A Tailândia lançou esta quinta-feira ataques aéreos contra dois alvos militares no Camboja, anunciou o exército tailandês, após confrontos entre as forças armadas dos dois países. Entretanto, ataques mútuos na fronteira já fizeram pelo menos 12 mortos, incluindo 11 civis e um soldado do lado tailandês, de acordo com a Reuters. As vítimas mortais são de nacionalidade tailandesa.
O ministro da saúde da Tailândia, Somsak Thepsuthin, acrescentou que 24 civis e sete militares ficaram feridos. Entre os civis mortos conta-se uma criança. No Camboja, não houve notícia imediata de vítimas. Entretanto, a Tailândia fechou a sua fronteira com o Camboja.
As forças armadas do país emitiram um comunicado sobre o ataque: “Os F-16 lançaram ataques! Postos militares cambojanos das 8.ª e 9.ª divisões [comandos das forças especiais] foram destruídos“, afirmou a divisão Segunda Região do exército tailandês, destacada no nordeste, numa publicação na rede social Facebook.
O Ministério da Defesa cambojano condenou a “agressão militar brutal” da Tailândia e acrescentou que Phnom Penh “não tem outra escolha senão usar o direito soberano e territorial para se defender da invasão do exército tailandês”.
Também o Ministério da Cultura do Camboja manifestou a “mais veemente condenação à agressão” realizada pelos militares tailandeses, afirmando que o ataque ao Templo Preah Vihear — Património Mundial da UNESCO — “pode constituir um crime de guerra”. Num comunicado citado pela CNN, o ministério classificou os ataques como uma “grave e inaceitável violação do direito internacional” e um “flagrante desrespeito” pelas obrigações legais de proteção do património cultural. Os ataques causaram “danos significativos” tanto na “área circundante como nas estruturas” do templo, que é um “sítio cultural sagrado e um legado histórico do povo cambojano”.
Entretanto, a Embaixada da Tailândia no Camboja solicitou aos cidadãos tailandeses que abandonem o país após os confrontos entre os exércitos das duas nações, que começaram esta quinta, e dada a possibilidade de os ataques “continuarem e expandirem-se”. O governo tailandês decidiu também expulsar o embaixador combojano de Banguecoque.
Previamente, o exército tailandês tinha dito que as forças de Phnom Penh abriram fogo numa zona fronteiriça da província de Surin e que seis soldados cambojanos estavam à porta de uma base de operações tailandesa “totalmente armados, incluindo [com] lança-mísseis”. Os países acusam-se mutuamente de iniciar o conflito após semanas de tensão.
O gabinete do primeiro-ministro tailandês anunciou a morte de um civil tailandês neste confronto, no nordeste do país. “Um projétil de artilharia cambojana atingiu a casa de um civil tailandês, matando uma pessoa, ferindo gravemente uma criança de cinco anos e ferindo outras duas”, disse a mesma fonte em comunicado.
No meio do ressurgimento da histórica disputa territorial entre Banguecoque e Phnom Penh, o primeiro-ministro interino tailandês, Phumtham Wechayachai, tinha dito aos jornalistas que recebeu um “relato, pouco depois das 08h00 [02h00 em Lisboa] de que foram disparados tiros”. “Estamos a investigar os detalhes”, continuou.
“A situação exige extrema cautela e deve ser tratada de acordo com o direito internacional. Não quero entrar em detalhes neste momento e peço aos meios de comunicação social que noticiem com cautela, pois as emergências podem surgir a qualquer momento”, acrescentou Wechayachai.
Entretanto, o presidente do Senado cambojano e antigo líder, Hun Sen, acusou as forças tailandesas de iniciarem o ataque. “O exército cambojano não tem outra escolha senão retaliar e contra-atacar”, escreveu Hun Sen também na rede social Facebook.
O Camboja e a Tailândia estão em conflito há muito tempo sobre o traçado da fronteira de mais de 800 quilómetros, definida em grande parte por acordos celebrados durante a ocupação francesa da chamada Indochina, entre final do século XIX e meados do século XX. A disputa intensificou-se no final de maio, após a morte de um soldado cambojano numa troca de tiros entre os dois exércitos.
Este é o segundo incidente do género este mês e acontece um dia depois de um soldado tailandês ter perdido a perna direita ao pisar uma mina terrestre em território fronteiriço, em Ubon Ratchathani. Banguecoque responsabiliza o Camboja pela instalação de minas terrestres em território tailandês, o que, a seu ver, constitui uma violação da Convenção de Otava, acordo internacional que proíbe o uso, o armazenamento, a produção e a transferência de minas terrestres antipessoais, de acordo com a emissora pública Thai PBS.
Em 2011, confrontos em torno do templo Preah Vihear, classificado como património mundial pela Organização da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e reivindicado por ambos os países, causaram pelo menos 28 mortos e dezenas de milhares de deslocados.
Embora em 2013 o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), principal órgão jurisdicional da ONU, tenha atribuído ao Camboja a zona contestada abaixo do templo, o traçado de outras zonas continua a opor Banguecoque e Phnom Penh.