram sinalizadas e institucionalizadas antes do tempo?”, questiona, apontando que a entidade teria de ser chamada e tomar decisões.
Aponta ainda que a viver no bairro havia imigrantes ilegais, legais e portugueses e que, por isso, a câmara teria mesmo de ter chamado a AIMA e a Segurança Social antes da demolição. “Ou seja, isolou-se o bairro, deitaram-se as barracas abaixo e não se resolveu o processo todo, mas era necessário e urgente agir por uma questão eleitoralista“, sugere, certo de que “não tem outra justificação” para a forma como tudo decorreu.
No seguimento, o vereador do Chega desafiou o executivo municipal a arranjar soluções, por considerar que o pagamento das rendas (uma caução e uma prestação) não é suficiente para que as pessoas prossigam as vidas com dignidade — além de apontar que se esse apoio for dado a imigrantes ilegais trata-se de “apoio e auxílio à imigração ilegal, é crime. “Há muitas pessoas que se lhe déssemos um bilhete de avião para regressar a casa, regressavam porque falhou a sociedade, o Estado falhou e as políticas de portas abertas do PS”, argumentou, acrescentando que as pessoas que estão a receber o apoio “daqui a dois meses não vão ter como pagar a casa”.
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“Ninguém ficou para trás a não ser aqueles que quiseram ficar para trás”
Sónia Paixão, vice-presidente da Câmara Municipal de Loures que estava a presidir aos trabalhos, não deu qualquer tipo de resposta à proposta feita pelo vereador do Chega, assegurando que “foram acionados todos os instrumentos de emergência que estão ao alcance” da autarquia “para não deixar ninguém na rua“. Contudo, explicou que para esse apoio ser dado é preciso que “as pessoas queiram” e o peçam.
Neste sentido, a autarca avançou que, até à noite desta terça-feira, “42 famílias foram aos atendimentos, três [estão] em unidades hoteleiras e seis estão a encontrar [algumas já] a beneficiar dos apoios (caução e uma renda)”. “Ninguém ficou para trás a não ser aqueles que quiseram ficar para trás“, assegurou.
A vice de Ricardo Leão confirma que há pessoas que estão em situações de ilegalidade e irregularidade, que há cidadãos em situações regulares, que trabalham com contratos outros que trabalham em condições precárias e também desempregados, realçando que a câmara tem, “de boa fé”, dado respostas junto às entidades como os serviços de ação social e gabinete de apoio ao imigrante.
“Não votámos ninguém ao abandono, não votámos crianças a dormir ao relento, das quais não temos conhecimento”, deu Sónia Paixão como garantia, reconhecendo que “muitas destas famílias não querem resposta porque estão à espera que a resposta municipal seja a entrega de uma habitação e ficam insatisfeitos com a resposta apresentada”.
Autarca de Loures diz que Talude Militar é “caso particular” e pessoas estão lá “porque querem”
O presidente da Câmara Municipal de Loures disse esta terça-feira, à entrada de uma conferência organizada pela SIC Notícias, que o bairro do Talude Militar “é um caso particular”, onde, depois das demolições que ordenou, “as pessoas estão porque querem”.
“Neste momento é um problema judicial”, sublinhou o autarca, escusando-se a responder se pretende continuar a operação de demolição iniciada na segunda-feira da semana passada, que deitou abaixo 55 habitações, mas foi entretanto suspensa, por decisão do tribunal, deixando nove casas de pé.
Além disso, Ricardo Leão revelou que apresentou uma queixa-crime ao Ministério Público (MP) denunciando uma “teia criminosa” de “comercialização de barracas” no bairro do Talude Militar: “Estão a comercializar barracas a dois mil e três mil euros cada cinco metros quadrados, com garantia de luz e água”.
Ainda na senda de acusações, o presidente da câmara de Loures acusou o movimento Vida Justa de “prejudicar as pessoas” do Talude, “proibindo-as de falarem” com os técnicos da autarquia. “O Vida Justa está a manipular estas famílias”, apontou, garantindo que a autarquia anda “desde março a falar com todas as pessoas” do Talude Militar, onde o movimento cívico tem alegadamente apoiado os moradores, nomeadamente angariando donativos.