Na semana em que foi público que não será reconduzido no cargo de governador do Banco de Portugal, Mário Centeno deu uma entrevista a explicar o caso, noticiado pelo Observador, sobre a nova sede projetada para Entrecampos. O ex-ministro das Finanças garantiu que deu “todas as informações” sobre o projeto ao Ministério das Finanças — o que não era obrigatório, já que o banco central é responsável pelas suas decisões, como diz na mesma entrevista — e  que não lhe foi feita “nenhuma pergunta”. Também não rejeita um futuro na política, preferindo o aforismo do “futuro a Deus pertence” ao “dessa água não beberei”.

Em causa está um contrato-promessa do Banco de Portugal com quatro sociedades do Grupo Fidelidade para a construção da nova sede nos antigos terrenos da Feira Popular. O contrato firmado por Centeno avançou apesar dos avisos sobre contingências graves e de alto risco que podem vir a colocar em causa o negócio. O ex-ministro socialista que está de saída do banco central garantiu “transparência” na condução do processo e que o Ministério das Finanças foi informado sobre os detalhes.

Em entrevista esta sexta-feira à noite à RTP3, Centeno garantiu que “toda a informação foi dada de forma voluntária ao Ministério das Finanças, embora o Banco de Portugal não estivesse obrigado a fazê-lo” — porque tem “autonomia” nas decisões, sublinhou. E enumerou o que diz ter sido facultado ao Governo: “Todas as informações sobre o contrato-promessa, os alertas, a forma como o Banco tratou dos alertas, o custo das avaliações” — diz que das duas avaliações pedidas, o Banco seguiu “a de menor valor”.

Também disse que o Ministério liderado por Joaquim Miranda Sarmento foi informado de que “o custo do projeto total não era o contratado”, alegando que a estimativa adicional, sobre o recheio do Banco, não foi divulgada publicamente por razões comerciais. Ao Expresso, o Ministério das Finanças disse que só tinha tido conhecimento “parcial” do projeto, mas Centeno reafirma o que disse.

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Na primeira entrevista após o anúncio a sua não recondução no cargo de governador, Mário Centeno começou logo por dizer que tinha aceitado falar para esclarecer o caso da nova sede. Começou por considerar “muito leviano que se levantem dúvidas sobre estas relações contratuais”, entre o banco central e uma seguradora. Justificou o avanço relativo à nova sede, numa altura em que estava no final do primeiro mandato e sem certezas sobre a recondução, com o “desejo geracional de encontrar um novo espaço onde todos possam estar juntos”. Também diz que avançou dados sobre a redução de custos, ao nível dos “custos de operação e rendas”, ao juntar na mesma sede vários serviços dispersos: “Dez milhões de euros por ano.”

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Futuro na política? “É bastante mais adequado ‘o futuro a Deus pertence'” do que “dessa água não beberei”

Nas questões políticas foi esquivo, preferindo direcionar a entrevista para os dados que queria dar sobre o caso, insistindo no “rigor financeiro inquebrantável” do BdP e que “ninguém consegue colocar” a sua “independência e a do BdP em causa”. Mas acabou por deixar a porta aberta para um futuro ligado à política. Mesmo no final da entrevista foi colocado perante o desafio de dizer qual dos dois ditados populares adequa à sua disponibilidade para um futuro na política: “Dessa água não beberei” ou “o futuro a Deus pertence”. Centeno não hesitou e disse logo que o segundo “é bastante mais adequado neste momento”.

Sobre a saída do cargo que ocupou desde julho de 2020, Centeno garante não existir “desilusão” e negou ter exercido a função colado ao PS, depois de ter feito parte de dois governos socialistas. Quando confrontado com as publicações feitas no tempo do seu mandato sobre políticas públicas, nomeadamente criticas à descida do IRC quando essa era uma das medidas centrais do Governo da AD para a economia, Centeno disse que o BdP “nunca deixou de dizer o que tinha para dizer sobre a economia portuguesa porque é essa a sua função”.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Lembrou que o BdP sempre produziu relatórios “mais e menos favoráveis” e que começou a publicar projeções orçamentais quando o socialista Fernando Medina era ministro e o mesmo quando publicou avaliações trimestrais da atividade económica. E aqui recorreu ao cinema infantil: “Às vezes estamos nestes filmes, eu levava os meus filhos aos filmes da Disney e havia um que era ‘À procura da Dory’ que é um peixinho que não tem memória. Os países não podem ser governados sem memória”, diz em resposta a uma pergunta sobre as publicações terem considerações sobre políticas do Governo.  “Não podemos querer silenciar essa análise económica seja ela qual for”, atirou sobre este mesmo ponto.

Quanto às nomeações feitas na reta final do mandato — o seu chefe de gabinete, Álvaro Novo, e a mulher do ex-secretário de Estado Mourinho Félix para a direção do departamento de estatística do BdP –, o governador cesante defendeu-se com o ataque.  “Quem fez as notícias não têm currículo para entrar no Banco de Portugal que é muito exigente. As pessoas que têm carreiras longas no BdP são sujeitas a grau de exigência muito elevado”, disse apontando que “essas pessoas têm uma carreira exemplar e não merecem este tipo de referência.” “Rita Poiares foi promovida pelos últimos três governadores”, disse ainda. Quanto ao chefe de gabinete, diz que o gabinete tem de funcionar sempre e que o conselho de administração “garantiu o funcionamento do gabinete até ao fim”.