Taleb al-Abdulmohsen, o médico saudita que matou seis pessoas num atentado contra um mercado de Natal na cidade alemã de Magdeburgo em dezembro de 2024, enviou um conjunto de cartas a pelo menos cinco pessoas que ficaram feridas no ataque, desencadeando reações de choque em várias delas e provocando uma onda de críticas às autoridades por terem permitido o contacto direto entre o atacante e as vítimas.

O jornal alemão Magdeburger Volksstimme revelou que as cartas foram escritas à mão e assinadas com a expressão “com cumprimentos amigáveis”, o que provocou ainda mais revolta entre as vítimas. “Inicialmente não conseguimos acreditar”, disse o destinatários de uma das cartas àquele jornal, citado pelo The Guardian. A pessoa disse ter revivido as memórias da noite do ataque quando recebeu a carta.

Outra das vítimas, que também recebeu uma carta, revelou que ficou em choque quando regressou das férias e encontrou a carta na caixa do correio. “Como é que um homicida consegue obter as moradas dos sobreviventes?”, questionou-se a vítima, em declarações à emissora regional MDR.

Magdeburgo. O “medo” e como o ataque ao mercado de Natal ajudou a imigração a estar no “centro” destas eleições

Segundo o The Guardian, vários relatos na imprensa local dão conta de que, nas cartas, Taleb al-Abdulmohsen pede “desculpa” e deseja a recuperação dos que ficaram feridos, mas também faz uma série de referências “confusas” e agitadas a refugiados sauditas e repete queixas que já havia feito antes do ataque. Nas cartas, o saudita de 50 anos de idade pede que o visitem ou que lhe escrevam — e pede ainda que lhe enviem, juntamente com as cartas, um envelope com selo e com a morada, para que lhes possa responder.

Taleb al-Abdulmohsen, que se encontra em prisão preventiva em Berlim, lançou-se com um carro contra um mercado de Natal, percorrendo cerca de 400 metros e atropelando dezenas de pessoas. Cinco morreram no dia, uma veio a morrer algumas semanas mais tarde e mais de 300 ficaram feridas.

Há ainda dúvidas sobre o modo como o agressor obteve as moradas das vítimas, havendo suspeitas de que possam ter sido tiradas de documentos do processo judicial, a que os seus advogados têm acesso. Kerstin Godenrath, deputada regional que lidera o inquérito parlamentar ao atentado, lamentou o caso, dizendo que o envio das cartas pode “retraumatizar” as vítimas, e pediu que seja verificada a forma como Taleb al-Abdulmohsen conseguiu enviar as cartas.

O envio das cartas foi também criticado por uma organização nacional de apoio a vítimas, que lamentou que este tipo de ações coloque as vítimas “à mercê do perpetrador” e disse que a receção das cartas em casa representava uma nova violação da vítima por parte de Al-Abulmohsen.

Por outro lado, o Ministério Público alemão garante que as cartas foram enviadas dentro de um envelope que, por seu turno, se encontrava dentro de um segundo envelope juntamente com uma carta das autoridades a explicar o conteúdo do texto — e foi dada às vítimas a possibilidade de escolher se pretendiam ou não abrir a carta do agressor. Desde o envio das primeiras cartas, a política de correspondência foi mudada e o gabinete do procurador garante que as vítimas serão informadas por telefone se novas cartas forem escritas — e poderão dizer se pretendem ou não recebê-las.

De nacionalidade saudita, Taleb Al-Abdulmohsen usava frequentemente as redes sociais para divulgar mensagens anti-Islão e era um apoiante do partido de extrema-direita AfD. O atentado de dezembro contribuiu, de resto, para colocar a imigração ainda mais no centro do debate político na Alemanha.

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